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Perspectivas

«Os campaniços» deram vida ao Alentejo no BarreiroUma peça marcada de autenticidade e pelo rigor plástico

João Ferrador, encenador natural do Barreiro, desenvolve a sua actividade profissional em Lisboa.
Hoje, com alguma emoção, com a presença dos seus pais na plateia, apresentou um trabalho por si encenado, a peça “Os campaniços”, de Luís Miguel Ricardo e João Paulo, levada a cena pelo Grupo «Oficinas de teatro da Penha de França».
O espectáculo contou com a participação do Grupo Coral Alentejano «Os Amigos do Barreiro».

5 min de leitura
«Os campaniços» deram vida ao Alentejo no Barreiro Uma peça marcada de autenticidade e pelo rigor plástico

Por Jornal Rostos

O Grupo «Oficinas de teatro da Penha de França» levou a cena no dia 9 de Dezembro, na SFAL – Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense, a peça “Os campaniços” de Luís Miguel Ricardo e João Paulo, com Direcção de actores e concepção cénica de João Ferrador.
O espectáculo contou com a brilhante participação do Grupo coral alentejano “ Os amigos do Barreiro”.

Neste espectáculo a preocupação do encenador é recriar o ambiente do Alentejo. O cenário é marcado por fardos de palha que dão a cor, o cheiro e o ambiente da ruralidade alentejana.
Os actores interpretam os seus papeis com o ritmo e a linguagem característica do povo alentejano.
Não se trata de uma sátira aos costumes alentejanos mas, apenas, de um conjunto de quadros que procuram com ironia, com versatilidade, proporcionar um encontro com as formas de ser e estar de uma cultura muito própria e dos seus choques com as «modernices», como foi a ida à discoteca a Beja.
Uma peça marcada de autenticidade e pelo rigor plástico.
Há momentos hilariantes. A peça decorre com muito ritmo, sendo no palco que tudo decorre, até a mudança de figurino dos personagens.
Uma história em que o actor assume, por diversas vezes, o lugar de actor e narrador, com beleza expressiva.
Penso que alguns actores, por vezes, pela necessidade de recorrer ao sotaque alentejano, acabam em, algumas situações, por ter uma dicção rápida que faz perder a alguns espectadores o sentido discursivo. Mas no geral as interpretações são positivas.

A presença do Grupo Coral Alentejano «Os Amigos do Barreiro»no espectáculo foi muito agradável. Este foi um exemplo de como é possível a partilha de saberes e experiências e como, na verdade, um grupo com vida própria pode ser enquadrado num espectáculo, pelo que sabemos, quase sem qualquer ensaio, acrescentando-lhe mais valia e dando mais valia ao próprio cante alentejano.

Fazendo uma actuação de forma muito digna e sóbria, e, naturalmente, proporcionando uma forma diferente e criativa de se escutar o cante alentejano.
Aliás, este é um pormenor que permite lançar o desafio a muitas autarquias do Alentejo para que convidem o Grupo «Oficinas de teatro da Penha de França» e, desta forma, sem grandes custos, podem proporcionar aos seus grupos corais locais uma experiência muito própria e inovadora de divulgação do cante alentejano, enquadrada num espectáculo agradável e divertido.
Os jovens do grupo «Oficinas de teatro da Penha de França» mereciam este convite e João Ferrador, o encenador, sentiria que este espectáculo era divulgado e acarinhado na região da sua origem.

No espectáculo houve um momento, por causas técnicas, que faltou a luz nos projectores, mas, na verdade, o espectáculo continuou, escutando-se o cante alentejano, ali, como um som que brotava da escuridão do fundo de uma mina, ou numa noite escura como o breu na planície alentejana.
Se a cena fosse intencional, até, diga-se , que passava perfeitamente, pois aqueles sons que se escutavam na escuridão sentiam-se como um hino do Alentejo evocando os seus mineiros, ou a resistência de uma noite escura que marcou este país.

Foi um espectáculo agradável, divertido, com uma sala composta de um público que, em certas situações, parecia que estava a recordar estórias e memórias.

João Ferrador certamente viveu, neste dia, uma experiência única da sua vida de homem do teatro – um reencontro com a sua terra e, em simultâneo a experiência de promover a interdisciplinaridade do cante com o teatro, assim como o intercâmbio com um Grupo Coral que viveu a sua participação de forma muito nobre.
Parabéns!

António Sousa Pereira

Sinopse de “Os campaniços”

Debaixo de uma soalheira tremenda Zé Aranha e Joaquim Zorro discutem os pormenores para a concretização da ideia editorial, proveniente do âmago criativo do primeiro.
Joaquim oferece resistência ao projecto, acha que vai ser uma carrada de fezes e avisa Zé para se desmaginar disso.
Mas a amizade por Zé e a característica inocência levam-no a aceitar o desafio e depressa arranjam gente que lhes escreva um livro de contos alentejanos, a que viriam a chamar “Heróis à moda do Alentejo”.
Pelas mãos dos dois entramos em “Os campaniços”, um dos contos da obra, e passamos para uma ambiência alentejana marcadamente rural, o moço que só arranjou namorada aos trinta anos, o grande balho do Monte da Carocha, local considerado por Zefo Dias como o melhor para arranjar uma magana, o pedido de casamento a Cipriana Calabaita nas margens do barranco e o atraso do noivo por ter caído da motorizada. As bandas filarmónicas que grande parte das vezes acabam às barqueiradas, a descoberta da discoteca em Beja e muitas outras odisseias alentejanas bem humoradas.
“Levas com uma tarranada nas ventas que até andas de arrecuas!”

João ferrador

Ficha técnica e artística
“Os campaniços”

Oficinas de teatro da Penha de França

Autor: Luís Miguel Ricardo e João Paulo
Direcção de actores e concepção cénica: João Ferrador
Musica: Daniel Tavares
Operação de som: João Pedro Dantas
Figurinos: Rita Matos e Ana Paula Avelar
Interpretação: Alexandre Donário, Ana Paula Avelar, Daniel Tavares, Filipa Noronha, Filipe Barbosa, João Canário, João Eleutério, Luísa Poço, Maria Catarina Felgueiras, Paula Correia de Oliveira e Ruben Milheiras.

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