PROJÉCTOR – Teatro do BarreiroNo dia 25 de Abril trouxe uma grito à cidade - LIBERTAI-VOS!
O Teatro Projéctor estreou no dia 25 de Abril a peça «Hospício», de Peter Weiss, com encenação de Abílio Apolinário e Assistência de Encenação de Luciano Barata.
Para quem gosta de teatro este é um espectáculo a não perder.
A peça «Hospício» tem uma acção dramática contínua de cerca de duas horas.
O facto é que quem está a assistir nem sente o tempo passar. A peça tem ritmo. A peça tem acção. A peça prende-nos e entusiasma.

Por Jornal Rostos
Esta nova produção do Projéctor vem, mais uma vez, demonstrar que este grupo de teatro do Barreiro carece de ter um espaço próprio onde possa cultivar a sua «escola teatral» e dar asas à sua imensa força criativa.
Só, sem dúvida, um grande amor ao teatro e o desejo de servir esta causa, gera a energia criadora que permitiu proporcionar aos barreirenses fruir deste brilhante e estimulante espectáculo.
Gostei do espectáculo. O fenómeno teatral que aconteceu na noite do 25 de Abril na SDUB “Os Franceses” foi arte!
Arte criada por um conjunto generoso de artistas amadores – aqueles que fazem teatro com amor – com uma total dedicação e entrega, deliciando o público que teve a honra de assistir à estreia do «Hospício”.
Sempre que vejo um espectáculo de teatro tenho um conceito, que adquiri com António Pedro, de olhar e sentir a vivência da peça como quem está a ver nascer uma obra de arte – uma pintura, uma escultura - emergindo no espaço e no tempo.
O palco é esse lugar onde vai nascendo, cena a cena, a criatividade, expressa na interpretação dos actores, nos movimentos, na plasticidade do cenário, no jogo de luz, na musicalidade e nas formas estéticas geradas na acção individual e de grupo.
A peça «Hospício» tem uma acção dramática contínua de cerca de duas horas.
O facto é que quem está a assistir nem sente o tempo passar. A peça tem ritmo. A peça tem acção. A peça prende-nos e entusiasma.
Há momentos de grande plasticidade. O encenador cria na sequência de cenas uma permanente acção psicológica, que se interligam e diluem, envolvendo o público na acção, obrigando-o a «sentir» que também é parte integrante daquele mundo – distante e actual.
Não foi necessário mexer no texto – introduzir-lhe acessórios de pseudo actualidade - para que ele possa ser contextualizado no tempo que vivemos.
Na interpretação a peça ganha com todas as presenças em palco, cada vivência dramática, cada gesto individual é como uma «nota de musicalidade» que constrói a história e contextualiza a «situação».
Os actores dão vida às personagens. Os próprios músicos funcionam como elemento estético, sentindo-se a sua presença como «um coro da tragédia grega», que gesticula, age e intervém no espectáculo, construindo uma «história sonora», no rufar, nos jogos de sons, sendo, sem dúvida, a sua «actuação» essencial na criação do clima dramático e psicológico do espectáculo.
Até, porque, a «musicalidade» da peça que, sublinho, não sei se é, mas parece original merece um louvor.
Na interpretação gostei de Manuel Gonçalves – Marquês de Sade – que soube dar dimensão à sua personagem, demonstrando, cada vez mais a sua estatura de actor.
Uma referência, igualmente, para João Cruz – Apresentador - uma personagem bem construída e vivenciada que parece emergir da «commedia dell’arte» e cuja força de interpretação consegue superar o próprio texto.
Outro registo, Tânia Pacheco – Charlotte Corday – é uma interpretação que parece moldada para o sentido estético que a encenação pretende dar ao espectáculo, criando momentos, onde a dimensão plástica e cromática são de uma perfeita harmonia escultórica.
Carlos Alberto Correia – no papel de Jean Paul Marat – surpreendeu-me, pela sua versatilidade, pela responsabilidade que tem na «construção-desconstrução» dos valores em conflito, assumindo uma dimensão humana de grande complexidade. Uma personagem essencial para dar sentido à peça – herói e mártir.
Uma personagem que, em certos momentos, faz lembrar a figura de Gandy, ou Cristo, transportando para os nossos dias a actualidade do texto.
Um papel bem conseguido. Uma nota a dicção carece de algum «treinamento» na sua projecção, não só pela exigência da personagem, mas até porque, ajudava e reduzia o esforço ao actor. No entanto, diga-se, tal não interfere na boa representação.
Mario Durval – no papel de Jacques Roux – está execpecional. Outra agradável surpresa. Consegue dar à personagem a sua dimensão patética de ingenuidade e heróica de força sentimental com bastante energia.
Uma nota – toca a reler o papel. Pois!
Lara Neyr, Daniela Pedroso, Vanessa Rodrigues e Romy Mendonça são uma força ao longo de toda a peça, conjugam adequadamente a linguagem gestual e a verbal, dando expressão plástica e mímica às personagens.
Há momentos que deveriam conter um pouco mais o ritmo da «intensidade de dizer» porque o texto acaba por perder-se na força «expressiva conjunta» das personagens.
Mas, sublinhe-se as interpretações são muito boas e o espectáculo é enriquecido com as suas vivências humanas – onde flui sentimento e a expressão sublime de gestos amorosos.
Elsa Barata – Simone Evrarde – tem um registo positivo bem conseguido, sendo um espelho da situação trágica que vai envolvendo Jean Paul Marat.
Todos os restantes personagens do Guarda, aos diversos doentes, são elementos que estão plenamente integrados no contexto da encenação, são personagens num manicómio que se estende para a plateia, sendo o público «convidado» a sentir que não está fora daquele mundo e que a aquele tem uma temporalidade epocal que se estende até ao lugar onde estamos a assistir ao desenrolar de gestos e gritos.
Os doentes são personagens marcados pela solidão no meio da multidão.
A peça vai dando expressão ao estado vazio daquelas personagens e criando o clima dramático, em crescendo, para que aquele «microcosmo» - Hospício - possa ser pensado como expressão da condição humana, ontem e hoje, que só será transformada se cada um individualmente e todos forem capazes de agir e encontrar o caminho que fica como proposta final – LIBERTAI-VOS!
Resta desejar que o público do Barreiro e da região possa saber marcar presença nos próximos espectáculos, dando desta forma, com a sua participação, o justo prémio ao esforço, dedicação e criatividade colocado por toda a equipa do Projéctor para representação desta peça.
Tome nota – Próximos espectáculos dias 1 de Maio, 8 de Maio, 15 de Maio, 22 de Maio e 30 de Maio, sempre ás 21,30 horas, na SDUB «Os Franceses».
Não falte!
António Sousa Pereira
SOBRE O AUTOR - PETER WEISS
Sobre o autor da peça muito há para dizer... Sabe-se que nasceu no dia 8 de Novembro de 1916, filho de um militar judeu e uma actriz cristã.
Viveu em Bremen na adolescência e com 18 anos teve de se exilar para fugir à perseguição nazi.
Com a chegada de Hitler ao poder, sai da Alemanha com a família e refugia-se em Londres, seguidamente para a Checoslováquia e Suécia.
Além de escritor também ficou conhecido como artista plástico e roteirista de documentários e filmes de vanguarda.
Descobre então numa viagem a Paris em 1947 a sua vocação literária e em 1960 escreve o 1 romance “A Sombra do Corpo do Cocheiro”.
Escreve ainda os romances “Adeus aos Pais” (1961); “A Conversação sobre os Três Caminhantes”, (1963); em 1964 escreve a peça sobre “A Perseguição e o Assassinato de Marat/Sade”, a qual teve um grande êxito; o “Interrogatório Oratório” (1965) e outros se seguiram. Escreve um musical politico”A Balada do Fantoche Lusitano”, e em 1968 escreve 2 discursos, um onde condena o papel dos Estados Unidos no Vietname e outro onde conta as Histórias de um pequeno homem que é detido pela policia.
Em 1969 escreve “Trotsky no Exílio”. onde evoca o seu ponto de vista sobre a Revolução Russa.
Em 197l uma nova peça “Holderling”, “Stuck in zein Aktenque” é a biografia do poeta com o seu nome. Seguiu-se em 1975 a “Estética da Resistência”.
Veio a falecer no ano de 1982, deixando uma extensa obra de grande qualidade e alguns prémios bem merecidos.
Sobre esta peça: Marat/Sade (Hospício)
Peça escrita em 1964, sobre a perseguição e o assassinato de Jean Paul Marat, representado pelo grupo Teatral do Hospício de Charenton sob a direeção do Marquês de Sade.
A peça constitui-se de três esferas temporais:
A 1ª esfera - Passa-se em 1808, período em que o Marquês de Sade esteve internado no Hospício de Charenton, devido à forma de vida que levava e às suas ideias libertinas, que segundo alguns, corrompiam a alma de qualquer um;
A 2ª esfera ocorre no ano 1793, com a morte de um grande e temível revolucionário jacobino, Marat, do Partido da Esquerda da Assembleia Nacional, que estando em casa a fazer os banhos medicinais é assassinado por Charlotte Corday, uma girondina do Partido da Assembleia Nacional, que à terceira tentativa o consegue matar com uma punhalada no peito;
A 3ª esfera é a do leitor, que lê ou assiste à peça, podendo ser tanto público da peça de Peter Weiss como da peça de Sade.
Valendo-se destas três dimensões, Weiss escreve a peça utilizando os factos que dispunha no momento: a encenação da morte do jacobino, Jean Paul Marat, pela girondina Charlotte Corday, dentro do Hospício de Charenton, local onde estava internado o Marquês de Sade que pela sua forma de agir e pensar, valia-se do facto de neste Hospício se desenvolverem avançadas experiências aos internos, para aplicar as suas encenações.
Além destas personagens é de mencionar a Enfermeira, o Guarda, os Doentes que também são Músicos, que tanto tocam musicas coordenadas como descoordenadas conforme a excitação da cena, o ex-padre, Socialista Radical, Jacques Roux, uma personalidade da Revolução Francesa, Duperret, um deputado girondino apoiante da ala direita e louco apaixonado por Corday, Simone Evrard, grande amiga do povo e de Marat bem como Culmier o director do Hospício.
O Coro e o Apresentador são o motor e a energia da encenação deste espectáculo.
Finalmente a última esfera surge com o desenrolar da peça que nos deixa indefiníveis sobre qual é o tempo em que estamos a falar.
Intemporal e com uma grande riqueza no debate de ideias entre o Marquês de Sade e Jean Paul Marat.
Abílio Apolinário
FICHA TÉCNICA E ARTISTICA
Luis Gonçalves
Coulmier
Manuel Gonçalves
Marquês de Sade
Carlos Correia
Jean Paul Marat
Elsa Barata
Simone Evrarde
Mário Durval
Jacques Roux
Tânia Pacheco
Charlotte Corday
Emanuel Saramago
Duperret
João Cruz
Apresentador
Lara Nayr
Tourlourou
Daniela Pedroso
Sansonnet
Vanessa Rodrigues
Cocorico
Romy Mendonça
La Fauvette
Fátima Pires
Enfermeira
João Martinho
Guarda
Dulce Caeiro
Doente
Manuel Graça
Doente
Graciete Pereira
Doente
Andre Pereira
Doente
Rogério Rosa
Doente
Risete Dias
Doente
Maria João
Doente
Luciano Barata
Doente
Pepito
Mestre Carpinteiro
Rosa Almeida
Mestra Guarda Roupa
Músicos
Henrique Borges
Rafaela Borges
Marta Borges
Sofia Borges
Eliana Borges
Dinis Borges
Abilio Apolinário
Encenação / Cenografia / Iluminação / Adereços / Figurinos / Direcção Musical / Montagem / Cartaz
Luciano Barata
Assistente de Encenação – Direcção de Actores - Montagem
BREVES REGISTOS













