A obra literária de Henrique Galvão«Honra o Barreiro e os barreirenses»
. Henrique Galvão neste país nunca foi valorizado
“Henrique Galvão neste país nunca foi valorizado, por duas razões, primeiro por ser anti-comunista radical, segundo por pouca simpatia militar” – sublinhou Camilo Mortágua.

Por Jornal Rostos
Na SDUB «Os Franceses» realizou-se, ontem à noite, a primeira conferência do Ciclo de Conferências «Vultos da nossa terra», tendo coo tema :«Evocação de Henrique Galvão no 80º aniversário da publicação da obra - ´Da vida e da morte dos bichos - subsídio para o estudo da fauna de Angola e notas de caça"».
No decorrer da conferência António Valdemar, presidente da Academia Nacional de Belas Artes, salientou que o Barreiro é uma terra que “assinala a modernidade” com o arranque do processo da industrialização.
“Quaisquer que sejam as posições politicas de Alfredo da Silva, que não correspondem com as minhas” – referiu não pode ser a sua importância no processo de implementação da indústria no país. Por outro lado evocou Afonso Costa, como a “alma da República”, Fernando Pessoa o “génio da língua Portuguesa” e Amadeo de Sousa Cardoso uma referência na “nossa arte”.
Na sua opinião estas quatro personalidades “nas suas diferenças, marcaram a vida de Portugal”.
A personalidade de maior amplitude cultural
António Valdemar, sublinhou que Henrique Galvão, era “uma personalidade controversa”, mas um homem com “a personalidade de maior amplitude cultural”.
Recordou que nasceu em 1895, “numa altura de afirmação do Partido Republicano”, num tempo que Portugal “vivia a angústia da divida pública” e estava a surgir “o sonho e a utopia da República”.
Referiu que Henrique Galvão faz parte da primeira geração militar que se insurge contra a República, é um apoiante claro de Sidónio Pais e integrou aqueles que se “incorporam no equivoco do 28 de Maio”.
António Valdemar sublinhou que –“a ditadura de Salazar nunca foi uma República, a II República nasce com o 25 de Abril”.
O nacionalismo puro e duro de Salazar
Sublinhou que Henrique Galvão foi – “um artífice da arquitectura politica e colonial” integrou, tal como Humberto Delgado, a repressão contra a República.
“Henrique Galvão foi um dos homens escolhidos por Salazar” tendo sido colocado à frente da Emissora Nacional que -”tinha uma intervenção maciça na consciência do povo português”.
Henrique Galvão recordou foi o Comissário de exposições que anteciparam a “exposição do mundo português”, que representavam – “o nacionalismo puro e duro de Salazar”.
Primeira autópsia ao cadáver do Estado Novo
António Valdemar, sublinhou que, no final dos anos 40, Henrique Galvão – “tem consciência que estava envolvido num equivoco e num logro”.
Numa intervenção que proferiu na Assembleia Nacional, onde denunciou a “realidade colonial de Angola, caiu em desgraça”.
Sublinhou a existência de três momentos cívicos contra o regime de Salazar – MUD, a candidatura de Norton de Matos e Quintão Meireles, neste caso, que contou com uma acção estruturada por Henrique Galvão.
“Foi a primeira autópsia ao cadáver do Estado Novo” – sublinhou.
Henrique Galvão foi condenado a 12 anos de cadeia, depois devido aos seus escritos na prisão foi condenado a mais 16 anos.
Recordou que foi “graças a Henrique Galvão que Humberto Delgado avançou com a sua candidatura, que foi um terramoto no regime”, marcando os oposicionistas até aos anos 60.
Igreja foi um sustentáculo de Salazar
António Valdemar referiu que a resistência foi buscar Henrique Galvão “na luta contra o regime”, evocando os acontecimentos do assalto ao navio Santa Maria e o avião que sobrevoou Lisboa para distribuir documentos contra a ditadura – “um grande acontecimento na década de 60”.
Recordou as cisões no PCP, o surgimento da LUAR e da ARA, os conflitos da Igreja, nomeadamente as posições do Bispo do Porto, do Padre Abel Varzim e a tomada de posição contra o regime por Católicos na Capela do Rato.
“A Igreja foi um sustentáculo de Salazar” – referiu.
Henrique Galvão viveu “dolorosamente a solidão dos aventureiros”, tendo falecido um mês antes de Salazar.
“Henrique Galvão não queria Salazar morto, queria-o julgado pelo que fez ao país, pelo seu ódio à inteligência e ter-se rodeado de pequenas elites constituídas de medíocres” – salientou António Valdemar.
Recordou que Henrique Galvão «regressou» ao seu país após o 25 de Abril.
Expressou a sua satisfação de, hoje, 40 anos após o 25 de Abril, recordar no Barreiro, a terra natal de Henrique Galvão “os sonhos de uma figura controversa”.
Recordou a obra literária de Henrique Galvão que – “honra o Barreiro e os barreirenses”.
Foi a nossa última homenagem ao capitão
José Paulo de Almeida da Silva Graça, Investigador, emocionado recordou a acção de um grupo de portugueses, entre os quais se incluiu, para trazerem as ossadas de Henrique Galvão para Portugal, que se encontram num jazigo no Cemitério dos Prazeres.
“Foi a nossa última homenagem ao capitão” – sublinhou.
Na circunstancia deu a conhecer um texto inédito de Natália Correia, um prefácio a um livro de Henrique Galvão.
Um homem figura de proa de Salazar
Camilo Mortágua, presidente da APURE - Associação para as Universidades Rurais Europeias, começou por salientar que nesta conversa – “estou fora de jogo”, porque todos conheceram “um Galvão que eu não conheci”.
“Eu conheci o Galvão emigrado, o Galvão do Santa Maria. Eu tinha 25 anos quando conheci Galvão, conversei com ele quotidianamente” – referiu.
Recordou o carácter emblemático de Henrique Galvão, que foi um homem “figura de proa de Salazar”, mas que não era um “colonialista”.
“Tinha sentimentos paternalistas em relação aos povo de Angola” – sublinhou.
Em relação a Salazar sempre assumiu que – “ninguém conhece melhor o seu dono que o seu criado de quarto”.
Era um anti-comunista radical
Camilo Mortágua, sublinhou que desde que Henrique Galvão assumiu a luta pela Liberdade, esta era a sua causa.
“Nunca encontrei companheiro de luta, mais nobre e mais solidário que Henrique Galvão, na defesa dos seus homens e das condições dos seus homens que eram as suas também” – afirmou.
“É verdade, isso posso testemunhar, era um anti-comunista radical” – salientou, acrescentando que – “não tinha simpatia pelo corpo militar, não era um castrense”.
“Tinha sido militar por necessidade, não por gosto e convicção” – referiu.
Henrique Galvão neste país nunca foi valorizado
“Henrique Galvão não era perfeito. A sua ambição suprema era o derrube de Salazar e a implantação da democracia” – salientou.
“Henrique Galvão neste país nunca foi valorizado, por duas razões, primeiro por ser anti-comunista radical, segundo por pouca simpatia militar” – sublinhou Camilo Mortágua.
Recordou diversos aspectos da acção revolucionária do Santa Maria, na qual foi um dos protagonistas, as relações com os espanhóis, um assunto que tem sido pouco motivo de estudo em Portugal – “o que se sabe vem da Galiza, e eles puxam a brasa à sardinha deles”.
“Galvão dizia- a acção é o dia da festa, o que é difícil e duro é preparar a acção, era muito duro andar a contar tostões, alimentar-se e preparar a acção, todos os dias a gente pensa que é amanhã, mas o mérito deste combate está nos tempos de silêncio” – referiu.
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