Barreiro - Rosto do ano 2025«A saúde tem de se ir adaptando à realidade social»,
afirma Ana Teresa Xavier, rosto na área da Saúde
«Esta distinção significa o compromisso que a sociedade barreirense tem com a Saúde. Nunca é uma distinção pessoal, ela simboliza algo de colectivo. Nós, na saúde nunca praticamos isolados. É das poucas profissões ou áreas em que ninguém trabalha sozinho», afirma Ana Teresa Xavier.

Por Jornal Rostos
Ana Teresa Nobre Duque Monteiro Leite Marques Xavier, barreirense, mãe de seis filhos, é Licenciada em Medicina, pela Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa desde 1983. É Presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho (ULSAR).
Desde Delegada Sindical dos Médicos no Sindicato Independente dos Médicos, passando pelas funções de Diretora clínica para a Área Hospitalar na Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho, ou assumindo a função de Diretora clínica do Centro Hospitalar Barreiro - Montijo, e, também, Diretora do Serviço de Oncologia do CHBM e ULSAR, é um nome inscrito na área da saúde do concelho e na região.
Um percurso de vida marcado pela vivência permanente por dentro do Serviço Nacional de Saúde.
Em vários mandatos foi deputada na Assembleia Municipal do Barreiro eleita pelo Partido Social Democrata e foi Membro do Observatório da Saúde do Barreiro.
Ana Teresa Xavier, como todos a conhecem é autora e coautora, de várias comunicações em congressos e reuniões científicas e de publicações de artigos científicos em Portugal e no estrangeiro.
Nunca é uma distinção pessoal, ela simboliza algo de colectivo
Que significado atribui por receber a distinção Rosto do Ano?
«Esta distinção significa o compromisso que a sociedade barreirense tem com a Saúde. Nunca é uma distinção pessoal, ela simboliza algo de colectivo. Nós, na saúde nunca praticamos isolados. É das poucas profissões ou áreas em que ninguém trabalha sozinho. Eu posso ser o rosto, tal como quando recebi a medalha na Câmara Municipal do Montijo, no Dia da Mulher, a qual foi uma homenagem a todas as profissionais, do Centro Hospitalar Barreiro - Montijo, durante a pandemia do Covid 19. Uma distinção, nunca é algo pessoal, é algo colectivo. Honra-me muito representar uma comunidade que ao longo dos anos tem prestado cuidados na área da saúde. Estou neste hospital desde a sua abertura há 41 anos. É um reconhecimento colectivo. Nunca teria feito o que fiz se não tivesse todo o apoio de uma comunidade científica na área da saúde, por essa razão, recebo como um reconhecimento colectivo a todos os profissionais da saúde, que me têm acompanhado ao longo desta jornada de 41 anos, com o seu trabalho, conhecimento, apoio, resiliência e confiança, a quem muito agradeço. Esta distinção é de todos.”
Ter aqui um polo de excelência em várias áreas
Na sua experiência e dedicação à Saúde, como observa esta realidade no Barreiro?
«Nós estamos numa zona de impasse e de grande oportunidade. O Barreiro foi sempre uma terra terminal. Antes do 25 de Abril, em termos de saúde, existia uma franja da população que a maioria dos portugueses não tinham, porque trabalhavam na área da CUF e da UFA. Isso, motivou que começassem a ter uma perspectiva da saúde com alguma exigência, uma realidade que na época não era muito frequente. O 25 de Abril mudou o paradigma, mas, nós tínhamos um perfil epidemiológico muito característico, porque eram patologias que estavam condicionadas pela actividade profissional. Foi essa uma das razões que me motivou a especializar em Medicina no Trabalho.
As coisas mudaram ao longo destes anos, mudou o perfil epidemiológico, porque o perfil da doença está muito associado ao perfil social, económico e ambiental.
Sendo o Barreiro uma terra terminal, a perspectiva de cuidados de saúde era muito dirigida, mas, agora com a Terceira Travessia do Tejo, nós, podemos passar de zona terminal para zona central nesta grande área metropolitana. Todo o nosso paradigma vai mudar.
Nós, o que procuramos ao longo dos anos é ter aqui um polo de excelência em várias áreas.
Um exemplo, na Radioterapia, somos a única instituição pública, que presta tratamentos de radioterapia, quer na Península de Setúbal, quer na área de Vila Franca de Xira.»
Um investimento às cegas, não é investimento, é desperdício.
Ana Teresa Xavier, por outro lado, referiu que a população do Barreiro vai envelhecendo e vai carecendo de outros cuidados - «os chamados cuidados continuados».
Recordou que ao nível da saúde existe intervenção desde antes do nascimento até à morte – “nós devemos sempre acompanhar as pessoas».
«A saúde tem que se ir adaptando à realidade social. Às vezes o que falta é planeamento adequado. As necessidades de saúde no Barreiro, são diferentes das que são em Alcochete, ou em Trás-os- Montes. Devo ter um mapa epidemiológico do país, para fazer investimento. Um investimento às cegas, não é investimento, é desperdício.
No Arco Ribeirinho, aproveitamos verbas muito significativas do PRR. Investimos na ressonância, que era prioritária. Arranca este ano. O robot cirúrgico, para criar diferenciação técnica, já cá está. A modernização dos Cuidados de Saúde Primários com equipamentos, nas áreas da cardiologia e saúde oral. A remodelação da área de internamento, no Serviço de Psiquiatria, melhorando as condições para os utentes e para os profissionais. Nós conseguimos, em termos de PRR, recebemos apoios de entre os 18 a 19 milhões de euros.
Impacto do novo aeroporto
Ana Teresa Xavier, referiu ainda, «que sendo nós uma Unidade Local de Saúde do Arco Ribeirinho, portanto, se o novo Aeroporto for construído onde se pensa, o perfil de quem hoje mora em Alcochete, ou até mesmo no Barreiro, onde já se começa a notar, vai ser muito diferente. Depois temos zonas com assimetrias muito grandes, zonas de grande densidade populacional e zonas rurais, e, temos os emigrantes, que nos trazem novas patologias e os próprios hábitos alimentares e de vida. Tudo isso condiciona.
Autarquias não perceberam o grande poder que têm na Saúde
Ana Teresa Xavier, sublinhou a importância do envolvimento da comunidade local na saúde porque – “a saúde mexe com tudo, com a educação, com os hábitos, com o ambiente”.
«Os Barreirenses têm estado sempre atentos e participativos nesta área, desde há décadas (não nos podemos esquecer do papel interventivo da população na construção do Hospital do Barreiro que foi inaugurado em 1959 e posteriormente como conseguiu contribuir para a construção de o «novo Hospital» inaugurado em 1985).
É este envolvimento dos barreirenses na Sociedade, com as suas ideias, críticas, participação e uma procura de sempre ter mais e melhor que nos ajudam sempre a procurar responder às suas expectativas e são um estímulo para continuarmos.
As autarquias, acho que às vezes, não perceberam o grande poder que têm na melhoria da prestação dos cuidados de Saúde, não é pela prestação dos cuidados, é pelos hábitos de vida, a começar nas escolas. A medician devia ser essencialmente preventiva”, sublinhou Ana Teresa Xavier.
Sempre procurei tratar doentes, nunca quis tratar doenças
Que significa a saúde na sua vida?
«Ser médico, não é fácil, nem é difícil, é uma opção de vida. A minha mãe costuma dizer, que eu tinha 4 anos fizeram-me aquela pergunta que fazem aos miúdos : O que queres ser quando fores grande? Eu respondi – ‘vou ser médica, não disse, quero ser médica’. Eu gostava muito de fazer uma licenciatura em Matemática. E vou fazer. Quando me reformar vou fazer.
Ser médica foi sempre o que projectei para a minha vida, e, tive a felicidade de viver um tempo de grandes mudanças científicas e tecnológicas. Eu tive um professor, na faculdade que disse uma coisa que nunca esqueci – ‘só há uma doença com 100% de mortalidade, é a vida’. Por isso, sempre procurei tratar doentes, nunca quis tratar doenças. Trato doentes, porque cada pessoa tem a sua individualidade, cada pessoa reage perante a doença de forma diferente.
Barreirenses continuem a estar sempre atentos e participativos
Que mensagem quer deixar aos barreirenses?
«Agradeço esta distinção, como disse, honra-me, mas ela é, também, para todos que me têm acompanhado com o seu trabalho e confiança, a quem muito agradeço
Sendo a Saúde uma área transversal a todas as áreas da Sociedade é importante que os barreirenses continuem a estar sempre atentos e participativos. Com as suas ideias, críticas e uma procura de sempre ter mais e melhor, ajudam-nos sempre, a procurar responder às suas expectativas e são um estímulo para continuarmos.
Quero também agradecer ao jornal Rostos, na pessoa do Sousa Pereira, esta iniciativa que dura há anos e que agora tem um significado muito especial, pois coincide com os 25 anos de existência do jornal Rostos, nem todas as cidades têm o privilégio de ter um Jornal que, para além de transmitir notícias é grande conhecedor da realidade da cidade e não hesita em manifestar a sua opinião nos seus editoriais e abrir um espaço de reflexão aos barreirenses que nele participam e expressar a sua opinião de forma livre.
Quero terminar, recordando um poema escrito pelo meu irmão Rui Monteiro Leite:
NASCEMOS E MORREMOS EM NÓS
VIVEMOS E SOFREMOS NOS OUTROS
EM TODOS QUE TAMBÈM SOMOS NÓS
Cerimónia de Entrega das distinções Rosto do Ano
Ana Teresa Xavier por toda a sua entrega apaixonada à profissão, que é a sua vida, e, por todo o serviço prestado à comunidade barreirense, merecidamente recebe a distinção Rosto do Ano 2025 na área da Saúde.
A Cerimónia de Entrega das distinções Rosto do Ano, vai decorrer numa sala dos Cinemas Castello Lopes, no Barra Shopping, no próximo dia 27 de Setembro, pelas 10h30, sendo integrada no programa de comemorações dos 25 anos do jornal Rostos.
António Sousa Pereira
T- 180
Fotografia - Marta Sousa Pereira














