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Era um vaso de barroPor Ana Isabel
Barreiro

Era um vaso de barro. Era meu e do meu pai, só nosso: o nosso vaso de barro. No início pensei em pedir ao meu pai para me ajudar a plantar lá dentro um cato, uma vez que já tinha ouvido a minha mãe dizer que os catos duravam muito tempo

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Era um vaso de barro Por Ana Isabel Barreiro

Por Jornal Rostos

Lembro-me como se tivesse sido ontem o dia em que, pela primeira vez, o meu pai me levou àquele mágico lugar de que falava, com os olhos a brilhar mais do que o sol quando se põe, sempre que me ia buscar à escola. Num desses dias, em que o sol ainda ia alto, o meu pai deu-me a conhecer a fonte de todos aqueles pontos de luz que convergiam quando me olhava, bem como a nascente do doce sorriso que acompanhava o movimento do seu olhar.

Senti medo no momento em que entrámos numa sala fria, onde estavam dezenas de pequenas estátuas que formavam o extenso corredor que levava à entrada da olaria onde o meu pai, com as mãos profundamente vincadas, moldava as mais lindas peças de barro com gestos suaves, mas firmes. Tudo aquilo que até aqui me intimidava parecia não existir mais.
Enquanto admirava os detalhes das esculturas que o meu pai tinha em cima de uma bancada de madeira velha, via-o a trabalhar a argila na roda de olaria, perto da única janela que ali existia e que iluminava a peça que estava agora a trabalhar. Aproximei-me do meu pai e apercebi-me tanto da precisão como da rapidez com que fazia cada movimento, enquanto sorria. No fim, o meu pai ofereceu-me a peça que nos deteve durante instantes e disse-me que pusesse lá dentro aquilo que eu quisesse.

Era um vaso de barro. Era meu e do meu pai, só nosso: o nosso vaso de barro. No início pensei em pedir ao meu pai para me ajudar a plantar lá dentro um cato, uma vez que já tinha ouvido a minha mãe dizer que os catos duravam muito tempo. E era isso que eu queria, queria que tivesse durado mais tempo. Contudo, nunca chegámos a plantar nada dentro deste vaso, talvez por culpa dos dolorosos picos desta planta. Na altura olhava para aquele objeto e não via nada. Hoje, com o sol bem no alto, lembro-me de tudo isto, quando espreito para dentro daquele que será para sempre o nosso vaso de barro."

Ana Isabel

Alguém faria anos hoje. Hoje eu fui espreitar para dentro do nosso vaso de barro, para relembrar todos os sorrisos e sentir aquele abraço que falta.

Foto de Fortunata Beatriz

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