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Perspectivas

António Camarão, Técnico da Câmara Municipal do BarreiroEstado Novo coloca bacalhau como referência na gastronomia dos portugueses

“Palhais foi o braço de ferro do anterior regime para por ordem na produção do bacalhau” – sublinhou António Camarão, ontem à noite, no decorrer da Conferência subordinada ao tema :“Bacalhau, ofícios e gastronomia”, integrada na 1ª Festa do Bacalhau, que está a decorrer na freguesia de Palhais.

Em Palhais existiu “uma central de armazenagem como não há memória” – referiu António Camarão.

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António Camarão, Técnico da Câmara Municipal do Barreiro Estado Novo coloca bacalhau como referência na gastronomia dos portugueses

Por Jornal Rostos

No âmbito da programação da 1ª Festa do Bacalhau, que está a decorrer na freguesia de Palhais, no concelho do Barreiro, ontem à noite, realizou-se uma Conferência subordinada ao tema :“Bacalhau, ofícios e gastronomia”.
O evento decorreu no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Palhais, sendo moderado por João Santos, Animador Cultural, que recordou a importância do bacalhau na freguesia e evocou memórias, recordando que “o bacalhau era vendido na Praça do Barreiro, onde havia sempre bacalhau de molho e grão, esse era o comer dos pobres”.
“O bacalhau é um bocado da vida de Palhais” – sublinhou João Santos..

Ano 1212 coloca-nos na rota do bacalhau

António Camarão, Técnico da Câmara Municipal do Barreiro, referiu que o atum, a baleia e o bacalhau ao longo dos anos foram “fontes da economia nacional”.
Recordou que na Europa, duas zonas contribuíram para a “introduzir o bacalhau na Europa”, a zona de Biscaia, em França, e Aveiro, em Portugal.
O historiador sublinhou que as memórias do bacalhau no nosso país remontam ao reinado de D. Sancho I, por influência das suas relações diplomáticas com a Dinamarca, que desde o ano 1212 – “coloca-nos na rota do bacalhau”.

Quinta da Bacalhoa e «Bacalhau à Brás»

António Camarão, salientou que no século XVI, foi Brás de Albuquerque – quem mandou construir a Casa dos Bicos, em Lisboa - filho de Afonso de Albuquerque, que criou o conhecido prato «Bacalhau à Brás», utilizado pelos navegadores nas viagens dos descobrimentos, por ser mais fácil a conservação do bacalhau nessa longas viagens marítimas.
Recordou que a conhecida «Quinta da Bacalhoa», em Azeitão, propriedade da viúva de Brás de Albuquerque, recebeu esse nome de «Bacalhoa», precisamente pela ligação ao «Bacalhau à Brás».

«Bacalhau à Gomes Sá» origem no Porto

António Camarão, referiu que a partir do século XIX, regista-se uma “forte presença do bacalhau na gastronomia portuguesa, principalmente na região para baixo de Aveiro”.
Recordou, entretanto, que o conhecido “Bacalhau à Gomes Sá», teve a sua origem no Porto.

Salazar promove a «campanha do bacalhau»

António Camarão, recordou que durante o período do Estado Novo, as agruras da vida, colocam o bacalhau como uma referência na gastronomia dos portugueses.
Salientou que, contrariamente à ditadura de Franco, em Espanha, que apostou na construção de uma rede de frio por todo o país, para proporcionar o acesso a peixe fresco, a ditadura de Salazar, optou por promover a «campanha do bacalhau», criando o Grémio dos Armadores e promovendo uma rede de distribuição por todo o país.

«Parceria Geral do Bensaude» na Telha

O historiador salientou que o território do concelho do Barreiro está ligado ao bacalhau, desde que foi permitido, nos anos finais da monarquia, que o capitalista Bensaude, cuja actividade se iniciou nos Açores, optou por dinamizar a sua actividade na zona do estuário do Tejo, instalando a «Parceria Geral do Bensaude», na Telha, na época freguesia do Lavradio.
Recordou que navios emblemáticos da frota bacalhoeira, como o Creoula ou o Argos, integraram a frota de Bensaude.

Central de armazenagem como não há memória

António Camarão, salientou que o «Estado Novo temeu a força do capitalistas», quer de Bensaude, quer de Alfredo da Silva.
Referiu que, para combater a importância de Bensaude na área do bacalhau, o Estado Novo estimulou que o Fiel de Armazém José Luis da Costa, com o apoio de Tenreiro e Salazar, na construção do «maior centro de importação» de bacalhau, em Palhais.
“Era uma central de armazenagem como não há memória” – referiu.
Recordou que a produção do bacalhau era na Telha, enquanto Palhais era o armazém.
“Palhais foi o braço de ferro do anterior regime para por ordem na produção do bacalhau” – sublinhou António Camarão.

Pessoas em Portugal comem muito bacalhau

Amílcar Malhó, jornalista, especialista na área de gastronomia e vinhos, sublinhou que as pessoas em Portugal comem muito bacalhau, porque “em tempos idos jejuava-se muito, por razões religiosas, os ricos pagavam as bulas e podiam continuar a comer carne, os pobres que não podiam pagar a bula, optavam por comer bacalhau, o que levou ao aumento do seu consumo”.

Receita original do «Bacalhau à Gomes Sá»

Recordou que na receita original do «Bacalhau à Gomes Sá» - “o bacalhau não é cozido, é remolhado e abafado em lume brando, para evitar que saia a gordura do bacalhau, pois, assim tem melhor sabor”.

«Carne de Porco à Alentejana» é do Algarve

Amílcar Malhó, recordou igualmente que o prato conhecido como «Carne de Porco à Alentejana» não tem origem no Alentejo, é um prato algarvio.
Referiu que no século XIX, começaram a alimentar os porcos com restos de comida com peixe e, na época, gerou-se um surto que “a carne de porco começou a ter sabor a peixe”.
Então, alguns produtores, para evitar a confusão entre os sabores do porco, começaram a alimentar os porcos de forma mais natural.
Os restaurantes no Algarve que cozinhavam a «Carne de Porco com ameijoas», esse é o nome original do prato, colocavam letreiros a divulgar que tinham «Ameijoas com carne de Porco Alentejano», e assim fixou-se o nome para a história.

1ª receita escrita remonta ao ano 1780

Amílcar Malhó, referiu que a 1ª receita escrita, conhecida em Portugal, remonta ao ano 1780, embora haja referências ao bacalhau na gastronomia nos anos 1600.
Na sua intervenção recordou que o bacalhau frito é uma tradição gastronómica do Minho, mas no Ribatejo, o bacalhau é o acompanhamento das migas.
Por outro lado, referiu que no Brasil o bacalhau foi introduzido pelos portugueses e, ainda hoje, é referido como «Bacalhau do Porto».

Bacalhau e o vinho moscatel

Foi uma tertúlia animada que contribuiu para referenciar a importância do bacalhau na freguesia de Palhais e no concelho do Barreiro.
No final, sublinhou que esta festa deve ter continuidade e dar-lhe uma dimensão mais concelhia de forma a tornar-se uma referência gastronómica.
Ficou a promessa de Amílcar Malhó de convidar um Chefe de Cozinha de forma que, no próximo ano, seja divulgado um novo prato que tenha como produtos de referência o bacalhau e o vinho moscatel.

VER FOTOS FESTA DO BACALHAU

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