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Crónicas do AlgarveAcerca de um jogo de futebol na rua do Cau, nas traseiras da praça do peixe.
Por Henrique Bonança

Quando se soube, para o jogo de estreia da bola, juntou-se tanto pessoal no Largo da Bica que foi decidido irmos jogar para a rua do Cau, filho do mestre Coelhinho, um dos mais afamados mestres de pesca da vila, nas traseiras da praça do peixe.

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Crónicas do Algarve Acerca de um jogo de futebol na rua do Cau, nas traseiras da praça do peixe. Por Henrique Bonança

Por Jornal Rostos

O malandro do Tói, sem dizer nada a ninguém, já há muito tempo que andava de olho na bola de couro que todos nós ambicionávamos. Uma bola daquelas com câmara-de-ar e um pipo para a encher à bomba: ou, na oficina de bicicletas do senhor Serafim, mesmo ali na baixa-mar ou, então, na oficina do senhor Pescada, em frente às Janelas Verdes, cafetaria e restaurante do senhor Silva, onde também se jogava ao bilhar.
Ter uma dessas bolas era um luxo. Uma raridade que não estava ao alcance de todos. Com uma assim já dava para ir jogar à bola com toda a dignidade para os barros do Campo do Glória, onde vivia o senhor Renhaca, sem envergonhar ninguém.
O Tói tinha uma caderneta onde colava as fotos dos jogadores e todos os dias ia à taberna do senhor Zé-Surdo comprar os rebuçados que elas embrulhavam para tentar completar a colecção. Com os jogadores que comprava, mais os que trocava, apesar de haver alguns bastante raros e difíceis, estava quase a conseguir terminar. Não trazia muitos, com três ou quatro tostões, só uns quantos de cada vez.
Na realidade, era só uma desculpa, um estratagema, uma oportunidade para dar uma olhadela e perceber se faltava muito para chegar ao fundo da lata quadrada dos rebuçados, fundo esse onde estava colado o último deles, enrolado pela fotografia de um jogador de futebol, o distinto portador do fabuloso prémio: a cobiçada bola-de-quêbra.
Assim que se apercebeu que só faltavam trezentos ou quatrocentos rebuçados, para garantir ao máximo ser ele o afortunado, com uma martelada seca partiu o mealheiro de barro onde há meses juntava dinheiro para andar nos carrocéis da feira e, com apurado e raro instinto de ponta-de-lança, para desespero de outros que também andavam à espreita, antecipou-se, comprou-os e levou a bola para casa.
Quando se soube, para o jogo de estreia da bola, juntou-se tanto pessoal no Largo da Bica que foi decidido irmos jogar para a rua do Cau, filho do mestre Coelhinho, um dos mais afamados mestres de pesca da vila, nas traseiras da praça do peixe.
Antes do jogo, com muita discussão pelo meio, escolheram-se as equipas. Para a baliza ninguém queria ir, nem sequer os mais novinhos, mesmo que ameaçados com pancada.
Para ultrapassar essa dificuldade, jogou-se sem guarda-redes, com balizinhas pequeninas feitas com duas pedras, distanciadas um metro uma da outra.
Os outros, os jogadores de campo, a fim de obter equilíbrio no resultado final, foram escolhidos à vez pelos dois mais velhos e mais fortes: a selecção começou pelos melhores a jogar futebol ou, aqueles com melhor prestígio no grupo ou, ainda, os que tinham maior força física.
Os considerados piores e os mais novos e menos influentes, dramaticamente, ficaram para o fim. Esta circunstância azedou o ambiente de imediato.
Ninguém gostava de ser dos últimos a ser escolhido. Abalava o moral da vítima. Contudo, apesar do entusiasmo decorrente da estreia da bola, ultrapassada a fase da selecção das equipas, as coisas não correram bem. Logo desde o início da partida houve imensas discussões e interrupções, com constantes dúvidas acerca de se a bola teria ou não entrado na baliza. Bastava que ela roçasse uma das pedras, sem que entrasse de forma bem visível pelo centro, para que se generalizasse a confusão com empurrões, berros e acusações mútuas de batotice.
A partida estava a ficar com um ambiente quase explosivo quando, num lance infeliz, ficou ainda mais complicada: o Tói desmarca-se e o Zé, irmão do Marcelino, coloca-lhe a bola a pingar. Ele recebe-a, faz uma rotação e corre para a baliza com o esférico coladinho ao pé. Perante uma oportunidade clara de golo, sozinho em frente à balizinha, entusiasma-se e, em vez de a empurrar, dá uma bicada na bola.
A maravilhosa bola de-quêbra recebe um impacto tão forte que sobe, ultrapassa os limites do campo e vai bater em cheio na janela da casa onde vivia o endireita da vila, partindo dois dos vidros. Com o estrondo, o jogo parou instantaneamente, com todos os jogadores a olhar para o Tói.
Como tinha sido possível, questionávamo-nos! Segundos depois, a porta abre-se e, o dono da casa, a coxear e a esgrimir uma bengala, indignado, sai e diz que vai chamar a polícia. Ao ouvir a ameaça, como que por magia, esfumámo-nos.
A bola ficou esquecida e nunca mais foi recuperada!

P.S. – Como contribuição para acabar de vez com uma incompreensível polémica que dura há já mais de quarenta anos, quero aqui afirmar que, apesar de só saber fazer uma única finta, o Cau da Bica é muito melhor jogador do que o Nelson do Bairro da Caixa, que não sabe parar a bola com o peito.

Henrique Bonança
Altura – Abril de 2018

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