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Perspectivas

Mário Gonçalves uma «lição de arte» na Galeria do Barreiro«Eles não gostam da cultura por uma razão, a cultura implica espírito crítico»

. Ao Poder Politico e ao Poder Económico compete criar infra-estruturas

“O disparate está quando quem manda, seja poder político, seja poder económico, diz o que o artista deve sentir” – sublinhou Mário Gonçalves, Presidente da Assembleia-geral da Sociedade Nacional das Belas Artes, ontem, no decorrer do Encontro sobre "As Artes Plásticas e a Revolução - que mudanças?", realizado na Galeria Municipal de Arte do Barreiro.

“Há coisas que não compete a um Governo decidir, aquilo que um artista deve exprimir” – sublinhou.

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Mário Gonçalves uma «lição de arte» na Galeria do Barreiro «Eles não gostam da cultura por uma razão, a cultura implica espírito crítico»

Por Jornal Rostos

A Galeria Municipal de Arte do Barreiro recebeu, ontem o Encontro sobre "As Artes Plásticas e a Revolução - que mudanças?", tendo como painel de convidados Rui Mário Gonçalves, Presidente da Assembleia-geral da Sociedade Nacional das Belas Artes, e, Francisco Palma, Presidente da Associação Artesfera.

“Encanto” e “desencanto”

Mário Gonçalves recordou o seu “encanto” e “desencanto” que teve com o poster da criança a colocar uma flor na espingarda que foi um ‘icone” do 25 de Abril.
Sublinhou que o seu desencanto foi quando soube que estavam três braços a segurar a arma, cada uma delas significando um ramo das Forças Armadas, não dando a dimensão real daquilo que ele viveu e sentiu nas ruas de Lisboa.

Sentia-se que a Liberdade faz bem pele

Aquela flor que andava de mão em mão, disse, os mais informados sabiam - “o cravo era a flor preferida de Karl Marx”.
Percorreu memórias dos dias de Abril, uma revolução que salientou – “acumulou um grande capital humano” e foi “uma alvorada de esperança”.
“A adesão do povo ultrapassou as expectativas do MFA” – sublinhou.
Mário Gonçalves recordou as emoções que viveu naqueles dias de Abril e o primeiro 1º de Maio, um tempo onde – “toda a gente falava com toda a gente, por toda a parte, não haviam doutores, nem padres, nem generais”.
“Sentia-se que a Liberdade faz bem pele” – referiu.

Função social da arte é estar ao serviço dos movimentos

Mário Gonçalves, após recordar as suas memórias de Abril, sublinhou que a “função social da arte é estar ao serviço dos movimentos” , referindo, que “o artista não pode ser um aldrabão”.
“O disparate está quando quem manda, seja poder político, seja poder económico, diz o que o artista deve sentir” – sublinhou o Presidente da Assembleia-geral da Sociedade Nacional das Belas Artes, referindo que – “o tempo de implementação de uma cultura não é imposto por decreto”.
“Há coisas que não compete a um Governo decidir, aquilo que um artista deve exprimir” – sublinhou.
Recordou que ao Poder Politico e ao Poder Económico compete criar infra-estruturas, por exemplo, criar Museus.

Museu da Fraternidade que ficou na gaveta

O Presidente da Assembleia-geral da Sociedade Nacional das Belas Artes na sua intervenção proporcionou uma «viagem» pelas memórias, recordando que foi na sequência da Revolução Republicana que foi criado o Museu de Arte Contemporânea e foi desenvolvida a reforma das Belas Artes.
Recordou a criação do Museu de Arte Moderna, no ano de 1983, pela Gulbenkian, e contou episódios, como a proposta de criação do Museu da Fraternidade, após o 25 de Abril, que seria um fruto de ofertas de obras de artistas consagrados de todo o mundo, uma ideia que esteve para ser dinamizada no Chile de Salvador Allende, mas que não foi concretizada devido ao golpe de Pinochet.
Referiu que a ideia foi lançada por Mário Pedrosa, autor da mesma ideia no Chile, e, que, disse – “quis fazer o mesmo em Portugal, mas, nem o receberam”.

O ciúme e a intriga

Recordou, igualmente, a ideia de criar o Museu da Escultura da Pedra, em Pero Pinheiro, com o apoio do Fundo de Exportação da Pedra.
Um processo que não avançou devido a algo que afecta a vida portuguesa – “o ciúme dos artistas” e “o ciúme das Câmaras”, a “intriga dos artistas” e a “intriga das Câmaras”.
Mário Gonçalves salientou que há muitas coisas que são desperdiçadas em Portugal – “não por falta de dinheiro, mas por falta de inteligência”.

Cultura implica espírito critico

Recordou a importância de uma “politica cultural” geradora de “um discurso cultural” essencial há democracia, que deve ser a expressão duma realidade onde – “as pessoas dizem o que pensam” e não “este jogo de se ser socialista e fazer politicas de direita”.
“Eles não gostam da cultura por uma razão, a cultura implica espírito critico” – sublinhou.
No entanto, salientou na sua intervenção que os “políticos encartados” gostam de “ter bons artistas”, sempre que apelam ao voto.
“Não se impõe uma cultura, seria bom que os Ministros da Cultura não nos fossem impostos” – referiu Mário Gonçalves

Vontade pública pela arte

Francisco Palma, Presidente da Associação Artesfera, recordou que após o 25 de Abril, desenvolveu-se a “vontade pública pela arte” e cresceu “a vontade de criação espontânea”.
Referiu o processo de criação de associações de arte e de artistas, nos anos 80 e 90, assim como a abertura das autarquias que deram “apoio aos artistas”.
“A descentralização fixou novos centros de cultura” – referiu, acrescentando que tal contribuiu para gerar uma nova “relação com os artistas” e desenvolver interacções sociais e culturais – “integrando a arte com questões de memória e questões locais”.

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