Os anos negros da Europa - A Peste BubónicaD. Leonor e D. João fugiram para o Lavradio
Por João Naia da Silva
Barreiro

Por Jornal Rostos
A Peste Bubónica, ou como ficou conhecida, Peste Negra foi uma epidemia que surgiu na Europa no século 14 e que chegou a matar pouco mais de 25 milhões de pessoas nos seus primeiros 4 anos. Embora menos catastrófica, a peste permaneceu depois na Europa durante mais de 200 anos. Em 1496, a Rainha D. Leonor decide fugir para o Lavradio, com medo da peste, que voltava a atacar Lisboa e em 1527 e 1531, o Rei D. João segue as mesmas pisadas, e viaja para o lavradio, para evitar ser contaminado pela terrível praga que voltava a assustar Lisboa.
No século 14, o comércio na Europa crescia a paços largos com os carregamentos de mercadorias que chegavam todos os dias aos portos europeus vindos do oriente. As especiarias, aos tecidos e outros bens faziam parte do regular comércio europeu, e em outubro de 1347 chegou ao porto de Messina, na Sicília, 12 Galeras pertencentes à frota comercial de Génova vindas do Oriente. Traziam sedas, especiarias e uma doença que mudaria a Europa para sempre.
Os marinheiros que viajavam nessas Galeras vinham todos eles infectados com um "mal" que lhes causava tormentas e "dores até aos ossos" como descreveria um cronista da época. Em poucos dias, os habitantes de Messina começaram a ter idênticos sintomas aos dos marinheiros e aterrorizada, a população decide expulsar as Galeras e os seus poucos marinheiros que ainda restavam, para o alto mar.
Poucos dias depois a fatal doença já se alastrava para os campos em redor da cidade. Pessoas em pânico fugiam para outros pontos da Sicília e levavam consigo a doença, semeando-a por onde passavam.
Enquanto isso, já em Janeiro do ano de 1348 Paris, Génova, Florença e Veneza registava o aportar de frotas de comércio vindas do ocidente que traziam parte da população a bordo infectada com uma doença contagiosa e mortal que provocava uma febre alta, bastante sofrimento e culminava na morte. Estas cidades não estavam preparadas e não tinham sistemas de contenção, pelo que o pânico da população fazia metade do trabalho de propagação da terrível doença.
Entretanto, mais navios vindos do Oriente chegavam a diferentes portos dos países europeus tais como França e Espanha, e aí semeavam duas coisas: a peste e o pânico.
Em Maio de 1348, tinham sido registadas só na cidade de Florença cerca de 65 mil mortes, e a Peste Negra (mais tarde catalogado como Peste Bubónica) alastrava agora a zonas mais recônditas da Europa.
Em 1349, Inglaterra começava a ser fustigada pela doença, que atravessou o canal da mancha transportada em população contaminada que fugia do caos em que o resto da Europa se tornara. Grécia e Alemanha já tinham sido afectadas e uma parte da Rússia estava a começar a ser fustigada pela sinistra doença.
Irmãos abandonavam irmãos, maridos abandonavam as suas mulheres, pais e mães abandonavam e recusavam tratar os próprios filhos. Por todas as ruas, havia cadáveres empilhados em grupos. A principal preocupação era retirar-se os corpos de dentro das casas, nem que para isso fosse necessário atira-los pelas janelas. Os cemitérios começavam a superlotar e eram abertas grandes valas para se enterrarem mais que um corpo de cada vez. Nalguns casos os corpos ficavam cobertos de tão fina camada de terra, que não demorou muito tempo a muitos cães vadios os desenterrarem e piorarem o estado da propagação da doença.
Em Agosto de 1353, já toda a europa tinha sido atingida por uma epidemia que matava cerca 17 mil pessoas diariamente. Holanda, Finlândia, e Países de leste já tinham sido atacados por este catastrófico e apocalíptico surto que teria chegado à Noruega através de um barco que navegava à deriva com toda a sua população a bordo morta. Estes países viajavam agora, tal como o resto da europa, à mercê de um destino, que era desenhado por muitos como fatal.
Por toda a europa surgiam cultos e movimentos que justificavam a epidemia como castigos divinos, e os primeiros a serem “crucificados” foram os judeus. Todos os dias, enormes fogueiras eram acesas nas praças das principais cidades e ali eram queimados dezenas e até centenas de judeus diariamente, mortos ou vivos, doentes ou sãos. Haviam rituais de dança, de sacrifícios e mutilações, tudo com seguidores suficientes que acreditavam que aquela era a única forma de pedir perdão a uma ira Divina.
A medicina não conseguia nem travar a epidemia, nem justifica-la, mas houve no entanto uma importante medida de saúde publica: Antes de qualquer pessoa poder entrar numa cidade, era obrigada a estar isolada e vigiada durante um período de 40 dias, que ficou conhecido como o período de quarentena.
Em Portugal, a Peste Negra entrou entre o fim de 1347 e o inicio de 1348, e dizimou entre um terço a metade da população portuguesa. Ainda que muito devota, a população portuguesa não via abrandamentos na evolução da epidemia e os padres das paróquias que tratavam dos doentes e sepultavam os mortos, eram assim os mais vulneráveis a transformarem-se também em vitimas. Subitamente começaram a surgir astronómicas vagas nas paróquias e os párocos que ainda não tinham sido afetados pela praga, decidiam fugir e abandonar os seus paroquianos. Aldeias inteiras eram dizimadas e deixavam gado ao abandono e colheitas ao apodrecimento.
A peste permaneceu na europa durante cerca de mais 200 anos, embora sempre com muito menos força e sem grandes epidemias. Passou a ser uma forma de morte como todas as outras que facilmente matavam qualquer cidadão naquela altura.
Em Junho 1496, a Rainha D. Leonor de 38 anos de idade e de débil saúde, decide mudar-se para o Lavradio, fugida de uma considerável epidemia que voltava a assolar Lisboa.
Em 1527 e em 1531, o Rei D. João III de então 25 anos, decide também rumar ao Lavradio, com medo de uma nova epidemia que surgia em Lisboa. Desta vez o Rei ordenou um total corte com a capital e proibiu qualquer habitante de lisboa e arredores de se aproximar do Barreiro, Lavradio e Alhos Vedros.
João Naia da Silva














