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Crónicas do AlgarveAcerca de costura e de costureiras
Por Henrique Bonança

As paredes brancas da sala de costura da minha mãe, onde em cadeirinhas com fundo de verga se sentavam as aprendizas adolescentes e as costureiras mais velhas e experientes, estavam forradas com belíssimos pósteres a cores dos mais famosos artistas da época.

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Crónicas do Algarve Acerca de costura e de costureiras Por Henrique Bonança

Por Jornal Rostos

Curiosamente, uma vez que se destinavam a um público feminino, a selecção exposta não se limitava aos mais perfeitos exemplares masculinos dos filmes de Hollywood que os cinemas da vila projectavam, ela também exibia os mais notáveis cantores que a rádio popularizava.
Nessa constelação de brilhantes estrelas que excitavam o ambiente, o astro maior, o de maior destaque, aquele por quem de vez em quando se ouvia um ou outro prolongado e sentido suspiro, era o brasileiro Roberto Carlos.

Não raras vezes escutava-as a cantar as suas canções, enquanto me apercebia da dificuldade que algumas tinham em reprimir uma furtiva lágrima apaixonada que impulsionada pelo efeito da gravidade escorria rosto abaixo, expondo um rasto brilhante que um lencinho de pano bordado romanticamente procurava limpar, na vã tentativa de esconder das outras o seu bárbaro e cruel sofrimento.
Certa vez, num momento de extremo êxtase, não se contendo devido à louca paixão que nutria pelo artista, uma das moças desmaiou!
Essa sala, onde trabalhavam tantas raparigas, possuía um misto de cheiros peculiares que muito me atraíam: dos tecidos, do vapor criado pelo ferro de engomar, do que exalava das diferentes partes dos corpos, tão próximos uns dos outros.

Quando não estava pelo Largo da Bica a jogar à bola ou ao berlinde ou ao pião com os amigos, ou por ser a hora do calor ou por estar a chover, como quem não quer a coisa, procurava infiltrar-me fingindo-me atarefado com algo.
Assim que pudesse, estendia-me no chão a brincar, com o olhar dissimulado acorrentado às pernas das costureiras. Havia sempre uma ou outra que sem querer, num qualquer movimento, afastava os joelhos e, quando a saia subia, para além de lhe ver a perna que com sorte não tinha meias, por vezes, na penumbra das profundidades da coxa, conseguia ver o branco de uma cueca.

Com o tempo, passei a considerar aquele espaço também como meu. Num ambiente de tecidos, entretelas, linhas, botões, agulhas, ferros e tábuas de engomar e, raparigas, quase que aprendo a fazer bainhas, a chulear e a tirar pespontos.
Algumas vezes a Dona Henriqueta, a minha mãe, modista exímia, mandava-me à retrosaria da Dona Salvina comprar um carro de linha de determinada cor para terminar a peça que tinha de ser entregue nessa tarde ou, botões que estavam em falta ou, colchetes para prender no cós de uma qualquer saia ou, um fecho maior porque por engano tinha sido comprado um outro demasiado pequeno.

No fundo, era ali que eu ganhava a vida e fazia frente às minhas despesas. Para além de depois do jantar ganhar dinheiro arrancando precoces cabelos brancos ao meu pai, que os pagava a três cabelos um tostão, ia fazer as entregas das roupas acabadas: a minha mãe pagava-me pelo serviço e, com sorte, as senhoras davam-me uma boa gorjeta.
Foi assim que adquiri o meu primeiro relógio de pulso e a minha primeira e única bicicleta, comprada em segunda mão a um familiar.
Mantive o negócio da distribuição que havia herdado do meu irmão mais velho até me sentir confortável com a tarefa. Ao crescer, trespassei-o às minhas irmãs mais novas.

Todavia, as minhas malandrices tinham um custo elevado. Quando eu entrava na casa de banho para o duche, para se vingarem de mim, as raparigas mais velhas simulavam que pretendiam arrombar a porta.
Assim que tal acontecia, aterrorizado com essa possibilidade, em busca de salvação, gritava desalmadamente pela minha mãe.

Henrique Bonança
Altura – Maio de 2018

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