Barreiro - No CATICA em CoinaFalar com idosos sobre Abril e mergulhar em memórias vividas

Por Jornal Rostos
Hoje à tarde, a convite do CATICA, em Coina, fui conversar sobre o 25 de Abril, com idosos que vivem o seu quotidiano no Centro de Dia daquela instituição.
Foi uma experiência emocionante, vivida com uma ternura imensa, que tocou meus nervos, quando vi nos olhos de alguns um brilho de alegria ou uma lágrima a cantar a Grândola.
Comecei a conversa, colocando a todos a célebre pergunta de Batista Bastos: Onde é que vocês estavam no 25 de Abril?
“Eu estava a trabalhar a cavar e mandaram-me para casa”, diz uma senhora com um rosto marcado pelas rugas do tempo.
“Eu estive no Terreiro do Paço, e, também fui até ao Carmo, onde ouvi disparar os tiros”, comenta um homem, com um olhar que sentia-se perdia-se na distância, sem saber se ele me via, ou, se apenas me observava como uma sombra.
"Eu vivi, eu vivi, eu...vi..vi..vi.. o 25 de Abril", comentava uma senhora de voz embargada, cujos sons prendiam-se nos seus lábios.
“Eu estava na tropa, em Lisboa, e o meu quartel foi ocupado”, disse outro.
“Então é da minha idade?”, interroguei.
“Tenho 67 anos”, disse. “Eu tenho 65”, respondi.
E, ali, de repente tive a sensação que estou velho. Sorri. Não sabia, ou não sentia o peso da minha idade.
Vou falando de Portugal de antes do 25 de Abril. Comento os três «Dês» do Movimento das Forças Armadas – Democracia, Descolonização e Desenvolvimento. Teço comentários. Vejo muitos acenar com a cabeça, concordando com as minhas palavras.
Quando pedi à Paula Gonçalves, para colocar a “Grândola» no CD, escutei em coro, naquelas vozes de 70, 80,90 ou mais anos, o cântico de Abril e vi nos seus olhos a emoção, alguns com lágrimas. Cantando com uma felicidade de quem revivia o tempo no coração.
“O povo unido jamais será vencido!” um frase que saiu em coro.
“25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”, gritaram em festa.
Tenho ido às escolas conversar sobre o 25 de Abril, nunca tinha tido esta experiência com idosos.
Foi um momento que vou guardar, com emoção, eu próprio peguei num cravo, quando acabei de ler um poema do meu livro. Eles aplaudiram.
“É lindo! É lindo”, dizia em voz alta e emocionada, uma senhora ( que, soube, era filha daquela outra senhora, mais idosa, que no 25 de Abril estava a cavar).
Foi uma tarde de emoções fortes. Uma partilha de recordações que proporcionou a todos o reencontro com as memórias.
No final recebi um belo desenho feito pela D. Serafina. Obrigado!
Sai do CATICA de cravo erguido, cantando a Grândola, e, escutando um caloroso aplauso que vou guardar nas minhas memórias de Abril.
No corredor já rumo à porta ainda escutei, um som em eco vindo lá do salão – “…fascismo nunca mais!”
E, no meu pensamento, transportei aquela frase que disse no final : "Não esqueçam: Liberdade,rima com dignidade. E isso é o mais belo do 25 de Abril. A liberdade não tem preço!"
António Sousa Pereira
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