InsóniasPor Ana Isabel Castro
Barreiro

Por Jornal Rostos
Nada é mais verdade do que aquilo que vemos, sem influência do que queríamos ou não ver e sem a persuasão do que queríamos ou não sentir. Uma caneta será sempre uma caneta, ainda que o nosso devaneio nos permita imaginá-la algo mais. Tudo é mais verdade do que aquilo que ouvimos, tão somente porque o que se ouve não se vê… Uma palavra será sempre uma palavra, é certo. Contudo, cabe a cada um decifrar o significado de cada letra caligrafada que a constitui, bem como de cada expressão facial que acompanhou cada sílaba, quando foi pronunciada. É então que percebo que, de tudo o que vemos, nada é mais verdade do que aquilo que sentimos. Até mesmo a forma como testemunhamos cada acontecimento é ditada pelos sentimentos que preenchem cada espaço vazio do nosso corpo.
Eu vejo a noite como um ser mortífero e, ao mesmo tempo, acolhedor. Ora fere a alma de tanto nos fazer pensar, ora permite que esqueçamos os problemas, dormindo durante algumas horas. Mesmo consciente deste duplo caráter que a noite revela, sempre que ouvi dizer que a noite pertence aos poetas, acreditei. Pensava que, para os que se exprimem em verso, cada estrela ditava as palavras indicadas para expressar a dor que se sente ou a autêntica memória da que se sentiu. Depois, percebi que a noite é de quem a quiser e, às vezes, até de quem não a quer.
Eu nunca espero por ela… aliás, nem dou pelo tempo passar até que a escuridão se apodere do céu azul e branco que honro contemplar. Mas a noite chega cedo e passa lentamente, quando não vem só. Quando, ao partir da racionalidade, cria uma lógica assente na emoção, ou quando faz da insónia sua escrava e atormenta cada minuto de um silêncio prolongado. E eu não sou poeta. Não vejo inspiração numa estrela, não me crio e renovo em constelações, nem versejo com a luz da lua. Mas os espaços vazios do meu corpo permitem-me adivinhar o poder das constelações e analisar cada fase percorrida pela lua, sempre com a única certeza de que nada é mais verdade do que aquilo que eu sinto.
Ana Isabel Castro














