Saltar para o conteúdo
Perspectivas

A “loucura” e “antipsiquiatria” à solta no BarreiroArte Viva numa «viagem hilariante» pelas gavetas do cérebro

O Arte Viva – Companhia de Teatro do Barreiro estreou, ontem, o seu novo espectáculo «Apanhados no Divã”, de Joe Orton, com encenação de Jorge Cardoso.

Uma deliciosa comédia que nos diverte do princípio ao fim, numa absurda esquizofrenia, que, afinal, como diz o ditado popular – “Tudo está bem, quando acaba em bem”.

5 min de leitura
A “loucura” e “antipsiquiatria” à solta no Barreiro Arte Viva numa «viagem hilariante» pelas gavetas do cérebro

Por Jornal Rostos

O espectáculo começa com a «construção» do espaço cénico, criando uma empatia imediata com o espectador que é «convidado» a interiorizar a construção do cenário, e, simultaneamente, sentir que, afinal, como observador, será parte integrante da sucessão de acontecimentos que ali vão decorrer.
Um cenário que vai crescendo, nascendo, com um belo suporte musical, de ritmos sincopados.
Senti o cenário como uma proposta que nos leva a pensar as “portas” e “portinhas”, “gavetas” e “gavetões” que fazem o cérebro de cada um de nós – e dos personagens - onde estão guardadas recordações, memórias, umas conscientes, outras inconscientes, que conduzem a viver o tempo entre a «loucura individual» e a «loucura social».
Ali, no cenário, nas paredes da «clínica» estão muitos «rostos», porque, de muitos «rostos» é feito o tempo que vivemos.

Uma peça que nos faz viver por dentro da «loucura», um texto esquizofrénico, com um enredo delirante, polvilhado, aqui e ali, de concepções ideológicas, que, a certo momento, me fez recordar um livro que li nos anos 70 ( e fui procurar à estante, antes de escrever este texto) – “Nós, a Loucura e Antipsiquiatria”, de Ernesto Bono, que escreve – “o mar pode ser profundo, o céu poderá não ter fim, mas nada há mais insondável que a mente-coração do homem…”.

Esta peça é divertida, hilariante, porque nos faz mergulhar pelas profundezas dos pensamentos, faz recordar estórias e factos, um texto que vai construindo e desconstruindo personagens, para, no final, nos dizer apenas, que tudo tem um principio e um fim, e, que não há «mistérios» que, um dia, pelo movimento da vida e do cruzar de «histórias», que, não sejam desvendados.
De facto, a peça tem um final feliz, pois, nela, concretiza-se o ditado popular -"Tudo está bem, quando acaba em bem”.

O Rui Félix – Drº Prentice - mais uma vez, como sempre, está esplêndido, dá vida à sua personagem e deixa fluir todos os outros com quem partilha o espaço cénico.

Ricardo Guerreiro – Drº Rance, que coloco em segundo lugar, com uma referência especial, porque, de forma plena exterioriza uma personagem que se move entre a «loucura» e a «sanidade do sistema». Um personagem cheio de fantasmas, fanfarrão, «lúcido», que nos faz sentir os «conflitos» que conduzem ao absurdo do sistema, permitindo, até, que sejamos capazes de pensar ou sentir as suas dimensões «kafkianas». Ele é afinal o «Estado» que nos «controla» e «legisla».

Manuela Félix – Srª Prentice – uma personagem que vai evoluindo – na medida em que vai bebendo – e, entre o burlesco e a lucidez discursiva, estabelece a ponte entre as sucessivas cenas, porque ela – afinal, a mãe – torna-se a «pedra angular» da história.

Patrocínia Cristovão – Geraldine Barclay – é vibrante, dá-nos a dimensão dramática das vivências psicológicas, conduz-nos a pensar e a sentir a nudez, faz-nos mergulhar nos dramas sociais, o sentido da sátira e do policial, por onde a peça também faz o seu caminho. Uma personagem que tem autenticidade e ritmo.

Bruno Vitoriano- Nicholas Beckett – está excelente na forma como «veste» as personagens, na sua duplicidade, entre a «farsa» e o sentir a «condição humana».

Nuno Paulino – Sargento Match – um personagem caricatura da «autoridade» pelo absurdo, que entra na peça, afinal, para a encaminhar para o desfecho da «investigação policial», a descoberta das partes desaparecidas de Winston Churchill. Um personagem divertido, de certa forma, nos dá a dimensão simbólica da «procura do culpado» que tudo resolve.

Em suma, se quiser dizer, em poucas palavras, o que me agradou na peça digo apenas – “Fartei-me de rir”. E, acrescento, fiquei mesmo a pensar na “loucura”, e, na “antipsiquiatria”.

Portanto, agende uma visita ao Teatro Municipal do Barreiro. Não perca este espectáculo. Viver no Barreiro e perder este espectáculo é perder, por um lado uma noite divertida, por outro lado, deixar passar ao lado mais um belo momento de criatividade dramática, sem o sentir e sobre ele reflectir.

Uma nota final, Jorge Cardoso, encenador, no final, apresentou a equipa, para demonstrar que o teatro é um trabalho de todos, onde, afinal, todos contam, e, também, dedicou a peça a dois “Rafael” e um “Miguel”, cujo nascimento se aguarda para breve.

António Sousa Pereira

A ArteViva – Companhia de Teatro do Barreiro
Apanhados no Divã, de Joe Orton
Encenação de Jorge Cardoso
Teatro Municipal do Barreiro
todas as sextas-feiras e sábados, pelas 22h00.

SINOPSE

«No mesmo dia em que o Dr. Prentice entrevista uma candidata ao lugar de sua secretária, é visitado por um inspector do Governo (do ramo "mental"). A chegada do Sargento Match, envolvido num complexo inquérito policial, só vem complicar mais a vida do pobre psiquiatra. O que se passou no Hotel Central? Onde estão as partes desaparecidas de uma estátua de Sir Winston Churchill? Quem pára a Senhora Prentice? Quem é louco afinal? Não perca esta corrosiva subversão da comédia de boulevard!
Apanhados no Divã (título original What the Butler Saw), uma comédia de Joe Orton, foi o último texto escrito pelo autor inglês, terminado um mês antes da sua morte em 1967. A encenação de Jorge Cardoso conta com a participação dos actores Rui Félix, Patrocínia Cristóvão, Manuela Ramos Félix, Bruno Vitoriano, Ricardo Guerreiro e Nuno Paulino.»

Ficha Técnica

Drº Prentice – Rui Félix
Geraldine Barclay – Patrocínia Cristovão
Srª Prentice – Manuela Félix
Nicholas Beckett – Bruno Vitoriano
DrºRance – Ricardo Guerreiro
Sargento Match – Nuno Paulino

Encenação – Jorge Cardoso
Assistente de Encenação – Ana Samora
Cenografia – Sara Franqueira
Assistente de Cenografia – Amélia Careto
Montagem – Dário Valente
Iluminação –João Henrique Oliveira
Música – Miguel Ramos Félix
Operação de Som – Vítor Nuno
Operação de Luz – Paula Pereira
Contra Regra – Ana Margarida Lourenço
Figurinos – Maria Cavaco
Imagem Gráfica – João Pimenta
Divulgação – Rita Conduto e Joana Pimpista
Fotografia – Claúdio Ferreira






















Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção