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Perspectivas

Barreiro - Arte Viva estreia «Biedermann e os Incendiários»Uma «lição» sobre a natureza humana…que faz sorrir e pensar!

. É preciso rir porque os «incendiários» andam por aí…

Se quiser dizer aquilo que mais me agradou neste espectáculo foi ter vivido uma noite divertida, com fortes gargalhadas, demonstrando-se que é possível rir sem necessidade de recorrer a brejeirice, é possível falar de políticos e de politicas, sem necessidade de recorrer a referências a nomes da actualidade, porque, afinal, o entendimento da realidade fica para que, na sua interioridade, cada espectador sinta e pense, de acordo com a sua visão do mundo, seus valores e sem dogmas.

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Barreiro - Arte Viva estreia «Biedermann e os Incendiários» Uma «lição» sobre a natureza humana…que faz sorrir e pensar!

Por Jornal Rostos

A peça “Biedermann e os Incendiários”, de Max Frisch, com encenação de Jorge Cardoso, que vai estar em cena até junho, às sextas e sábados, pelas 21h30, no Teatro Municipal do Barreiro, merece, desde já, que se diga, é essencial que os barreirenses e todos aqueles que gostam de teatro na região não faltem, não percam esta oportunidade de ver um grande espectáculo, que diverte e abre caminho, neste mês de Abril, para reflectirmos sobre Portugal e o mundo, sobre a natureza humana, a sua relação com divino, com a vida e com a morte, sendo ou não sendo crente.

Estamos em Abril, este mês de referência na nossa vida colectiva, um mês marcado de simbolismos, de esperança, um mês que se escreve com a palavra Liberdade.
Assistir, neste tempo, nesta actualidade à peça “Biedermann e os Incendiários”, faz-nos mergulhar por dentro do tempo, sentir a força da sua actualidade.
Há um momento na peça que um espectador comenta por trás de mim: “Parece que estão a falar de Portugal!”. Também senti isso, mas posso acrescentar parece que estão a falar de Portugal, da Europa ou do mundo de hoje, deste tempo que vivemos marcado pelo ritmo da “encenação de ideias”.

Se quiser dizer aquilo que mais me agradou neste espectáculo foi ter vivido uma noite divertida, com fortes gargalhadas, demonstrando-se que é possível rir sem necessidade de recorrer a brejeirice, é possível falar de políticos e de politicas, sem necessidade de recorrer a referências a nomes da actualidade, porque, afinal, o entendimento da realidade fica para que, na sua interioridade, cada espectador sinta e pense, de acordo com a sua visão do mundo, seus valores e sem dogmas.

O real concreto está ali, nós sentimo-lo, pode ser o real da cidade, como pode ser o real do país, da europa ou do mundo.
Não é uma peça oca, não rimos por rir, se calhar rimos porque sentimos a vida real, aquela que todos os dias nos entra em casa pelos canais de televisão, emergir, subitamente, nos diálogos das personagens.

Uma peça com forte conteúdo filosófico, com uma intensa mensagem sociológica, que nos abre uma janela para pensar e sentir Portugal, e que nos propõe que pensemos a importância de sentir humanamente e deixarmos de viver apenas olhando para os números.
Uma peça que nos alerta para o desfecho final de todos nós, para um lugar, onde, então, deixarão de contar as jóias, propondo-nos uma reflexão sobre o sentido da vida, fazendo despertar o grilo falante da nossa consciência, sem dogmas, com grande abertura, como quem quer anunciar a Primavera.

Tudo isto foi decorrendo no espaço cénico, com muito ritmo, com intensidade, numa encenação deslumbrante que nos transporta a momentos que revivemos os coros da tragédia Grega, ou noutros momentos aos ambientes de filmes de Music Hall, brilhantemente interpretados pelo coro dos bombeiros, com intensidade na voz e plena expressão corporal.
Há momentos cénicos de interpretação do coro que apetece aplaudir.

Uma encenação que procura construir arte no espaço, construindo e reconstruindo os cenários, vestindo e despindo as personagens, com perfeição, num perfeito equilíbrio no jogo de sombras, de luz e pleno enquadramento da selecção musical, do guarda roupa, dos adereços. Tudo pensado ao pormenor. Porque, afinal, no teatro tudo conta para transmitir emoções ou gerar pensamentos.

Uma peça que, naturalmente, também vive da interpretação dos actores. Rui Félix – no papel de Biedermann - , como sempre viveu o seu personagem de forma intensa, contando com um excelente acompanhamento de Patrocinia Cristovão – no papel de Babete - ambos com excelente expressão vocal e dominando os personagens com rigor e profissionalismo.
Vanda Robalo – no papel de Ana – cria a personagem com muita firmeza, e, aquele facto de mudar a cor do avental, do branco para o vermelho, mantendo o mesmo comportamento caricatural, é, sem dúvida, muito bem conceptualizada ao nível da encenação.

Ricardo Guerreiro – no papel de Schmitz - que não recordo de ter visto actuar anteriormente, assim como Henrique Gomes – no papel de Eisenring – colocaram realismo nas suas personagens, deram-lhes o sentimento interpretativo essencial para lhes dar quer a dimensão cómica, quer dramática no contexto global do espectáculo. Gostei. Estiveram excelentes.

Vítor Nuno – no papel de policia – ou Alexandre Antunes – no papel de universitário, assim como Celeste Mestre – no papel de viúva Knechtling – vivem as suas interpretações com as exigências do «jogo dramático» e com domínio das suas personagens.
Mas, acredito, que com a realização de sucessivos espectaculos, até Junho, vão soltar-se mais e perder alguns «tiques» que são naturais numa estreia.
Gostei de todos, mas, não quero deixar de fazer um registo à interpretação exigente, do ponto de vista facial, que, de facto, foi muito sólida, de Celeste Mestre.

Jorge Cardoso habituou-me a sentir, nas peças que leva a cena, a intensidade das suas mensagens, pela sua actualidade, pelo seu rigor na construção do espaço cénico, pelo ritmo que coloca na relação entre os personagens.
Jorge Cardoso em cada uma das suas peças rasga o vazio dos dias e abre portas a uma dimensão cultural, que nos obriga a pensar, com as personagens, com o texto, com os cenários, e, como espectadores nunca saímos indiferentes. Somos obrigados a rir e a pensar.

Aquela destruição do cenário está deslumbrante, porque, na verdade, é uma destruição que abre caminho para uma reconstrução.

Quando assistimos a uma peça, no final, o que perguntamos a nós mesmos, é, se valeu a pena, ou seja, reflectirmos se sentimos no plano estético – na dimensão emocional - ou no plano ético – na dimensão moral - se, afinal, aquele tempo que vivemos, foi, ou não, um contributo para nos enriquecer como seres humanos.
No fundo, trata-se de sentir, afinal, se acrescentamos alguma coisa à nossa vida, nesta construção do tempo que vivemos.

Posso dizer, que no final do espectáculo senti que me diverti, diverti-me de forma hilariante.
E quando caminhava para casa, reflectia com as palavras e a «camuflagem» das palavras, pensava a cidade, pensava Portugal e pensava na Europa.
Gostei. Gostei mesmo imenso, porque afinal os incendiários andam por aí e fazem muita mossa nas nossas vidas.

António Sousa Pereira

A peça “Biedermann e os Incendiários” vai estar em cena até junho, às sextas e sábados, pelas 21h30.

“Biedermann e os Incendiários”

Sinopse
Os jornais não falam de outra coisa: vendedores ambulantes conseguem ser recebidos por cidadãos incautos que, no dia seguinte, veem as suas casas em chamas. Chegam a arder bairros inteiros. Instala-se o medo. Reclamam-se medidas drásticas contra os incendiários. Tocam à campainha da porta do Sr. Biedermann: é um vendedor ambulante!
QUE FAZER?

Max Frisch
Arquiteto e escritor suíço de língua alemã, Max Frisch é sobretudo conhecido fora do seu País como romancista e dramaturgo. Inicia-se na escrita ainda nos anos 30 do século passado, numa Suíça neutral mas potencialmente ameaçada pelo expansionismo alemão.
Já no pós-guerra, Frisch alcança enorme sucesso, no contexto da criação de uma nova dramaturgia alemã. Na década de 60, as suas peças são já representadas por toda a Europa, incluindo Portugal.
Em 1962, “O Respeitável Senhor e os Seus Hóspedes” estreia no Teatro Experimental do Porto, numa encenação de João Guedes, com o título censurado (“Biedermann e os Incendiários” não fora aceite). A peça foi apresentada sem epílogo (sendo certo que este não constava do texto original, tendo sido acrescentado em 1958).
Já com o título do presente espetáculo e encenação de Pedro Lemos, “Biedermann e os Incendiários” foi levada à cena em 1963, no Teatro Nacional D. Maria II, agora com todo o epílogo censurado. Em 1977, o Teatro de Animação de Setúbal apresentou a peça, sob o título “O Senhor Benquisto e os Incendiários”, numa encenação de Carlos Wallenstein.
Influenciado pelo teatro épico de Bertolt Brecht – mais ao nível da forma do que da temática –, Frisch tem em “Biedermann e os Incendiários” (1953) e “Andorra” (1961) os seus maiores êxitos teatrais.
A primeira, explicitamente afirmada como “lição sem doutrina”, não parece tanto afirmar a capacidade transformadora do teatro (Brecht), como servir o próprio teatro enquanto arte de fazer perguntas.
Vista como metáfora da chegada ao poder do nazismo e partindo da perplexidade que tal facto provocou (“como é que aquilo pôde acontecer?”), a peça continuou sendo apresentada um pouco por todo o mundo, agora também como referência a todas as ameaças totalitárias, de cariz político ou religioso. Transparece dela a natural tendência das sociedades abertas alimentarem e darem guarida aos seus inimigos.
No seu registo irónico, na sua aparente simplicidade, a alegoria de Biedermann confronta-nos com o facto de a instalação do medo ser o primeiro sintoma das democracias em perigo.
Poderá chocar-nos a inércia, a complacência, o medo de Biedermann perante todas as evidências?
E o que faríamos se estivéssemos no seu lugar? – pergunta ele.

Ficha Técnica
Biedermann – Rui Félix
Babette – Patrocínia Cristóvão
Ana – Vanda Robalo
Schmitz – Ricardo Guerreiro
Eisenring – Henrique Gomes
Um polícia – Vítor Nuno
Universitário – Alexandre Antunes
Viúva Knechtling – Celeste Mestre
Corifeu – Rita Reis
Coro – Helena Cruz, João Reis, Maria Matos, Paula Gonçalves, Susana Marques, Vítor Nuno

Encenação – Jorge Cardoso
Assistente de Encenação – Ana Samora
Cenografia – Sara Franqueira
Música – Miguel Félix
Movimento – Andreia Martins
Figurinos – Ana Pimpista
Adereços e Apoio Figurinos – Maria Cavaco
Guarda-roupa – Catarina Gonçalves
Desenho de Luz – João Henrique Oliveira
Operação Técnica – Miguel Félix, André Concórdia, Sérgio Ventura, Inês Valente
Contrarregra – Pedro Duarte
Design – João Pimenta
Produção/Divulgação – Rita Conduto
Apoio Geral – Dário Valente, João Oliveira Jr.
Serralharia e carpintaria – José Luís Galego, Amélia Careto
Agradecimentos – Ângela Farinha, Joana Pimpista, Manuel Alpalhão

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