Crónicas do AlgarveAcerca de certas idas à mercearia do meu avô
Por Henrique Bonança

Por Jornal Rostos
Por volta das cinco da tarde, da distância de dois quarteirões inteiros, a partir da rua pedonal dos cafés e das lojas, à esquina do pronto-a-vestir Trindade Coelho, espreitava para ver se a bicicleta do meu tio Aurélio ainda estaria em frente à porta da mercearia, onde quase sempre costumava estar, com o pedal encostado ao lancil da calçada, na ponta oposta à da oficina de motorizadas do senhor Isidro.
A esse canto donde espiava, mesmo em frente ao café Firmo onde se compravam os melhores gelados cremosos do mundo, confeccionados artesanalmente com a paixão e o saber único da Dona Camila, num banquinho de madeira, atrás de duas grandes alcofas a transbordar de amendoins, virada para a avenida, sentava-se a tia Maria-das-Arvelhanas.
Aí, ao lado da porta lateral da famosa e distinta loja, com as suas medidas de madeira de diferentes tamanhos, de cabelo coberto por um lenço cujas pontas se uniam num laço por debaixo do queixo, a tia Maria vendia as suas tão apreciadas alcagoitas aos passeantes e aos passantes.
Às cinco da tarde de todas as tardes, com pontualidade britânica, o meu tio montava-se na bicicleta e ia lanchar a sua casa. Entre a ida e a volta, considerando a distância e o tempo necessário para a merenda, pedalando ao seu ritmo, ele demorava exactamente vinte minutos.
Esse era o tempo que eu tinha disponível para actuar. Nem mais um minuto. Por vezes até menos, por o meu tio se adiantar e, surpreender-me na loja, sem que eu tivesse conseguido sequer um bombom para adoçar a boca.
Portanto, se a bicicleta já lá não estivesse, podia avançar sem receios: significava que o meu avô Carlos estava sozinho no estabelecimento, a atender clientes.
O apelo que a mercearia exercia sobre mim era poderosíssimo: quer pelos seus particulares e fascinantes cheiros, quer pelas guloseimas que lá havia.
A maior parte dos produtos ali vendidos estavam acondicionados em caixas de latão, pelo que os seus aromas se libertavam facilmente, entranhando-se no local: desde o café, ao petróleo, passando pelo bacalhau.
Quanto às guloseimas, sem falar dos bombons com recheio de diferentes frutos embrulhados em prata colorida, das sombrinhas e das barrinhas de chocolate da Regina, acima de tudo, o que eu procurava eram os torrões de açúcar amarelo que estavam dentro de uma gaveta, ao lado da faca de cortar bacalhau aparafusada ao balcão de madeira grossa.
Conseguir meter a mão na gaveta sem ser visto, não era tarefa fácil. Mas, eu era tão guloso que arriscava tudo. Por vezes, a gaveta estava semiaberta e, então, disfarçadamente, bastava enfiar os dedos até tocar num torrão que coubesse na boca para lá ficar a derreter, encostando a barriga ao balcão para encobrir o movimento do braço.
Se a gaveta estivesse fechada, tinha de aguardar impacientemente que algum cliente solicitasse um litro de petróleo ou umas postas de bacalhau para cozer com batatas.
Como esses produtos estavam nas traseiras, na contra loja, assim que o meu avô ia aviar o pedido, num movimento rápido, abria a gaveta, sacava o torrão e punha-o na boca.
Não sendo possível o torrão de açúcar amarelo, era uma tablete de sabores da Regina que escondia no bolso dos calções para comer mais tarde!
Quanto aos bombons, apesar de gostar muito deles, só avançava em último caso, em situação de absoluto desespero.
Sacar bombons era muito difícil. Estavam dentro de um frasco de vidro com uma tampa de metal que era preciso desenroscar à vista de todos, mesmo em cima do balcão.
Com os clientes à minha frente, parecendo eles olhar implacavelmente para mim, a controlarem os meus movimentos e, com o meu tio Aurélio a chegar a qualquer momento, sentia-me como se estivesse a arriscar a minha própria vida.
Henrique Bonança
Altura – Maio de 2018














