Projéctor Companhia de Teatro do Barreiro«Confidências» …onde pela vagina vai-se para o mundo
Abílio Apolinário procurou, neste trabalho, dar força ao texto, colocando à partida na interpretação a grande responsabilidade para um bom resultado final.

Por Jornal Rostos
A peça «Confidências», levada a cena pela Associação Projéctor – Companhia de Teatro do Barreiro, é a 20º produção desta companhia de teatro do Barreiro, com a sua estreia abriu a 2ª edição da Festa do Teatro do Barreiro.
Pode dizer-se que a Festa do Teatro abriu com chave de ouro, com um espectáculo marcado pelo ritmo, intensidade dramática e como um grito de alerta para a temática da violência sobre as mulheres.
Uma peça de teatro, sabemos, é marcada por diversos aspectos, com destaque para o texto, a encenação e a interpretação.
Abílio Apolinário procurou, neste trabalho, dar força ao texto, colocando à partida na interpretação a grande responsabilidade para um bom resultado final.
Nota-se que há um trabalho notável do encenador, no que diz respeito à direcção dos actores, e, muito mais é de valorizar este aspecto, se considerarmos que os ensaios e a preparação do trabalho é fruto de boas vontades e disponibilidades de quem faz teatro por amor.
Naturalmente, colocou sobre os ombros dos actores a exigência da vivência dos seus papeis com intensidade.
Sente-se que há homogeneidade e profissionalismo na representação.
Uma nuance ou outra, aqui ou ali, uma branca ou uma fuga para a frente, não retira o equilíbrio de registos corporais e vocais que todos viveram de forma apaixonada.
A encenação tratou de definir as marcações, enquadramento dos actores no espaço, de forma que a interpretação fosse dinâmica e indissociável do e no contexto e no texto.
De uma forma geral pode afirmar-se que a interpretação dos actores foi positiva, com boa dicção, permitindo acompanhar a textualidade e o seu forte conteúdo.
Nota-se que viveram por dentro as palavras e isso é fundamental para que um actor possa dar vida às personagens.
O espectáculo teve unidade, teve ritmo, teve ambiência musical e jogo de luz que se integravam e funcionaram como enriquecimento do texto.
Nesta peça o texto, a linguagem, é a sua força principal, dando a dimensão dos dramas psicológicos e psicanalíticos do seu conteúdo.
Um registo para a interpretação de Elsa Barata, protagonista da mulher idosa, que dá a plena tensão do drama pessoal e social da personagem e, com rigor plástico, amplia a intensidade do texto.
Um pormenor que pareceu um pouco descontextualizado, não pela representação da actriz, mas pelo guarda-roupa, foi o papel interpretado por Anna Veiga, não gostei do vestido ( apesar de ser muito bonito), porque pareceu-me mais uma apresentadora de um Festival da Canção ou entrega dos Óscares, que, de uma jornalista-escritora que fazia a ponte entre o seu trabalho de campo de entrevistas e a vivência dramática do mesmo.
Nesta peça a linguagem toca os nervos, mas, por vezes, parece que é utilizada, numa ou noutra circunstância, como quem pretende criar angústia e chocar os espectadores.
O percurso do texto na peça, fez uma opção, dar uma visão da vida sexual centrada na violência, na denúncia da violência.
Sabemos que este é um tema forte, actual, que é preciso denunciar e alertar, mas, no final do espectáculo, fica-se com uma sensação algo deprimida, talvez por se sentir alguma ausência de uma dimensão erótica e mais poética.
Mesmo o texto que nos fala do nascimento, no principio da vida, é marcado por ausência de cor e luz, do brilho, natural, do que é a sensação de dar vida à vida. Parece que, no texto escolhido, falta uma visão feminina e está presente um sentimento um pouco misógino desta dimensão natural do ser mulher.
Um espectáculo que vale a pena ver, que vale a pena sobre ele discutir, abrindo um espaço de reflexão no final dos espectáculos, ou promovendo debates sobre esta temática, sendo a peça um bom leit motiv.
Um espectáculo com boas interpretações, com uma encenação sóbria e uma boa direcção de actores.
Um espectáculo onde a escolha do textos é uma opção de denúncia da crueldade, mas, que no fim, sou levado a pensar, que há mais vida em redor da vagina, para além da violência: há o amor!
Quando comecei a reflectir sobre a peça, pensei que título hei-de escolher, talvez – “Evaginação ao Poder”. Não, talvez – “Evaginai-vos uns aos outros”, em contrapartida a “Vaginas de todo o mundo uni-vos”.
Optei por este – Pela vagina vai-se para o mundo.
Parabéns Projéctor, é um bom tema, um bom desafio, e, um trabalho bem conseguido por toda uma equipa que sente-se, colocou uma grande paixão na sua produção.
Foi, sem dúvida, com chave de ouro que abriu a 2ª edição da Festa de Teatro do Barreiro e, obviamente, uma boa forma de marcar vinte produções do Projéctor.
António Sousa Pereira
Associação Projéctor – Companhia de Teatro do Barreiro
CONFIDÊNCIAS
Textos de Eve Ensler
Estreia – 2ª Edição da Festa do Teatro do Barreiro
Dia 3 de Novembro de 2012
Encenação – Abílio Apolinário
SINOPSE
Um conjunto de textos que torna a peça, radical, cómica, audaz e dramática, cujos factos reais a tornam cativante, mas também é uma chamada de atenção aos que habitam este planeta terra: QUE PAREM COM A VIOLÊNCIA CONTRA AS MILHERES.
Não é um tema novo, já foi abordado nos seus mais diversos pontos do Universo. Agora chegou a vez de um grupo de teatro da nossa terra chamar o seu público para ver “Confidências”.
São revelações de histórias muito pessoais sobre a Mulher e a sua intimidade, que as tornam repudiantes e traumáticas.
Por tudo isto e pelo que ainda não está contado, a nossa cultura tem de mudar.
Abílio Apolinário
Ficha Técnica
Encenação – Abilio Apolinário
Espaço Cénico e Desenho de Luz – Abílio Apolinário
Montagem Técnica
– Abílio Apolinário
- Luciano Barata
- José Marques
- João Martinho
Produção
- Maria João Quaresma
- João Martinho
- Fátima Pires
Actores
- Anna Veiga
- Elsa Barata
- Fátima Gama
- Inês Vigário Nunes
- Inês Nunes
- Lara Nayr
- Romy Mendonça
- Sara Aranha
- André Antunes
- Carlos Alberto Correia
- Mário Durval
- Ricardo Gião
- Tiago Soares
Coordenação Geral
. Abílio Apolinário
. Luciano Barata
Agradecimentos
. Rodica Gherasim
No próximo dia 17 de Novembro, sábado, pelas 21.30 horas, o Projéctor leva a cena a peça “Confidências”, na SFAL, Lavradio, no âmbito da 13ª Mostra de Teatro do Lavradio.













