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Crónicas do AlgarveAcerca de um Namoro à Janela
Por Henrique Bonança

Todavia, apesar de tudo aquilo que o bailarico proporcionava, a válvula de escape diária para a enorme pressão hormonal decorrente da sua condição de namorados, era a janela virada para a rua do quarto dos irmãos.

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Crónicas do Algarve Acerca de um Namoro à Janela Por Henrique Bonança

Por Jornal Rostos

O namoro tivera início há já sete longos anos e, por via disso, aos enamorados era-lhes consentida alguma intimidade para uma ou outra conversa mas, sempre sob rigoroso controlo dos pais dela, das irmãs e dos irmãos.
Encontros a sós, nem pensar! Não valia a pena falar sequer nisso. Antes do casamento, nada! Absolutamente nada! Sabe-se lá o que podia acontecer!
A necessária autorização para sair de casa acompanhada pelo namorado para beberem um refresco numa esplanada ou um simples passeio pelo jardim público, impunha como implacável condição a escolta protectora de alguma das irmãs: o respeito e a honra da menina e da sua família obrigavam a que assim fosse!
Acima de tudo, importava evitar o falatório corrosivo, intolerável e fatal para as suas reputações, resultante da ausência de acompanhamento!
Pontualmente, nalgum dos bailaricos de alguma das festividades, mesmo com a presença asfixiante das irmãs, ao dançarem um tango ou uma valsa, o quase imperceptível toque de um cotovelo ou, uma inocente mão pousada numa anca ou, o contacto da pontinha de um dedo, gerava uma incontrolável e intensa excitação que se incrementava ainda mais com o inofensivo e inevitável roçar dos corpos, provocando assim um agradável desconfortável descontrolo, um arfar, um tremor, um rubor resultante da proximidade e do sentir o calor e o cheiro do outro.
Todavia, apesar de tudo aquilo que o bailarico proporcionava, a válvula de escape diária para a enorme pressão hormonal decorrente da sua condição de namorados, era a janela virada para a rua do quarto dos irmãos.
Não havia folgas: o namorado vinha vê-la todas as noites sem que se atrevesse a qualquer falha. O amor era muito, mas, necessitava de alimento diário.
Após tantos anos, já lhes era permitido namoriscar à janela. Ele, na rua, do lado de fora da casa, numa grande prova de amor, voluntariamente submetido à inclemência climática: do vento, do calor, do frio ou da chuva. Ela, do lado de dentro do quarto, entre a meia janela aberta e um cortinado de algodão branco que lhes dava alguma privacidade e a mantinha separada dos irmãos, já deitados mas, muito atentos!
As conversas próprias do namoro, mesmo que ridiculamente sem importância, para não serem escutadas, eram mantidas num murmúrio, como que a bichanar, com as cabeças o mais próximo possível, a sentir o hálito quente.
Na penumbra do quarto, por vezes, muito a medo de serem descobertos, com o coração a bater a velocidade vertiginosa, entre juras de amor eterno, acontecia um rápido e intenso beijo.
Porém, como consequência de tanto namoro, desse interminável sussurro perturbador impeditivo do descanso necessário de quem tem de trabalhar no dia seguinte, saturadíssimo, para tentar acabar de vez com a indesejável situação, antes de mais uma das intermináveis sessões de paixão arrebatadora, o irmão Manuel decide pintar a moldura de madeira da janela.
Deste modo, a tinta fresca da moldura, que para além de separar fisicamente os apaixonados, ao servir de apoio aos seus braços e cotovelos, também os unia nos abracinhos e nos encostos, entranhou-se-lhes na pele tendo de ser removida vigorosamente com um pano de algodão embebido em petróleo do candeeiro de vidro da cozinha e besuntou de tal maneira a preciosa roupa que esta foi para o lixo.
Os enamorados perceberam a mensagem e recebendo autorização para isso, até ao casamento, nos dois anos seguintes, num total de nove, passaram a namorar à porta de casa.

Aos meus pais: Maria Henriqueta e Carlos Bonança!
A todos aqueles que namoraram à janela...e…à porta!...

Henrique Bonança
Vila Real de Santo António – Junho de 2018

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