Crónicas do AlgarveAcerca de uma Guerra com Dia e Hora Marcada

Por Jornal Rostos
A mãe mandou-o à tasca do senhor Zé-Surdo e quando ela mandava não valia a pena replicar: apesar de contrariado, teve de lá ir comprar carvão e sal grosso para o pai puder assar uns pimentos e umas sardinhas para o jantar.
Ele não gostava absolutamente nada desse tipo de mandados. Forçosamente tinha de passar pelo Largo da Bica. Para evitar o perigo podia ir pela baixa-mar mas, a volta era maior e ele arriscou: à hora do lanche a malta da Bica costumava ir a casa comer uma fatia de pão com azeite e açúcar amarelo ou, então, se houvesse, com marmelada.
Encostado à parede, quase a correr, conseguiu passar sem ser visto e, dobrando a esquina, entrou na taberna. Não viu o senhor Zé do outro lado do balcão. Por estar com imensa pressa, afligiu-se.
Logo depois, pelo cheirinho a molho amarelo, percebeu que ele estaria na cozinha, mesmo por detrás das pipas de vinho, de roda de um tacho de barro, a cozer lingueirões com batatas para o petisco.
Esperou impacientemente e, quando o senhor Zé apareceu para o despachar, nem reclamou quando se apercebeu que quase metade da pá estava carregada de pó de carvão. Nem sequer quando viu duas pedras disfarçadas tisnadas de negro a serem metidas no saco. A necessidade de sair dali era mais do que muita!
Carregado com o saco de carvão e outro de sal, em sentido inverso, passou a correr pelo Largo. Quando pensou que estava safo, pelo canto do olho viu um deles a sair de casa. Quase de seguida, escutou-o a dar o alarme e, percebendo que iria ser perseguido, correu como que para salvar a vida.
Ao longe, aliviado, já com a sensação de estar livre de perigo, voltou-se para trás e gritou: “ seus grandes filhos-da-puta, agora vai haver guerra!”
No Largo da Bica a ameaça foi levada muito a sério. Também queriam guerra. Ele não devia ter atravessado aquela rua sem avisar. Para a preparar, dois dos mais pequenos foram mandados combinar as coisas: a que dia e onde seria a luta, sendo que o melhor sítio teria de ser sempre em campo aberto. Nada de castelos na mata. Às vezes era preciso fugir e convinha não estar fechado.
Depois de duas reuniões muito turbulentas, o sítio da guerra ficou acordado para as dunas de areia da estrada do farol!
Quanto às horas, foram instruídos que deveria ser depois da hora do calor mas, antes do jantar. Entre uma coisa e outra!
Quanto aos outros, havendo necessidade de armar o exército, as tarefas foram divididas: uns foram mandados à oficina de bicicletas do senhor Serafim pedir uma câmara-de-ar velha para fazer elásticos para as fisgas, alguns outros à mata cortar troncos das retamas para as espadas e, outros ainda procurar tampas de latões de tinta para fazer escudos. Houve um que descobriu em casa um guarda-chuva já velho e estragado e trouxe-o para fabricar arcos e setas.
Como importante incremento da capacidade bélica, à cautela, foram pregados pregos na ponta de uns paus compridos e grossos.
No dia da guerra, um pouco antes da hora marcada, o exército do Largo da Bica pôs-se a caminho. Chegaram antes dos outros, escolheram a duna mais alta e, lá do alto, com essa vantagem, esperaram pelo inimigo.
Assim que eles se acercaram, ao verem a malta do Largo da Bica, começaram logo à pedrada. Felizmente a Bica tinha trazido bons escudos e, encolhidinhos, todos juntos, por milagre, lá se safaram sem cabeças partidas.
Contudo, nesse momento, quando o exército do Largo da Bica quis responder, perceberam que apesar de tanta preparação, haviam-se esquecido de trazer pedras para a guerra.
O soldado que tinha o arco, oferecendo o corpo às pedras, levantou-se corajosamente para fazer pontaria e atirar as flechas mas, fê-lo com tanta força que dobrou o metal.
Perante o brutal falhanço da artilharia, a moral das tropas do Largo da Bica caiu rapidamente para níveis baixíssimos. Por sorte ninguém desertou.
Os outros quiseram atacar, porém, ao verem os pregos ferrugentos na ponta dos paus, prudentemente ficaram onde estavam. Constatou-se que os pregos na ponta dos paus, à semelhança da bomba atómica, eram uma excelente arma dissuasora.
A Bica não abandonou a posição elevada favorável e a guerra entrou num impasse, limitando-se os soldados a ofender as mães e os pais de uns e de outros.
Às tantas, já fartos de tanta gritaria, por a guerra não andar nem desandar, cada um para seu lado, ambos exércitos foram para casa jantar.
Assim, a guerra foi adiada para outra ocasião!
Henrique Bonança
Altura – Maio de 2018














