Saltar para o conteúdo
Postais

Crónicas do AlgarveAcerca de Ir à Praia e de Barquilhos
Por Henrique Bonança

Contudo, uma das principais razões que me motivavam a pedir boleia era a de guardar o dinheiro do bilhete para comprar um barquilho ao senhor Veia. Comia-o depois do primeiro banho. Nadar até à prancha, dar uns mergulhos e voltar, dava muita fome!

5 min de leitura
Crónicas do Algarve Acerca de Ir à Praia e de Barquilhos Por Henrique Bonança

Por Jornal Rostos

Quem tivesse bicicleta e vontade de pedalar, podia utilizá-la para ir para a praia de Monte Gordo pela estrada-da-mata, da mesma forma que também podia ir a pé. Porém, não havia esse hábito. As pasteleiras eram pesadas. Praticava-se algum desporto, mas não esse.

Arrisquei algumas vezes e tentei pendurar-me à socapa na traseira do trem do senhor Caneto mas, o chicote que ele fazia estalar junto às minhas orelhas impedia-me de concretizar a experiência.
Assim, num tempo em que o automóvel era um privilégio só ao alcance de alguns ou, por não haver na família meios financeiros ou, por não se ter idade para ter carta, restavam duas possibilidades: ir à boleia ou ir na camioneta da Rodoviária.
A minha mãe, por receio que me pudesse acontecer alguma coisa, não queria que eu fosse à boleia de desconhecidos e dava-me dinheiro para o bilhete.

Quando não guardava o dinheiro para outras coisas e optava pela Rodoviária, ia para a paragem junto ao muro amarelo da Horta do Falconer, na rua do Farol. À hora a que ia para a praia, a camioneta que passava era a minha preferida, a famosa corcovada, aquela que tinha um degrau a meio e que elevava a sua parte traseira.
Na sua estética estranha e inovadora achava-a fantástica e, quando a via aproximar-se da paragem, sendo leitor ávido dos livrinhos de bolso da colecção Argonauta, imaginava-me astronauta a pilotar elegantes foguetões em ousadas viagens espaciais pelo Universo profundo. Na falta de tecnologia para implementar o teletransporte, com aquela carripana talvez fosse uma excelente forma para ir à Lua ou então a Marte!

Sentava-me num dos lugares traseiros a aguardar que viesse o cobrador, enquanto aguentava com dificuldade o calor abafado do seu interior e escutava o roncar esforçado do motor quando o condutor arranhava uma nova mudança e pisava no acelerador.
Recordo-me da decepção que sentia quando o corcovado passava por nós já cheio e tínhamos de esperar uma eternidade pelo desdobramento.

Noutras alturas, sem que a minha mãe soubesse, ia para o chamado canto do farol, entroncamento onde começa a estrada-da-mata, a pedir boleia. Não se esperava muito. Alguém conhecido passava e parava. A maior parte das vezes não se pedia. Se estávamos lá, obviamente era para apanhar boleia. A toalha ao ombro e os calções de banho indicavam sem margem para dúvidas que o destino era a praia.
O canto do farol era o sítio que garantia mais hipóteses de uma boleia rápida. Chegavam carros pela estrada que vinha do rio e outros ainda pela estrada do farol. Quem oferecia boleia, a não ser que conhecesse quem estava na berma a aguardar vaga, passava por toda a gente e só parava para meter pessoal no final da avenida, mesmo ao cantinho.
Claramente, para evitar atropelos e situações desagradáveis, percebia-se haver um acordo tácito respeitado por todos: os automobilistas e os banhistas.

À medida que quem estava ao canto apanhava boleia, os outros grupos avançavam. Tudo muito regrado. Tal e qual como se estivéssemos na fila para o táxi no aeroporto de Lisboa. Dois eram o número ideal de elementos de um grupo para pedir boleia, no máximo três. Mais do que isso complicava e demorava mais.
A excepção era o senhor Cesário que ganhava a vida a cantar e tocar viola para os camones na esplanada do senhor Contreiras, em plena praia de Monte Gordo.

Castiço, com a caixa da viola na mão, chapéu negro de abas redondas ligeiramente inclinado para um dos lados da cabeça, passava por todos os grupos e, jamais pedia boleia. Nem sequer olhava para o carro que ouvia passar. Antes de chegar ao canto do farol alguém pararia exclusivamente para ele. Um fenómeno de popularidade.
Contudo, uma das principais razões que me motivavam a pedir boleia era a de guardar o dinheiro do bilhete para comprar um barquilho ao senhor Veia. Comia-o depois do primeiro banho. Nadar até à prancha, dar uns mergulhos e voltar, dava muita fome!

Já há alguns anos que não os como. Com o desaparecimento do seu criador, não houve continuidade. Infelizmente!
Mas, se fechar os olhos, consigo recordar-me de seu característico sabor, de como era fina e estaladiça a sua massa, do extremo cuidado que se devia ter ao mordiscar para não a quebrar, de a segurar com a mão direita enquanto colocava a esquerda em concha por debaixo do tubo para recolher as migalhas, de lamber a palma da mão para não perder nem uma sequer!...

Henrique Bonança
Altura – Junho de 2018

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção