Café-Concerto Fórum José Manuel Figueiredo - MoitaCâmaras Municipais poderiam influenciar as editoras

Por Jornal Rostos
No Café-Concerto do Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, na Baixa da Banheira, concelho da Moita, decorreu, hoje à tarde, uma conversa subordinada ao tema «As Realidades do Neo-realismo», que teve como prelectores convidados António Redol e Domingos Lobo.
Domingos Lobo, salientou a importância das comemorações dos centenários de Manuel da Fonseca e Alves Redol, e, lamentou que estas efemérides não estejam a servir como pretexto para ser promovida uma reflexão sobre a literatura portuguesa contemporânea, nomeadamente por parte da APE – Associação Portuguesa de Escritores.
“O que andamos a fazer a este património?” – interrogou Domingos Lobo.
Câmaras Municipais poderiam influenciar as editoras
António Redol, defendeu que as Câmaras Municipais, deviam desenvolver esforços conjuntos, com o objectivo de promover a literatura portuguesa, recordou que as autarquias são quem gere a rede de Bibliotecas Públicas, e, se juntassem vontades, podiam ter um papel importante na divulgação das obras e dos escritores, nomeadamente aqueles que não conseguem “furar" as barreiras da comunicação social que são influenciadas pelas grandes editoras.
“As Câmaras poderiam ter um papel de influência junto às editoras” – sublinhou.
Na sua intervenção lançou o repto de, nas Bibliotecas Municipais, serem criados «Conselhos de Leitores” que poderiam contribuir para divulgar autores e obras, evitando-se que, para promover as obras, seja utilizado o recurso aos critérios de obras mais vendidas divulgados pelas grandes editoras.
Alves Redol era um escritor que tinha censura prévia
A conversa começou com breves comentários sobre o autor e o estilo – “a forma, a abordagem que o autor faz é que dá o cunho especial”, salientou Domingos Lobo.
Neste contexto foi referido que a 5ª edição da obra de Alves Redol «Avieiros» terá sido completamente reescrita pelo autor, sendo tal, resultado de criticas que foram feitas à 1ª edição, por Mario Dionisio, e, também, pela evolução do escritor, que passou a observar – “a vida com outro olhar”.
«Barranco de Cegos», de Alves Redol, foi salientado é a obra onde o escritor atinge a “escrita no osso”, nela “fica no esencial”.
“Nesta obra Alves Redol é um autor de corpo inteiro, esta é uma obra prima da nossa literatura” – sublinhou Domingos Lobo.
António Redol, recordou que o critico de literatura João Gaspar Simões – “fartou-se de bater em Alves Redol”, no entanto, nessa época as obras de Alves Redol, disse, - “eram as que mais se vendiam e tinham a adesão dos leitores”.
“Alves Redol era um escritor que tinha censura prévia” – foi salientado.
Homens comprometidos com um projecto de sociedade
Na conversa foi sublinhado que o neo-realismo, era uma corrente literária marcada por análise marxista, sendo os autores neo-realistas homens – “comprometidos com um projecto de sociedade”.
Perante a interrogação sobre as influências do Partido Comunista Português sobre os escritores neo-realistas, foi sublinhado que esta corrente literária começou numa época, nos anos 30, que não existia uma grande presença na sociedade portuguesa do PCP.
“Os neo-realistas são pessoas da pequena burguesia” – sublinhou Domingos Lobo.
Foi referenciado que, no período do «baptismo» desta corrente literária, no ano de 1937, por Joaquim Namorado, não existia grande influência do Partido Comunista Português, mas, após os anos 40/41, - “começam a existir formas de organização e ligação dos neo-realistas com o PCP, é uma ligação natural”, que, foi salientado, tem ligações a ideias sobre arte expressas por Lenine.
Alves Redol terá sido uma das primeiras pessoas a falar, em Portugal, de Plekanov e das suas ideias.
As pessoas aderiam às estruturas combativas
As ligações e aproximação dos neo-realistas portugueses ao Partido Comunista Português, aconteceu, porque, foi dito – “as pessoas aderiam às estruturas combativas” - e, tal, terá influenciado a compra de alguns meios de comunicação social, nomeadamente a revista «Vértice», pelo grupo neo-realista de Coimbra.
“Os neo-realistas tiveram nas suas mãos as páginas de literatura de muitos jornais portugueses” – foi sublinhado, recordando-se, que, essas páginas eram espaços abertos e plurais.
“Não deixaram de falar de Virgilio Ferreira porque este se afastou do neo-realismo” – foi salientado, lamentando-se, que, esse pluralismo dos neo-realistas, nos dias de hoje, não aconteça em alguns órgãos de comunicação social.
Noutro ponto da conversa, falou-se da influência dos escritores neo-realistas portugueses na Europa, nomeadamente em Itália, sendo recordado que a corrente neo-realista avançou em Portugal a partir de 1936, enquanto em Itália começou a desenvolver-se após a segunda Guerra Mundial.
Recordou-se que o pensamento neo-realista influenciou a acção criadora em diversas artes na pintura, na fotografia e no cinema.













