Crónicas do AlgarveAcerca de um vento frio que sopra de norte, do Zé Aranha e do Zé Rita!
Por Henrique Bonança

Por Jornal Rostos
Supus que não me apercebera por estar desatento, com a mente a vaguear fora do corpo: ou por responsabilidade dos mujos que petiscavam no aquário protegidos de predadores ou, por escutar a gritaria lancinante das gaivotas a lutar em pleno voo por um pedaço de peixe.
Porém, depois, compreendi que sendo isso tudo verdade, para além desse facto, foi também por estar a pensar, não no que via no espaço envolvente, mas, no que faltava nesse espaço; Naquilo que existiu e, já não existe, ou seja, do que me lembrava que ali esteve e que já não está.
Como exemplos, posso referir o cais da Rainha D. Amélia, creio, o antigo jardim ou, o lamaçal que a baixa-mar expunha e que permitia ao tio Piúgo, à sua esposa a tia Galinha, e a toda a sua família que vivessem da apanha de minhocas para a pesca.
Por outras palavras, sem quaisquer juízos de valor, sem querer dizer que agora é melhor do que antes ou vice-versa, ao caminhar encostado à margem do rio, pelas evidências exibidas, percebi que a realidade que nos circunda é mutável, que a cidade pela constante intervenção humana tem uma dinâmica que no nosso dia-a-dia às vezes não enxergamos.
Tal circunstância, sentida enquanto caminhava ligeiramente inclinado para a frente e a apertar bem o casaco para me proteger do vento gélido que soprava de norte, impediu-me de perceber que estava já em plena muralha.
Depois, compreendi que para além disso, também por a zona estar absolutamente irreconhecível. Até diria, para quem como eu a conheceu noutros tempos, desoladora!
E foi no momento da minha chegada ao cais comercial, por não vislumbrar qualquer frota de traineiras e de enviadas encostada à muralha, pelo sumiço dos belos e velhos guindastes, pela falta dos blocos de granito e dos fardos de palha presentes na minha infância, pela ausência do frenesim da descarga do peixe e do grasnar das gaivotas, dos carros de mula dos atuns, dos camiões de carga, dos guardas-fiscais, dos pescadores e estivadores, que me veio à memória uma estória contada por alguém cujo nome não me lembro e que ilustra uma outra realidade.
Dessa estória simples, todavia, reveladora daquilo que foi a vida à volta do nosso cais e que indicia as diferenças sociais existentes, são protagonistas o Zé Aranha, figura popular, mítico repentista, de profissão indefinida, bebedor de copos de vinho tinto que vivia do que conseguia no dia-a-dia, e o industrial Zé Rita, homem de muitas posses, dono de fábricas de conserva, assim como de traineiras e enviadas para as abastecerem de pescado, pai da D. Maria José Rita, ex-primeira dama.
Imaginem o amanhecer de um dia de inverno muito frio e que um vento glacial que sopra de norte o torna quase insuportável. Quem conhece o cais comercial e a muralha da vila sabe do que falo. Nessa manhã, como em muitas outras manhãs, o Zé Rita vai assistir à chegada das suas embarcações, saber como correra a faina, acompanhar a descarga. Veste-se em função das condições climatéricas existentes. Protege-se. Ostenta grosso sobretudo, cachecol de lã, boné cravado na cabeça, luvas de pelica e, fuma um charuto, embora, isso já não possa garantir. Somente, imagino!
O Zé Aranha cruza-se com o Zé Rita e, este, vendo-o de camisola de manga curta, entre o arrepiado e o surpreendido, pergunta-lhe: “Zé, mas, tu não tens frio?”.
Fazendo jus à sua fama de sagaz repentista, o Zé Aranha respondeu: ”frio, claro que tenho! Não tenho é roupa!”
Henrique Bonança
Altura – Janeiro 2018














