Crónicas do AlgarveAcerca da casa da avó-velha, da dona Olívia e da pastelaria Império
Por Henrique Bonança

Por Jornal Rostos
No seu estilo pombalino, a casa da minha avó-velha era de rés-do-chão: com duas janelas baixas intercaladas por uma porta, caiada de branco, tudo rebordado a amarelo ferruginoso e, sempre que me aproximava dela, lembrava-me de um galheteiro.
Ir lá era um atrevimento muito grande, como qualquer outra surtida para norte da Avenida. As probabilidades de apanhar uma caldeirada do pessoal do Bairro-da-lata eram elevadas por estes considerarem como seu aquele território. Portanto, sendo eu um intruso, tinha de estar muito atento enquanto o atravessava. Felizmente tinha boa corrida e vista de lince.
Não era todos os dias, mas, ia visitar as minhas avós frequentemente: a avó-velha e a filha, a minha avó materna.
Gostava muito delas, porém, eu ia era à procura das moedinhas que elas guardavam na cozinha, ao lado do fogão, junto a um púcaro de alumínio, para pagarem o leite que a dona Olívia distribuía ao domicílio. Fazia-o com o seu carrinho de empurrar carregado de cântaros de metal, donde da sua base saía uma torneirinha para encher com leite a medida correspondente ao pedido do cliente.
Não era chegar, surripiar as moedas e raspar-me. Antes tinha de fazer a visita. Nos momentos iniciais tinha sempre o coração aos pulos, com medo de que me acusassem de algo. Mas, tal jamais aconteceu! Falavam, assim-como-quem-não-quer-a-coisa do estranho desaparecimento das moedas, no entanto, jamais fui confrontado.
Depois de entrar e dos beijinhos da praxe, para arreliar as velhas, pendurava-me a fazer de baloiço na cortina de renda de cinco pontas que separava o hall de entrada da cozinha. Quando me enxotavam do cortinado, passava pela cozinha e ia a correr para o quintal onde vivia o velho limoeiro sempre carregado de frutos em diferentes estados de maturação.
Nesse pátio, para além de ir espreitar o canteiro onde coabitavam os coentros, a salsa e a hortelã que alimentavam umas lagartas verdes muito gordas e lambonas, sobretudo, eu procurava o poço que unia quatro quintais: o nosso e os de três vizinhos.
Nele, as avós arrefeciam os melões e as melancias e abasteciam de água fresca o cântaro de barro com tampa de cortiça encostado a um canto da cozinha, junto à chaminé que cobria o fogão, em cima de um banquinho de madeira.
Quando o meu avô Manuel “Gato” era vivo, de vez em quando, lançava para dentro do poço umas quantas eiróses para comerem alguma da bicharada que por ali houvesse e, assim, manterem o poço limpo. Mais tarde, após conclusão dos trabalhos, pescava-as de novo para as fritar ou fazer um ensopado com hortelã-do-rio!
Aproximava-me do quarto de muro do poço e, em bicos-de-pé, esticava-me todo para mirar lá para dentro. Era fresco e tinha um cheiro muito próprio. Observava a cara reflectida no fundo, falava com ela e ela respondia-me repetindo as minhas palavras. Apanhava uma pedrinha do chão e deixava-a cair para ver os círculos morrerem nas paredes redondas.
Quando percebia as avós distraídas, voltava para a cozinha e, sorrateiramente, se não estivessem no local habitual, rebuscava-a de ponta a ponta à procura das moedas. Quando as encontrava, não trazia todo o dinheiro. Só um ou dois cruzados. Assim elas pensavam que se tinham enganado a contar.
Após a recolha, despedia-me e saía o mais rápido que podia!
No regresso passava pela drogaria Faísca onde trabalhavam o senhor Lenine e o senhor Agostinho, que eu conhecia por lá ir de vez em quando comprar parafusos, pregos ou, então, massa para colar vidros nas janelas.
E passava pela drogaria porque logo a seguir, ao canto da Avenida, estava a pastelaria Império onde trabalhava a dona Augusta, que vendia os bolos da fábrica do senhor Párquico.
A uns bons metros do canto sentia logo o cheirinho dos irresistíveis bolos: dos pastéis-de-nata, dos pastéis-de-feijão, dos bolos-de-areia, dos de arroz, das cornucópias!...
Guloso como era, impossível resistir! Tinha de entrar e olhar detalhadamente para o balcão expositor de estrutura em madeira e tampo de vidro para se ver. Na prateleira de cima estavam os que eu gostava mais. Mentalmente escolhia aqueles que escolheria se comprasse: uma desapiedada desumana tortura que aumentava dolorosamente se entretanto chegasse o Eduardo com uma nova fornada ainda quentinha.
A maior parte das vezes não tinha dinheiro suficiente para comprar um pastel-de-nata, que era o meu preferido mas, se as moedinhas chegassem…de certeza que não ficava lá!
Nem que fosse para um bolo de arroz, que era mais barato!...
Henrique Bonança
Altura – Junho de 2018














