Crónicas do AlgarveAcerca dos Rebuçados Peitorais do Dr. Bayard e do Meu Avô Carlos
Por Henrique Bonança

Por Jornal Rostos
De todas as vezes que isso acontecia, não sabendo eu explicar o fenómeno, apesar de sentir algum medo, ficava maravilhado com aquele prodigioso passe de mágica. Ao princípio, nas primeiras vezes, desconfiado, eu desviava a cabeça para um dos lados: não gostava nada que ele mexesse nas minhas orelhas!
Depois, quando percebi que não fazia doer e que tão bem sabiam, assim que o meu avô entrava em casa, corria ao seu encontro e pedia-lhe que mos tirasse!
Durante algum tempo convenci-me mesmo que os rebuçados eram fabricados dentro do meu corpo. Imaginava que fosse na barriga, na zona do umbigo.
Nessa ordem de ideias, as minhas orelhas e o meu nariz eram como que uma torneira que o meu avô abria para que eles saíssem cá para fora para serem chupados e saboreados por mim.
Depois, voltavam para dentro pela boca para continuarem a sair mais rebuçados pelas orelhas! O meu avô aproximava-se a sorrir, dobrava-se para a frente, esticava o seu braço e dava à sua mão direita a forma de concha que enchia com a minha orelha esquerda.
Depois, remexia-a muito bem em movimentos circulares e, no final do processo, com a ponta dos dedos, apresentava-me um delicioso rebuçado embrulhado em forma de lacinho num papel branco e brilhante com letras azuis.
Assim que o apanhava, descascava-o numa fracção de segundo e punha-o na boca. Chupava o rebuçado durante um bocadinho de tempo mas, antes que o avô se fosse embora, escorrendo-me pelos cantos da boca aquela baba pegajosa que resulta da mistura criada pela acção da saliva, mastigava-o à pressa para ir pedir-lhe que me tirasse outro do nariz, caso o primeiro tivesse sido da orelha.
Anos mais tarde, ao encontrá-lo na rua, os rebuçados continuavam a aparecer na mesma mas, já não saíam das minhas orelhas, eles saíam do seu bolso. De facto, sempre conheci o meu avô com rebuçados peitorais do Dr. Bayard no bolso do casaco ou no das calças. Não sei se por ser guloso, se por serem peitorais e ele procurar algum benefício através do seu consumo.
A verdade é que ele os adorava! O seu grande amigo era o senhor Manuel Ribeiro que possuía uma barbearia na Praça Marquês de Pombal. Passava boa parte das tardes nesse estabelecimento, na conversa com o senhor Manuel e com quem lá estava: empregados e clientes.
Ao amigo, homem que se movimentava com alguma dificuldade devido a uma acentuada curvatura da coluna, pela idade de ambos e pelos achaques e doenças que os afectavam, dava conselhos do tipo: “Não comas azeitonas Manuel, são um veneno!”.
Passada a hora do calor, terminada a conversa, o meu avô Carlos iniciava o seu treino diário: caminhar à volta da Praça! Vinte e cinco voltas de um quadrado perfeito com cinquenta metros de lado. Ou seja, um percurso de cinco quilómetros todas as tardes. Tinha tudo controlado. O relógio da câmara municipal ajudava-o. O tempo do trajecto em função dos metros percorridos. Eu já sabia que era assim, passada a idade de chupar rebuçados do Dr. Bayard, quando queria uma moeda de vinte e cinco tostões, procurava-o na Praça.
A sua figura era inconfundível para mim, reconhecia-o de imediato: elegante, de altura média e andar firme, de bengala estética na mão direita, e, para compor e aconchegar, boné na cabeça a cobrir a risca rasgada mesmo ao centro de uma farta cabeleira totalmente branca. Ao meu avô Carlos Bonança
Henrique Bonança
Altura – Abril de 2018














