Crónicas do AlgarveAcerca de Santos Populares, de Fogueiras, de Marcela e de Peidinhos-de-Velha

Por Jornal Rostos
Quem por fim o resolvia era sempre o senhor Zé-Surdo, alugando ou emprestando um dos seus pesados carros-de-mão que estacionava na berma da estrada, onde encostados ao lancil dormiam ao relento, mesmo em frente ao grande portão de madeira pintado de vermelho e, das gaiolas de pintassilgos penduradas nos pregos ferrugentos cujas cabeças saiam das paredes amarelas da tasca, desde que ali batia o sol pela manhã.
Nesse ano, mais uma vez fomos à taberna pedir-lhe um dos carrões. Encontrámo-lo a temperar com azeite e vinagre um prato de estupeta, do lado de dentro do balcão com tampo de pedra vermelha pintalgada de branco, a cujo canto se podia ver um pequeno expositor com ovos cozidos, carapaus fritos e sardinhas estivadas, protegido com rede de arame para manter afastadas as ameaçadoras moscas esfomeadas que por ali esvoaçavam em círculos.
Enquanto escutava o nosso choradinho, a apertar um garfo com a mão direita, aproveitou para espetar os seus dentes numa farpinha de atum salgado desfiado, numa lasquinha de pimento verde, numa polpinha de tomate, num arquinho de cebola e, com muito cuidado para não perder nenhuma das peças, molhou tudo no caldo que escorrera para o fundo do prato, antes de o levar à boca.
Fechou os olhos, levantou o queixo, pareceu estremecer ao sentir o sal a penetrar nas papilas gustativas e, depois de com vagar mastigar e engolir a mistura, visivelmente satisfeito, deu um sonoro estalo com a língua.
Antes de responder, rodando sobre si próprio, virou-se para trás na direcção das pipas com um copo de quarto vazio na mão esquerda. Dobrando-se um pouco, aproximou-o da torneirinha de madeira da maior delas, que agarrou com a mão direita. A olhar para a foto oficial da equipa do Benfica pendurada ao lado da cortina de fitas coloridas de plástico da entrada para a cozinha, girou-a para encher o copo de vidro de tintinho até derramar por cima da serradura que cobria o chão, escutando-se a chiadeira característica que às vezes até fazia arrepiar.
Depois de beber o vinho de seguidinha em grandes goles, enquanto soprava para uma das mãos o caroço de uma azeitona que pusera na boca, olhou para nós e disse-nos:
“Podem levar, eu empresto!”
Na manhã seguinte, véspera de Santo António, levámos!
Empurrar um daqueles pesados carros, de enormes rodas de madeira calçadas com solas metálicas que faziam um barulho ensurdecedor ao caminhar no empedrado, não era tarefa fácil: exigia o esforço conjunto de vários de nós!
Indo para Sul, passámos pelas traseiras da Capitania do Porto onde graças à carolice e saber do mestre Ilídio Setúbal, o Clube Náutico do Guadiana formava os seus muitos campeões de ginástica, exímios e elásticos atletas, protagonistas de vistosas piruetas e saltos perigosamente mortais.
Mais à frente, antes da fábrica Boa Esperança, virámos à esquerda no sentido do rio Guadiana e seguimos por ele em direcção ao Lazareto, passando pelas paredes amarelas da fábrica Paródio para depois, à esquina da fábrica Cofaco, contornando-a, irmos para uma das entradas da mata, muito perto do estaleiro naval do senhor Pena.
Encontrada a melhor aberta, a recolha da marcela e da planta que crescia em pequenos tufos que, por estalar em contacto com o fogo, foi-lhe dado o nome de peidinhos-de-velha, decorreu ao longo da maior parte da manhã.
Apesar de muito cansados e sedentos, no regresso pela Avenida da República, ao avistarmos o marégrafo situado na margem do rio, ao lado do cais do Paródio e depois da praia-dos-em-pelotes, como que para nos prepararmos para a festa dessa noite, encostámos o carro carregado e, despindo a roupa suada e suja, fomos mergulhar no rio!...
A fogueira que queimaria a madeira já recolhida, aromatizada depois com a marcela que enchia o carro, seria só ao início da noite, assim como as rodas, as danças e as cantigas!...
Henrique Bonança
Altura – Junho de 2018














