Crónicas do AlgarveAcerca de certas relações de amizade
Por Henrique Bonança

Por Jornal Rostos
No interior do número quinze da Rua dos Combatentes, bem perto do Largo da Bica, o relógio da Câmara Municipal fez-se ouvir com uma sonora badalada metálica, sinalizando as cinco e meia da tarde. Nesse momento, o Ti Canhão, arrastando para trás a cadeira onde se sentava, afastou-se da mesa da cozinha e levantou-se. Desligou o rádio que até aí emitira alguns fadinhos da Amália e saiu de casa.
Já na rua, ao avistá-lo, fez um aceno ao Larita que descansava sentado no poial da sua casa, a um dos cantos da Bica, do outro lado da estrada de pedra. Com o olhar e um movimento de cabeça cumprimentou a Ti Galinha que se assomara à porta de casa, mesmo ao lado da do Larita e, dando meia volta, caminhou no sentido do rio. Todavia, andou poucos metros. À esquina do quarteirão voltou à direita para entrar na Rua do Brasil, passou pela mercearia da Dona Carminda e entrou pelo velho portão de madeira pintado de vermelho escuro da tasca do Zé-Surdo.
Lá dentro, sem surpresas, sentiu o cheiro dos carapaus a fritar misturado com os odores da mercearia do lado, da serradura espalhada pelo chão para absorver o vinho derramado, dos gatos que ali viviam, talvez, também, dos ratos fugidios que às vezes passavam entre as mesas, dos dejectos e do alpiste das gaiolas de pintassilgos e canários suspensas em pregos espetados nas paredes, assim como dos fogareiros que tinham estado acesos ao almoço para assar umas sardinhas.
Já encostado ao balcão de pedra vermelha pintalgada de branco, bebeu de um trago o copo de quarto que o Zé-Surdo lhe servira. No final do processo, enquanto dava um estalo com a língua, com a mão esquerda apanhou uma azeitona britada e pô-la na boca. Depois de lhe retirar a carne com os dentes e a língua, projectou o caroço para a outra mão, antes de o colocar no pires.
Quando acabou de mastigar a azeitona, reparou que o Ti Cagaço, seu grande amigo, acabara de entrar na taberna e que o procurava com o olhar.
Juntando-se ao balcão, antes de saírem, o Ti Canhão aguardou que o Ti Cagaço bebesse o seu tinto. Claro, estando o Zé-Surdo tão atarefado, esperou um pouco mas, como o vinho foi sorvido de penalti, no final, compensou.
Cumprindo o ritual de sempre, apanharam a direcção do rio e, no quarteirão seguinte, na Rua da Princesa, fizeram uma pequena pausa na tasca do António Vinte e Oito, onde, acompanhados pelos que já lá estavam, beberam outro tintinho para recuperar as forças.
Dali, do António Vinte e Oito, num pequeno salto, foram até ao café Pescador, no quarteirão seguinte, de frente para o rio. Depois de alguma conversa com quem lá encontraram, de bebericarem mais um copito, decidiram sentar-se no jardim do outro lado da avenida de paralelepípedos de granito, num dos bancos de madeira virados para o rio, a aguardar pela hora do jantar.
A agradável tarde aproximava-se do final, a maré estava bem cheia e sentiram a frescura da proximidade da água sempre bem-vinda no verão.
Entretanto, após entrar na barra aproveitando a maré, passa na sua frente uma patrulheira da Marinha de Guerra Portuguesa com um grande canhão montado na proa.
O Ti Cagaço não resistiu e, com um sorriso nos lábios, pergunta ao amigo: “Já viste, o que nos aconteceria se disparassem aquele canhão?
O Ti Canhão não se engasgou, foi rápido na resposta: “É pá, apanhávamos cá um cagaço!...”
Henrique Bonança
Altura – Janeiro de 2018














