Arteviva – Companhia de Teatro do BarreiroAs regras da arte de bem fazer teatro…na sociedade moderna
Gostei imenso da interpretação, especialmente pela forma como, perante um texto «vazio de emoções», conseguiram dar-lhe vida, autenticidade, gerando «diálogo» e vivacidade naquele «discurso narrativo» marcado por «estereótipos».

Por Jornal Rostos
No Teatro Municipal do Barreiro, está em cena a peça «As Regras da arte de bem viver na sociedade moderna», pela Arteviva – Companhia de Teatro do Barreiro, uma peça, de Jean-Luc Lagarce, com encenação de Carina Silva, com a brilhante interpretação de Ana Samora, Rita Conduto, Sara Santinho e Susana Marques.
A peça é uma história sem história. O espectáculo começa na vida real, com as actrizes num gesto de «relações públicas» a abrir o caminho aos espectadores, quando se dirigem à sala.
Os espectadores, desta forma, desde o primeiro momento são «convidados» a sentir que o teatro é a vida.
As actrizes assumem aquele momento de abertura, com plena consciência que o espectáculo já começou, vivendo desde logo a interiorização das personagens.
Um texto de difícil interpretação que obriga as actrizes a viver de forma intensa os seus papeis, sentindo por dentro das palavras, e, sublinhe-se, elas, fazem-no com grande elegância e de forma muito expressiva.
São interpretações brilhantes, com domínio pleno dos personagens, que procuram transmitir, nos gestos e na repetição de palavras, um sentimento de «representação mecanizada», como quem vive «um ritual» de valores e de actos carregados de simbolismos.
O guarda roupa está magnífico, sendo, ele mesmo, estruturante da dimensão estética, epocal e (con)textual que se vive em toda a peça.
A cenografia está excelente, pela sua simplicidade, pela funcionalidade dos adereços, ali, todos os elementos são assumidos como continuidade do texto e contexto.
O desenho de luz está perfeito, na contraluz, na criação de espaço cénicos dominantes, iluminando as actrizes, criando profundidade, limitando a marcação ou, até, movendo a direcção do olhar dos espectadores para pontos de «referência» cénica.
O envolvimento de espectadores – como actores reais – transporta o palco para a plateia, num cruzamento de acções dramáticas divertidas.
As actrizes e os espectadores de forma dinâmica, estabelecem entre si uma interacção cénica que rompe o espaço de cena, alarga-o, reconstrói-o, dando ao espectáculo, de forma permanente, essa dimensão que liga o teatro à vida.
O texto é uma sátira dos costumes. Um percurso sobre situações – do nascer ao morrer. Entre o nascer e morrer a vida é feita de regras. Tudo tem solução. Tudo são opções de «bem viver».
Basta aprender e viver as regras, e tudo terá um final feliz!
Quero deixar aqui um beijo e os meus parabéns, à Ana Samora, Rita Conduto, Sara Santinho e Susana Marques, pois estiveram magnificas.
Gostei imenso da vossa interpretação, especialmente pela forma como, perante um texto «vazio de emoções», conseguiram dar-lhe vida, autenticidade, gerando «diálogo» e vivacidade naquele «discurso narrativo» marcado por «estereótipos».
Igualmente à Carina Silva, dou os parabéns, pela coragem de levar esta peça a cena, onde, pode afirmar-se, faz arte com perfeição, e abre caminho para cada um de nós pensar, como, de facto, a vida seria diferente se nos preocupássemos mais em viver com menos regras e colocar na vida mais amor e paixão.
No final do espectáculo de novo, as actrizes - «Relações Públicas» - despedem-se dos espectadores como quem transmite uma mensagem: a peça não acabou…ela vai continuar, lá fora, no mundo real.
Elas, ali estão, de novo, autênticas sem mexer uma pestana, continuando impávidas e serenas a viver as personagens, até ao último minuto, com a saída do último espectador...só então cai o pano!
Um destes dias, não perca. Vá ao Teatro Municipal do Barreiro.
A Ana, Rita, Sara e Susana, acredite, esperam por si com um sorriso! Eu senti o sorriso delas!
António Sousa Pereira
Ficha Técnica
Encenação – Carina Silva
Interpretação – Ana Samora, Rita Conduto, Sara Santinho e Susana Marques
Assistentes de Encenação – Catarina Santana e Vanda Robalo
Cenografia – João Pimenta
Montagem – Dário Valente
Figurinos – Ana Pimpista e Maria Cavaco
Desenho de Luz e Som – João Henrique Oliveira
Design Gráfico – João Pimenta
Produção e Divulgação – Rita Conduto
Fotografia – Cláudio Ferrreira
Agradecimentos – João Cavaco
No Teatro Municipal do Barreiro, «As Regras da arte de bem viver na sociedade moderna», pela Arteviva – Companhia de Teatro do Barreiro, uma peça, de Jean-Luc Lagarce, com encenação de Carina Silva vai estar em cena até 23 de Junho, à sexta-feira e sábado, pelas 22h00.
O valor dos bilhetes é de 5 euros e de 3 euros para grupos.
Reservas: 21 206 0860 | 96 478 71 09
Sinopse
Na peça, quatro “senhoras” passam orientações a respeito de como os indivíduos se devem comportar nas situações sociais comuns, como o nascimento, o batismo, o casamento, as bodas de prata e o funeral. É um texto totalmente narrativo, sem nenhuma indicação de ação propriamente dita. Ainda assim, são tão absurdas algumas afirmações das personagens, que surge daí a comédia. “As Regras da Arte de Bem Viver na Sociedade Moderna” é, na verdade, uma aguçada crítica aos padrões “politicamente corretos” que ganharam força a partir dos anos 80, período que marca o início da dramaturgia de Lagarce.
A peça conta com a interpretação de Ana Samora, Rita Conduto, Sara Santinho e Susana Marques.
Jean-Luc Lagarce
Jean-Luc Lagarce nasceu em França em 1956. As Regras da Arte de Bem Viver na Sociedade Moderna é um texto da sua última fase, escrito em 1994, um ano antes de sua morte prematura. A peça tem sua génese decalcada de um livro escrito em 1889, intitulado Usages du Monde - Règles du savoir-vivre dans la société moderne, da autoria de Blanche-Augustine-Angèle Soyer, conhecida por Baronesa de Staffe.













