Projéctor - Companhia de Teatro do Barreiro«A Cumeada dos Montes»…obviamente é um grito à Liberdade!
Um bom texto. Uma boa interpretação. Uma boa encenação. Um bom espectáculo.
O final como o Grupo Coral Alentejano «Unidos do Lavradio» está brilhante, com imaginação e criatividade poética.

Por Jornal Rostos
A Associação Projéctor – Companhia de Teatro do Barreiro, ontem à noite, estreou a sua 25ª produção teatral “A Cumeada dos Montes”, com encenação de Abílio Apolinário.
O espectáculo foi levado à cena na SIRB – Sociedade Instrução e Recreio Barreirense, tendo marcado presença o autor Raul Zagalo, numa sala que contou com uma bela moldura humana.
De teatro aprendi com António Pedro a importância do texto, como elemento estruturante da acção entre os personagens e, obviamente, como suporte de cada uma das personagens.
O texto de Raul Zagalo tem força e permite a cada actor vivê-lo de forma integral e senti-lo como forma de realizar o texto no contexto.
O texto ao ser dialogado entre as personagens torna-se tanto mais forte, convincente e vivo, quanto mais os actores-personagens forem capazes de o interiorizar, viver e sentir.
O actor é o intérprete do texto e pela expressividade, pela emoção, dá-lhe dimensão no contexto cénico.
Os três papeis desta peça “A Cumeada dos Montes” são muito exigentes, porque fazem brotar para o palco – como vivência real - não apenas as personagens na sua exterioridade, mas acima de tudo proporcionam um «mergulho» por dentro das suas ansiedades, dimensões psicológica, nos valores e sonhos que caracterizam a sua interioridade.
Uma peça que é de facto uma lição de história de psicanálise da história.
Esta peça para além de um revisitar a história do mundo antifascista, da resistência, nas suas contradições e contrariedades epocais, faz-nos também reflectir essencialmente sobre o carácter das figuras históricas que vivem aquela situação dramática.
O cenário cria os espaços para que as personagens se movimentem, numa vivência real, numa unidade e simplicidade com muito equilíbrio.
A cena inicial, do personagem «Atalaia», que funciona com preâmbulo, acompanhada pela musicalidade e ritmo de Nuno Cavaco, está soberba e com riqueza estética. Mas, acredito, ainda pode sair com mais harmonia.
O final como o Grupo Coral Alentejano «Unidos do Lavradio» está brilhante, com imaginação e criatividade poética.
Um bom texto. Uma boa interpretação. Uma boa encenação. Um bom espectáculo.
Carlos Alberto Correia – Atalaia – vive de forma intensa a sua personagem, nota-se, no entanto que na sua segunda intervenção, no diálogo com o General atinge mais maleabilidade.
Tem uma boa dicção, comunica com confiança, permitindo um pleno encontro com a mensagem do texto e sua contextualização, quer das suas tensões, quer do amor e do ódio, que vão ter reflexo na acção psico-teatral.
Elsa Barata tem riqueza dramática na sua interpretação, que vai crescendo, sentindo-se que, ela própria, vai-se apaixonando pela personagem quanto mais vai mergulhando no ego da Arajaryr Campos, ou seja, quanto mais a paixão da mulher se «desdobra» naquela entrega e desejo de «seduzir» ou ser «seduzida» pelo General. A exteriorização da personagem cresce com o desenvolvimento da intensidade dramática daquela relação que visa colocar o «amor» no centro das relações.
Raul Ferrão, numa primeira fase parece estar tímido, a caneta na sua mão, não para, parece quase uma muleta, algo a que se agarra, para não deixar fugir o personagem, na primeira cena com Arajaryr Campos, parece ser a personagem inferior, com algum distanciamento do papel.
Na segunda parte, Raul Ferrão, de súbito liberta-se, encontra-se com o personagem, tem garra e uma brilhante interpretação. Por dois momentos apeteceu aplaudir, tal a intensidade da acção e a energia que brotava do diálogo entre o General e o Atalaya.
Em suma três brilhantes interpretações, que reflectem as situações, de amor, de revolta, da luta entre a razão e a obsessão, do conflito entre a paixão e o medo, da intriga, da calúnia, personagens que crescem em expressividade dramática com o desocultar da história e das estórias.
Uma peça que é uma lição de história, um reencontro com as memórias de um país, marcado e condicionado, de facto, ainda nos dias de hoje, pelas marcas de 40 anos de submissão e «silêncios».
Um texto que é uma catarse, uma história de amor que ainda está por contar, trágica.
Um texto que deixa nas entrelinhas criticas a poetas, a revolucionários e que desperta para a necessidade de revisitarmos a nossa história, a história deste nosso Portugal, onde afinal há muitas histórias por desbravar, para além daquilo que é contado pela história escrita pelos vencedores.
Gostei de ouvir o autor Raul Zagalo, desmistificar aquele estigma da «Secretária», dando a dimensão de amor e paixão, entre o General e Arajaryr Campos, afirmando como real que aquela foi(era) uma relação vivida de forma intensa, rementendo-nos para uma atmosfera de amor-romântico- trágico.
Uma nota final para a cena da morte na noite escura como breu, de gritos e tiros, de raiva e silêncio, uma cena admirável na sua sonoplastia.
«A Cumeada dos Montes», vista nos dias de hoje, é, sem dúvida, um grito neste tempo de «democracia» que nos cala, nos corta, nos silencia…obviamente é um grito à Liberdade!
António Sousa Pereira
Sinopse
(…) a Ação da peça situa-se em Argel, último lugar de exílio – e de solidão – do General Humberto Delgado, nas horas que antecederam a sua partida para Espanha, com a sua companheira Arajaryr Campos, na esperança de se encontrarem com militares oposicionistas à ditadura Salazarista.
Perto de Badajoz, a poucos quilómetros de Portugal, caiem numa cilada, organizada pela polícia política Salazarista (PIDE), sendo ambos assassinados.
As referências e factos políticos descritos pelos três personagens – o General, a Mulher e Atalaia – não são ficção e tudo foi, entretanto, documentado.
A ficção usámo-la, naturalmente, na restante parte dos diálogos. Aí procurámos exaltar a luta determinada e coerente do General Humberto Delgado, contra a ditadura, até ao sacrifício supremo da própria vida, em contraponto com a tibieza, o calculismo político, e os comportamentos torpes, dos que o foram vilipendiando e abandonando. Na mulher – Arajaryr Campos – procurámos exaltar o amor.
Arajaryr, cidadã brasileira, é contratada para secretária, no Rio de Janeiro, primeiro local de exílio do General. Admira o “General sem medo”, mas rapidamente passa amar o homem. A partir de então será a companheira apaixonada, e sempre presente, de Humberto Delgado, morrendo assassinada, ao seu lado, quando tentava proteger.
É uma trágica e imensa história de amor que muitos presistem em ignorar, continuando a designar Arajaryr por “a secretária”. Em Atalaia – Adolfo Ayala – procurámos exaltar a amizade e a fidelidade à causa da liberdade. Ayala, antifascista desde os anos trinta, foi um entusiasta apoiante da candidatura do Humberto Delgado à presidência da República. Apesar da sua deformidade física acompanha o General, quando da revolta de Beja, e voltam a encontrar-se, dois anos depois, em Argel. Mantém-se sempre fiel ao General e tenta dissuadi-lo, em vão, de ir ao encontro em Espanha, que teme ser uma cilada, oferecendo-se para ir em seu lugar. Sobrevivendo, fica fiel depositário das suas vontades e testemunha incontomável, mas terrivelmente só, da verdade dos factos.
Ficha Técnica
Texto - Raul Zagalo
Encenação - Abilio Apolinário
Assistência de encenação - Romy Mendonça
Música - Paulo Cavaco
Interpretes
Carlos Alberto Correia
Elsa Barata
Raul Ferrão
Músico- Daniel Rodrigues
Vozes - Grupo Coral Alentejano «Unidos do Lavradio»
PRÓXIMOS ESPECTÁCULOS
Próximo espectáculo dia 24 de Novembro, pelas 16 horas, na SFAL – Sociedade Filarmónica Agrícola Lavradiense, no âmbito da Mostra de Teatro do Lavradio
No dia 30 de Novembro, pelas 16 horas, volta de novo ao palco na SIRB «Os Penicheiros»
VER FOTOS













