Crónicas do AlgarveAcerca de Sapatos, de Escovas, de Graxa e do Rúpia

Por Jornal Rostos
Tendo em conta que possuía um banco e uma caixa para exercer a sua actividade, o senhor Rúpia afirmava ser o homem mais rico da Vila: o banco para o cliente se sentar e a caixa onde guardava as escovas e a graxa para proteger e puxar brilho aos seus sapatos.
Enquanto o café Segura esteve em funcionamento, mesmo em frente ao jardim e ao rio, no local onde hoje está o banco Millenium, trabalhou nas suas imediações e, era lá que durante a noite guardava os seus pertences.
Para se movimentar apoiava-se numa muleta de madeira que aconchegava ao sovaco por só ter a perna direita. A esquerda havia sido cortada junto à virilha, razão pela qual ele dobrava o tecido dessa perna das calças.
Ainda o conheci nos seus últimos tempos, a engraxar na Avenida ou nas proximidades do restaurante Janelas Verdes do senhor Luís Silva.
Sentava-se na sua caixa, de frente para o cliente, com a muleta ao seu lado, no chão.
Após colocação dos protectores de cabedal para não sujar as peúgas do freguês, passava a ponta dos dedos da mão direita na graxa contida na caixinha de metal que segurava com a mão esquerda e, aplicava-a sabiamente nos sapatos em movimentos rapidíssimos. Depois, usando habilmente a escova, distribuía-a com arte e determinação.
Por fim, a delicada intervenção culminava no absolutamente necessário toque do mestre: a firme passagem do pano, enquadrado no movimento de vai-e-vem pelo sonoro e característico estalo ao ser esticado em simultâneo pelas suas duas mãos, para obtenção do brilho final!
Naquele tempo, aos domingos, as pessoas vestiam as suas melhores roupas e passeavam-se na Avenida: olhava-se muito, conversava-se, namoriscava-se. Desse ritual de sociabilização ir engraxar os sapatos era uma parcela importante. Talvez fosse um sinal de que se tinha recursos financeiros, de que se estava bem na vida. Para o conseguir, fazia-se fila de espera.
Nos dias de hoje, engraxar sapatos é uma tarefa simples e de execução rápida. Basta utilizar o aplicador concebido precisamente para o efeito: não besunta os dedos e não precisa de puxar brilho! Ele aparece como que por magia! Instantaneamente!
Talvez por isso a profissão de engraxador esteja extinta. Aliás, como consequência do seu aparecimento, desapareceu todo um modo de estar na vida!
Em paralelo com a genialidade de alguém que se lembrou de aparafusar ou pregar um pano absorvente à ponta de um cabo de madeira que redundou na prodigiosa e revolucionária esfregona, libertando assim as senhoras da célebre alcofifa e das desagradáveis dores de joelhos e de costas, consequência das duras tarefas de limpeza do solo, o abrilhantador talvez seja das invenções com maior impacto e com menor reconhecimento.
Antes da popularização dos ténis, brincava-se e jogava-se à bola com os mesmos sapatos com que se ia à escola, por exemplo. Portanto, daí resultava um enorme desgaste.
Apesar da sua elevada robustez que até à difícil adaptação final ao pé provocava dolorosas e sangrentas roeduras nos calcanhares, com os constantes pontapés na bola, a vida útil de um par de sapatos desse tempo era baixa.
A regular utilização de graxa era das poucas soluções para a prolongar. Outra, quando fosse caso disso, se o pé não tivesse entretanto crescido, seria pôr umas solas novas.
Eu detestava engraxar os sapatos mas, o meu pai era implacável: chegada a hora do jantar, assim que eu entrava em casa, o seu olhar dirigia-se de imediato para os meus pés!
Eu já sabia, tinha de ir buscar a velha e gasta escova ovalada com pêlo de crina de cavalo que tinha pertencido ao meu avô, o pano de engraxar e, a latinha da graxa.
Às vezes, às escondidas, quando o meu pai não ficava por perto a vigiar-me, para ser mais rápido, puxava o brilho com cuspinho!
Só depois é que me podia sentar à mesa para jantar!
Henrique Bonança
Altura – Maio de 2018














