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Crónicas do AlgarveAcerca de medo, de medos e de fantasmas

O grande desafio das noites escuras, o grande ritual de afirmação de coragem para o pessoal da Bica, era conseguir chegar à parede final dessa rua, onde sabíamos haver um perigoso fantasma escondido à nossa espera.

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Crónicas do Algarve Acerca de medo, de medos e de fantasmas

Por Jornal Rostos

Viesse quem viesse, a malta da Bica não tinha medo de nada, nem de ninguém!

A afirmação, claro, será verdadeira desde que não falemos do medo que tínhamos da polícia e do chefe Pedro, de apanhar reguadas da professora por não saber a tabuada, do Ti Estrela que só no seu dia de anos nos deixava apanhar as saborosas amoras da escola do professor Caldeira, do cão do Guarda-Mato, do pessoal dos bairros, sobretudo, do Igualdino, do Seda, do Cau e também do Alberto: temíveis e assustadores, sempre a patrulhar pelas ruas a norte da avenida, prontos para andar à pancada, com quem às vezes nos confrontávamos se não fugíssemos a tempo ou, ainda, em geral, de todos aqueles que viviam nos quarteirões fora da nossa zona de conforto, ao redor do Largo da Bica.
Esses medos, esses receios próprios de quem brincava na rua, mantinham-nos alerta e uniam-nos perante o perigo, preparavam-nos para a vida.

Contudo, a um outro nível que não o da probabilidade de um confronto físico iminente e para incrementar ainda mais os nossos tormentosos temores, à noite, na rua, à porta de casa, as famílias e seus amigos, sentados em cadeirinhas de verga, alumiados pela luz fraca da iluminação pública, contavam arrepiantes estórias de medos e de fantasmas.
Essa era uma época em que havia muitos fantasmas e muitos medos!
Qualquer casa abandonada tinha um fantasma. Algumas tinham vários: um no corredor, outro na sala e, outros nos quartos. Se fosse edifício de 1º andar, na parte de cima da casa também havia um par deles. De certezinha. Como havia muitas casas velhas e abandonadas, contavam-se muitas estórias.

Inclusivamente, pelas suas características e popularidade, a alguns fantasmas era-lhes atribuído um nome. Recordo-me de ouvir falar da “costureirinha” que vivia numa dessas casas devolutas. De noite, ao passarem pela frente do prédio, as pessoas escutavam claramente o som de uma máquina a costurar. Tal som só poderia ter origem no fantasma de uma antiga costureira que ali teria vivido.
Entrar sozinho numa casa assombrada não estava ao alcance de qualquer um. O destemido que conseguisse vencer os seus medos via o seu prestígio aumentar consideravelmente: ele era alguém cuja extraordinária façanha todos gostariam de poder replicar, alguém com absoluto desprezo pela vida, um ser muito corajoso, objecto de admiração geral.

Por vezes, para testar os níveis de coragem e estabelecer hierarquias, organizavam-se arriscadas visitas nocturnas a casas assombradas. Essas arrojadíssimas incursões eram em grupo. Agarrávamo-nos uns aos outros, a tremelicar, com o da frente a segurar uma vela cuja chama irrequieta criava medonhas sombras que se mexiam ameaçadoramente. Um quadro verdadeiramente aterrador.
Ao mínimo ruído: uma porta que batia, uma janela aberta que gemia com a corrente-de-ar e, com o pânico, acagaçados e a gritar, debandávamos vergonhosamente.

Os fantasmas não habitavam exclusivamente casas abandonadas. Era possível encontrá-los noutros lugares. Bastava ser uma rua, um beco, um local mal iluminado, um sítio escuro. Quase de certeza que ali havia pelo menos um!
Um exemplo de um desses sítios era a parede lateral de um dos armazéns da fábrica Paródio, mesmo ao fim da rua do Brasil, onde à direita existia um areal que acompanhava a parede da fábrica Boa Esperança e nos levava ao campo do Glória.
O grande desafio das noites escuras, o grande ritual de afirmação de coragem para o pessoal da Bica, era conseguir chegar à parede final dessa rua, onde sabíamos haver um perigoso fantasma escondido à nossa espera.

Cumprir essa complicada missão sem ter qualquer lâmpada protectora que aconchegasse e fortalecesse o ânimo e, ainda, para terminar, como se não bastasse, atrever-se a tocar no muro do armazém da fábrica, acreditem, era uma aventura que gelava o sangue do mais corajoso.
Conheci poucos que o conseguissem!

Henrique Bonança
Altura – Abril de 2018

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