VestígiosPor Ana Isabel Henriques Castro
Barreiro
Poderias optar por caminhar para o lado que mais te custa e, ao invés da areia, escolherias o alcatrão gasto.

Por Jornal Rostos
Caminhas sempre para o lado que menos te custa, com consciência de que será sempre tudo igual. Enquanto o fazes, uma pegada tua vai ficando gravada na areia molhada, onde um dia foste feliz a construir muros, pontes e castelos, enquanto já alguém deixava as suas pegadas em ti. Agora é a tua vez de reparares em cada castelo feito por uma criança feliz e marcares a areia com o teu pé. Também o mar deixa a sua fronteira no areal, também tu deixas a tua marca com cada palavra ou gesto teu. É esse o vestígio que começa por ser uma sombra e que, quando incentivada, se transforma em algo mais belo.
Cada sentimento teu se reflete nas letras que soltas, cada pensamento teu te presenteia com as tuas disposições. São esses reflexos oferecidos pelo teu interior que formam parte da pegada que deixas. E é assim que vives, caminhando sempre para o lado que menos te custa. Também as ondas do mar libertam um som que não acaba, uma brancura de espuma imensa, uma solidão apetecida. Também tu te desenhas nos outros, dando-lhes a conhecer as tuas falhas, as tuas promessas, as tuas atitudes. E, do mesmo modo que a água que sobe a areia deixa a marca da sua passagem, também tu deixas a tua pegada quando dás a mão a alguém. A verdade é que agimos sempre do mesmo modo que a natureza, ainda que ouses duvidar disso…
Poderias optar por caminhar para o lado que mais te custa e, ao invés da areia, escolherias o alcatrão gasto. Contudo, é a tua pegada que demonstra quem és e, se realmente quisesses provar a estrada gasta, o teu querer transpareceria na areia que pisas e não nas palavras que soltas.
Ana Isabel Henriques Castro














