ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro“A Mulher que Parou” - quando a arte dá as mãos com a reflexão filosófica
De súbito sentimos que a peça, tendo chegado ao fim, afinal, não chegou ao fim, porque vai recomeçar, talvez, porque continua como um desafio que brota no nosso pensamento e que nós transportamos para o nosso quotidiano – desistir, ficar parado, ou voltar a correr…

Por Jornal Rostos
A ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro estreou na sexta-feira, a peça “A Mulher que Parou”, de Tiago Rodrigues, com encenação de Carina Silva.
Um espectáculo, inserido na Programação do Mês do Teatro do Barreiro, que vai manter-se em cena no Teatro Municipal do Barreiro, às sextas-feiras e sábados, às 22 horas.
Registe, desde já, na sua agenda e não perca a oportunidade de ver este novo espectáculo da Companhia de Teatro - Arte Viva.
Para a história de Mariana Sardinha
A estreia de um espectáculo da Arte Viva é sempre um dia de festa e, naturalmente, proporciona o reencontro de um público que, é, sem dúvida, uma das realidades desta Companhia de Teatro residente no Teatro Municipal do Barreiro.
E, mais uma vez, com a sala cheia, decorreu um espectáculo que, como referiu Jorge Cardoso, vai ficar para a história de Mariana Sardinha – a Alice na peça – que, de forma brilhante, fez a sua estreia nos palcos do Arte Viva.
A Mariana Sardinha, é, um, dos muitos exemplos que brotam da actividade da companhia que, apesar das muitas dificuldades dos tempos de hoje, teima em agir, trabalhar, manter o teatro vivo e dar ao Barreiro: teatro e actores.
Recordar Emídio Cabós
De referir, as palavras de Jorge Cardoso que, no final do espectáculo evocou a memória de Emídio Cabós, actor da Arte Viva, recentemente falecido.
“Ele nunca faltava a uma estreia. Mas ele esteve aqui entre nós naquela cadeira vazia” – sublinhou.
A arte deu as mãos com a reflexão filosófica.
Dito isto, quero começar por dar os parabéns à encenadora Carina Silva e a todos que fizeram este espectáculo que nos proporcionou uma noite agradável, onde, a arte deu as mãos com a reflexão filosófica.
Tudo começa naquele diálogo “absurdo” junto à porta de casa, no começo de um novo dia, prossegue naquela conversa no bar, marcada pela repetição de gestos e hábitos, porque afinal – “toda a gente se habitua a tudo”.
Uma peça onde o texto tem um papel central e, de facto, os personagens nos conduzem, com uma boa dicção, na descoberta do texto que eles interpretam na perfeição.
O cenário tem a leveza plástica que basta para nos dar a dimensão dos lugares – a habitação, o bar, o salão de cabeleireira – espaços da cidade que percorremos, cena a cena, e, que, pela sonoplastia – os sons e ruídos da cidade, que escutamos nas mudanças de cena – nos dão a dimensão das ruas da cidade, como quem nos convida a fechar os olhos, sentir a vida, e, de novo retomar o texto e o contexto.
Quando seguia a peça, no seu primeiro momento, ocorreu-me a obra de Camus - «O Estrangeiro» - naquele sentimento de viver um vazio de emoções – que brota de decisão da Marta – ficar parada – que é vivida numa interpretação brilhante de Ana Samora.
Senti o absurdo das situações, naquela «discussão» levada ao limite que pretende impor a Marta a mudança de ideias e o retomar da vida quotidiana.
Uma peça que nos faz pensar em valores – a amizade, o egoísmo, ou o significado do outro – aqueles que são para nós uma referência e nos levam a agir, ou desistir.
A sombra é um relógio de sol
Depois, noutro momento, a propósito do gesto de «matar a formiga», esse dialogo, recordou-me uma fábula sobre as formigas, aquelas que nunca desistem, mas que deixam para trás quem se torna um obstáculo.
O texto permite-nos entrar na interioridade dos personagens, o ritmo dramático é marcado pelo carácter próprio das relações que se estabelecem nos diálogos entre os personagens e a simbologia dos espaços, onde as situações nos colocam perante a vida real – uns simples ténis, afinal, podem tornar-se o ponto de partida para sentirmos os sentimentos que fazem a vida daqueles personagens.
A cidade lá fora não está ausente, sentimo-la nas palavras, sentimo-la nas relações humanas que brotam das relações entre personagens.
“A sombra é um relógio de sol” – uma frase que marca a temporalidade e nos conduz à compreensão da dimensão da vida e do absurdo.
“Não finjo mais” – uma afirmação de quem, decide parar, num parar que é afinal um começar de novo.
Um texto que nos faz pensar na vaidade, onde o riso, surge de forma natural e, é, afinal, um fragmento do absurdo e do real.
Gostei da peça pela simplicidade da encenação. Gostei da peça por sentir o profissionalismo de todos os actores e actrizes.
Gostei da peça pela simplicidade da iluminação, da sonoplastia e das marcações dos espaços.
Gostei da peça porque a encenadora deu força à força do texto e deixou que cada personagem emergisse com a sua própria natureza e dinâmica.
Pensar no Mito de Sísifo
«Anda brindar Alice» - é o convite que fecha a última cena, e, Alice responde – “Não! Vou ficar parada”.
De súbito sentimos que a peça, tendo chegado ao fim, afinal, não chegou ao fim, porque vai recomeçar, talvez, porque continua como um desafio que brota no nosso pensamento e que nós transportamos para o nosso quotidiano – desistir, ficar parado, ou voltar a correr...
A peça findou, e, naquele instante, dei comigo a pensar no Mito de Sísifo, e, de novo, nos textos e reflexões de Albert Camus sobre o sentido da vida…
António Sousa Pereira
SINOPSE
«E se uma pessoa parasse, de repente sem avisar?
E ficasse sentada numa cadeira à porta de casa, quieta?
Será que desistiu de tudo, da vida, do marido, das amigas, do irmão, do emprego ou só agora começou a lutar?
Marta, a mulher que era um exemplo, um modelo de vida, parou. Torna-se uma preocupação para os que a rodeiam, uma interrogação. A normalidade quebra-se. Mas da curiosidade e preocupação à marginalização vai um pequeno passo.
“A Mulher que Parou” é mais sobre uma comunidade egoísta do que sobre Marta, e como escreveu o autor Tiago Rodrigues “(…) como as tragédias gregas que estavam mais preocupadas com os benefícios e malefícios para a cidade do que o destino dos seus heróis. Quem diz não e recusa qualquer compromisso com a sociedade torna-se um marginal ou um herói. E é na linha ténue entre estas duas categorias que podemos compreender a forma como vivemos (…)”».
Carina Silva.
Elenco: Ana Samora, Inês Valente, Jorge Pedro Ferreira, Liliana Nunes, Mariana Sardinha, Nuno Paulino, Patrocínia Cristóvão, Sara Santinho e Susana Marques.
Autor: Tiago Rodrigues; Encenação: Carina Silva; Assistência de encenação: Catarina Santana; Cenografia e grafismo: João Pimenta; Figurinos: Ana Pimpista; Desenho de Luz: João Henrique Oliveira; Operação de luz e som: Vanda Robalo e Vítor Nuno; Fotografia de cena: Cláudio Ferreira; Ass. Produção e Divulgação: Joana Pimpista e Rita Conduto.
O preço dos bilhetes é 7,5euros (geral) e 5 (menores de 30 e maiores de 65 anos).
Este espectáculo, inserido na Programação do Mês do Teatro do Barreiro.
Ficará em cena às sextas-feiras e sábados, às 22h00, no Teatro Municipal do Barreiro, Centro Comercial Pirâmides, Rua Vasco da Gama, 2830-340 Barreiro. Telefone: 21 206 0860.
A Arteviva é a companhia residente do Teatro Municipal.













