«O Homem da Picareta» no Teatro Municipal do BarreiroUma peça onde ...a esperança espreita do alto da janela!

Por Jornal Rostos
Quando o espectáculo terminou fiquei com a sensação que não tinha terminado. Ao sair perguntei ao Dário : “Terminou, ou é intervalo?» Ele sorriu.
De facto aquele final deixa essa sensação que não acabou ali, talvez, porque será cada um de nós que vai continuar a vivenciar as situações: nas relações do nosso prédio, na comunicação do quotidiano, na descoberta das nossas caves, onde sentimos os “tremelicos” da vida.
O final é soberbo, uma penumbra, com intenso sentido plástico.
Aquela luz que ilumina o túnel, abrindo uma brecha, uma luz que, pouco a pouco, se esvai, dilui suavemente e conduz-nos à plena escuridão.
É, talvez, por essa razão, que nasce subconscientemente esse sentimento que não acabou, tudo vai continuar, num caminho em busca de uma nova luz, porque, é assim, todos acreditamos, afinal, há sempre uma luz ao fundo do túnel.
Num tempo que vivemos, neste nosso Portugal, todos os dias vincados pela ideia de crise, de obscuridade de ideias, esta peça coloca-nos perante os dramas diários, até, perante os discursos que fazem o nosso quotidiano – “Se os sem abrigo aguentam, porque é que nós não aguentamos”, ou até pensar sobre as «facas nas costas», ou a ausência de comunicação, num tempo marcado por excesso de palavras.
A peça «O Homem da Picareta», de Miguel Castro Caldas, com encenação de Carina Silva, conta com uma brilhante interpretação de Ana Sofia Samora, Catarina Serra, Joana Pimpista, Nuno Magalhães, Susana Marques e Vítor Nunes.
O texto da peça é exigente, desdobra-se no contexto e nas realidades das próprias personagens. Coloca aos actores um desafio permanente de grande flexibilidade, na interpretação e nas vivências das situações.
O facto de serem mulheres a assumir papéis masculinos, com muita perfeição, tal, também nos conduz a reflectir sobre o sucesso da representação.
O cenário está sóbrio, é funcional, aquelas tubagens criam a sensação que tudo se liga, entrecruza, projectando-se para além do próprio lugar, aquela cave, onde há vida e escombros, onde há morte e esperança.
Afinal, a esperança que espreita do alto daquela janela, um ponto de luz, onde, são observados os sinais de vida exterior, mais não seja, os que emergem nas palavras da personagem, que nos transmite o que vê, são os cães, os gestos dos cães, os actos dos cães, que, como dizia, o poeta – “também existem”.
A luz, neste espectáculo, tem uma importância pictórica, quer na marcação dos personagens no espaço, quer na projecção da beleza expressiva dos rostos, quando tal é indispensável para dar força ao texto no contexto, porque a peça vive das palavras e da força das palavras.
Poderá haver várias maneiras de encarar este espectáculo, ou com um sentimento de fuga para a frente – isto não é comigo, que chatice -, ou, com um sentimento de interiorização e convite a mergulharmos na nossa própria “cave de sentimentos” e dificuldades da vida, sentindo que, há sempre uma esperança, basta querer pegar na «picareta».
Num tempo que vivemos, aqui e agora, marcado de angústias, este espectáculo pode ser visto como um grito de alerta que nos deixa a mensagem final, apontando caminhos, dizendo que, mesmo para lá de toda a destruição, haverá sempre uma luz ao fundo do túnel.
Sendo um espectáculo feito por jovens, afinal, é neles mesmos que reside essa luz e essa esperança, porque, de facto, depois de um terramoto há sempre a reconstrução.
Gostei da interpretação. Gostei da encenação. Gostei do espectáculo.
Gostei deste empurrar-me para dentro das palavras.
O espectáculo é um momento de arte e criatividade, que abre brechas, faz rupturas, conduz-nos a pensar a vida para além do real e mergulhar por dentro do absurdo das situações, entre o trágico e o drama.
Gostei de saber que, neste Barreiro, há jovens que vivem a arte pela arte, com a paixão de viver o teatro pelo teatro, porque, sente-se, ele(a)s sobem ao palco fazendo o que gostam, sentindo com fervor as personagens e o texto…depois, é sempre assim - sinta quem vê!
António Sousa Pereira
O HOMEM DA PICARETA
Em cena: sextas e sábados 21h30, até 2 março.
No Teatro Municipal do Barreiro
Bilhetes: 5€ preço normal, 3€ desconto para grupos com mais de 10 pessoas.
Reservas: 964787109, 212060860 e arteviva.geral@gmail.com
O espetáculo O HOMEM DA PICARETA está integrado nas comemorações do Mês do Teatro em Março de 2013, no Barreiro.
Ficha Técnica
Autor: Miguel Castro Caldas
Encenação: Carina Silva
Interpretação: Ana Sofia Samora, Susana Marques, Catarina Serra, Joana Pimpista, Nuno Magalhães, Vítor Nuno
Assistência à encenação e produção: Rita Conduto
Cenário e Imagem gráfica: João Pimenta
Construção: Dário Valente
Figurinos: Ana Pimpista
Confeção: Teresa Balbi
Caracterização: Maria Matilde Cavaco
Desenho de luz: João Henrique Oliveira
Operação técnica: Pedro Duarte e André Concórdia
Apoio geral: Pedro Duarte e André Concórdia (estagiários da Escola Secundária D. Pedro V)
Classificação: M16
Nota do autor sobre a peça «O Homem da Picareta»
Na cave, o homem da picareta escava uma parede para ganhar espaço na sala. A sua mulher procura um escadote para poder ir à janela. Sem querer, o homem da picareta fura os canos e tem de chamar um canalizador. Mas na verdade o que se está a passar é um terramoto que o canalizador tem de consertar.
Na avaliação fatalista do canalizador entra o discurso d´ O Poema sobre a desgraça de Lisboa de Voltaire. O homem da picareta tece considerações dignas de um Kant. O ajudante do canalizador percorre uma viagem por dentro de um terramoto. A mulher espera que se resolva um problema de infiltração.
Aqui ou ali cita-se:
- O Poema sobre a desgraça de Lisboa de Voltaire;
- ensaios a propósito do terramoto de 1755 em lisboa de Kant;
- o relato do que aconteceu ao Sr. Thomas Chase, em Lisboa, no grande terramoto, escrito por ele próprio;
- a carta dum mercador inglês, residente em Lisboa à data do terramoto;
- e uma frase apenas do Fernão Mendes Pinto que não tem nada a ver com isto.
Miguel Castro Caldas
Sobre o autor
No seu teatro, Castro Caldas não define contornos das personagens. “Tudo menos isso. No fundo, todos nós estamos a desempenhar papéis. Ficamos presos ao nosso vocábulo. E é esse lado que me interessa”, diz. Isso e as relações – não as personagens – e o que de revelador delas possa emergir. “As identidades são coisas muito instáveis. É uma invenção. Eu sou o que sou em função do que está à minha volta. Não sou sempre o mesmo.” A
personagem é criada a partir desse encontro que a rodeia. (…) Recusar e desmanchar o discurso, parti-lo, para que outros o redescubram, colando os cacos.
In “A crise é um drama”, artigo de Ana Dias Cordeiro, Revista 2, Jornal Público, 16 de Dezembro de 2012
MIGUEL CASTRO CALDAS nasceu em Lisboa em 1972. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Escreveu as obras de ficção Queres Crescer e Depois Não Cabes na Banheira e As Sete Ilhas de Lisboa. Para teatro escreveu para a companhia Primeiros Sintomas: A Montanha Também Quem, O Homem do Pé Direito, O Homem da Picareta (estreado em 2004, com encenação de Bruno Bravo), Conto de Natal – Variações de Dickens, Nunca-Terra em vez de Peter Pan e É Bom Boiar na Banheira. Nos Artistas Unidos, em 2005, participou na escrita de Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices e na versão portuguesa de A Fábrica de Nada de Judith Herzberg.
No programa a Companhia de Teatro Arte Viva expressa o agradecimento especial a Miguel Castro Caldas pela cedência dos direitos de autoria do texto. Numa época em que os artistas vêem os seus direitos retirados, a generosidade deste acto é reveladora da esperança e da luta por uma sociedade mais culta.













