BARREIRO - António Ventura, HistoriadorÉ preciso deitar por terra as teorias sobre o contributo do Barreiro nos Descobrimentos
. Em 1185, na região entre Barreiro e Alcochete, foi formado o “concelho do Ribatejo”
António Ventura, historiador, considera necessário clarificar do que se está a falar quando nos referimos historicamente ao Barreiro.
Na sua opinião “do concelho do Barreiro, só se pode falar dele, após a sua existência em 1521”.
O historiador considera que é preciso “deitar por terra as teorias, sobre o contributo do Barreiro nos descobrimentos”.
Na sua opinião “tem pouca consistência afirmar que no Rio Coina funcionaram estaleiros da dimensão da «Ribeira das Naus».
“Tenho pena que a Câmara Municipal da Moita não colabore na divulgação da história local” – referiu Vítor Silva, documentalista, que defende a valorização de Alhos Vedros na epopeia dos Descobrimentos.

Por Jornal Rostos
António Ventura. docente na Escola Secundária de Casquilhos, que defendeu recentemente a tese de doutoramento sobre a História dos concelhos da Margem Sul do Tejo, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi o prelector convidado na iniciativa “Dois Dedos de Conversa…”, promovida pelo Arquivo Municipal do Barreiro.
«O Antigo Concelho do Barreiro – Séculos XIV a XIX» - foi o tema da sua intervenção, que esteve participada e animada.
Barreiro enquanto concelho só se pode falar dele após 1521
António Ventura, na sua apresentação colocou como ponto de partida a necessidade de se clarificar do que se está a falar quando nos referimos historicamente ao Barreiro.
Na sua opinião “do concelho do Barreiro, só se pode falar dele, após a sua existência em 1521”.
O historiador considera que é preciso “deitar por terra teorias, sobre o contributo do Barreiro nos descobrimentos”.
Na sua opinião, ao longo da história “temos vários Barreiros e temos que compreende-los assim”, defendendo é necessário fazer história com rigor, porque história é uma ciência, com objecto e método cientifico.
Misturar a Península da Arrábida com esta zona é um erro
António Ventura, refutou, igualmente “aquela historiografia que dá a Península da Arrábida como um todo” que se estende até à zona ribeirinha do Tejo e Coina.
“Não há essa unidade” – sublinhou.
O historiador defendeu que a região que se estende de Cacilhas a Alcochete foi constituída numa fase histórica, posterior à Península da Arrábida, e, no seu ponto de vista, de forma cientifica, abordou aspectos geológicos e ao nível do ecossistema, referindo as diferenças existentes entre a Península da Arrábida e a zona ribeirinha do Tejo e Coina, quer ao nível de arborização, constituição dos solos e climáticas.
“Não podemos misturar a Península da Arrábida com esta zona. É um erro” – sublinhou António Ventura.
Concelho do Ribatejo fundado no Século XIII
O historiador salientou que, em em data desconhecida (provavelmente no século XIII), na região entre Barreiro e Alcochete, foi formado o “concelho do Ribatejo”, disse, “formado a partir do concelho de Palmela”.
Este concelho, referiu, tinha duas sedes paroquiais - Alhos Vedros e Sabonha.
Recordou em 1514 foi fundado o concelho de Alhos Vedros, que se estendia de Sarilhos até perto de Coina.
O concelho do Barreiro, salientou António Ventura, foi fundado em 1521, retirado do concelho de Alhos Vedros, e, salientou que abrangia o seu território uma faixa que não englobava o Lavradio, nem as zonas de Palhais e Coina.
A zona de Vale de Zebro e Mata da Machada continuou a integrar o concelho de Alhos Vedros, até até meados do século XIX).
Por essa razão, o historiador, considera que ligar o Barreiro aos Descobrimentos – “não é intelectualmente honesto para a população de Alhos Vedros”.
António Ventura, sublinhou que o concelho do Lavradio foi fundado em 1670, enquanto o concelho da moita foi fundado em 1691.
A importância de Aldegalega
Segundo António Ventura, o concelho do Barreiro, um território que “cresceu em população acantonado entre dois rios”, o Tejo e Coina, tem particularidades que “ainda ninguém estudou”, nomeadamente as suas actividades no rio e a moagem.
Referiu António Ventura que nos séculos XIV a XVI a actividade económica estava centrada no Coina, mas partir do século XVII a XIX começou a ficar centrada em Aldegalega ( Montijo), por onde se faziam as ligações comercias para o Alentejo e Sul da Espanha.
“Aldegalega era o centro da riqueza” – sublinhou.
Caminhos Ferro – o nascer de outro Barreiro
O historiador sublinhou que foi o Caminho de Ferro, a partir de a partir de 1861, aumentou a importância do Barreiro e foi o marco que gerou profundas mudanças.
António Ventura recordou os escritos de José Augusto Pimenta para fundamentar que a partir da implantação dos Caminhos de Ferro nasceu um outro Barreiro, diferente daquele que vivia para a actividade marítima e que vivia dependente das produções das quintas dos concelhos de Alhos Vedros e do Lavradio.
Barreiro um “naco de terra”
José Caro Proença defendeu, contrariando António Ventura, que existiu a «Península Equabona» no período da romanzação do território de Portugal, defendendo que essa zona se estendia da Arrábida até ao Tejo.
Porque foi desanexado um naco de terra do concelho de Alhos Vedros, que deu origem ao Barreiro? – perguntou José Caro Proença.
Na sua opinião foi porque neste naco de território viviam “cavaleiros e homens letrados”, com uma expressão suficiente para que fosse reconhecido o concelho “num naco de terra”.
José Caro Proença sublinhou que quando, fala do Barreiro ligado aos descobrimentos, está a referir-se ao território da “península do Barreiro”.
A importância de Alhos Vedros nos Descobrimentos
Também, Vítor Silva, da Moita, um documentalista, referiu a importância de Alhos Vedros nos descobrimentos e sublinhou – “Tenho pena que a Câmara Municipal da Moita não colabore” na divulgação da história local.
Vítor Silva acrescentou – “Tenho pena que no meu concelho não se fale de Alhos Vedros que, esse sim, teve muito a ver com os Descobrimentos”.
Recordou Vítor Silva que, por Coina e Moita, passaram as estradas romanas que ligavam a Elvas, enquanto, por Aldegalega, passaram as “estradas reais”.
Estaleiros da Telha está por provar a sua dimensão
António Ventura, defendeu que a história tem que ser “problematização” e “fundamentação” e, portanto, disse, “a história é história quando é consequente”.
O historiador manifestou a sua preocupação, por exemplo, pelo facto de se afirmar que os estaleiros que construíram os barcos que participaram na epopeia dos descobrimentos tenham existido na zona do Rio Coina.
“A possibilidade das Naus do Gama terem sido construídas ali é mínima” – sublinhou.
Na sua opinião – “não está fundamentado em lado nenhum que os Estaleiros da Telha, tenham tido a envergadura que se diz”, refutando, desta forma pontos de vista expressos por José Caro Proença.
António Ventura, considera que só após escavações arqueológicas e com fundamentação se poderá comprovar a dimensão dos estaleiros, coisa que considera muito difícil de provar.
Referiu que, com a documentação existente isso não pode ser demonstrado.
António Ventura sublinhou que a “construção da história tem que se orientar pela realidade”, acrescentando que – “ciência sem consciência é como um deserto sem alma”.
“Tem pouca consistência a ideia que a Ribeira das Naus terá sido no Rio Coina” – sublinhou António Ventura.
O Barreiro e o seu território nos Descobrimentos
Questionado se o Barreiro, hoje, pode chamar a si a importância que o seu território teve nos Descobrimentos, António Ventura, considerou que o Barreiro pode “reivindicar o que existiu no seu território”, não pode é afirmar que o concelho do Barreiro, que só foi criado a partir de 1521, terá tido um papel nos descobrimentos, quando não existia.
Quinta da Ramagem ou Quinta da Rumagem
No debate, António Ventura, num nota de rodapé, referiu alguns dados sobre a designação da conhecida “Quinta da Romagem” ou “Quinta da Ramagem”, em Coina.
Na sua opinião as duas designações estão correctas, dado que existem documentos antigos, onde é designada por “Quinta da Rumagem” – que vem de Porto de Coina – mas também, em 1488, existem documentos, onde é referida como “Quinta da Ramagem”, zona muito arborizada.
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