Crónicas do AlgarveAcerca de cinema

Por Jornal Rostos
Ao contrário do que se passava no Glória, no Cine-Foz ou no Lusitano, nas da Bica podia-se pedir para repetir as cenas mais intensas, como quando numa coboiada o rapaz da fita dava um soco no queixo barbudo do bandido seboso. Se houvesse tiroteio, assaltos a bancos, índios, perseguições a cavalo ou emboscadas em ingremes desfiladeiros, sucediam-se os pedidos para repetições.
O grau de envolvimento dos espectadores era elevado e ninguém queria perder nada. Em caso de dúvida quanto a algum pormenor, a repetição era como que em câmara lenta. Obrigava a maior detalhe na descrição. Deste modo, uma sessão de cinema facilmente demorava algumas horas. Muitas vezes havia necessidade de fazer intervalo para o xixi ou, então, para ir lanchar ou jantar.
Para assistir bastava esperar pelo Fausto. O seu padrinho Gica trabalhava no Cine-Foz, razão pela qual conseguia entrar sem pagar e, assim que lá acabava a sessão da tarde, corria para o Largo para iniciar a dele. Entretanto, na grande sala onde o filme era projetado, ele preparava-se!
Completamente absorto, sem desviar os olhos do écran, gravava todos os pormenores do enredo: os diálogos, os galopes e o relinchar dos cavalos, a música, a vestimenta dos personagens, as pernas das coristas dos saloons. Nada se escapava à sua inesgotável capacidade de captação e de memorização.
Como já se sabia como era, no Largo da Bica a malta espalhava-se pelos poiais das portas das casas. Uns preferiam esperar sentados, outros a jogar ao berlinde ou ao pião. Uma coisa ou outra ou outra coisa qualquer. Dependia muito do calor que porventura houvesse. Ou, então, da época do ano: havia o tempo do berlinde, do pião, das setas, da uva, da bananeira e de muitos outros jogos. Claro, futebol havia todo o ano mas, como ao domingo se usava outra roupinha, tinha de de se ter cuidado para não a estragar.
O Fausto era um grande especialista em filmes de Cobóis. Nos de Capa-e-Espada também era bom mas, nos de Cobóis era muito bom mesmo! De pé, de frente para o grupo que se sentava na calçada formando filas, começava a contar a fita pelo leão da Metro!
A película era seguida em respeitoso silêncio pela assistência. Quando o bandido fazia alguma maldade era logo prontamente assobiado. Por outro lado, quando o rapaz da fita conseguia dar um merecido tiro no desprezível malfeitor, era aplaudido de pé.
Para além da necessária representação dos gestos, o Fausto era espetacular a reproduzir sons: pelo som que produzia ao soprar habilmente entre os lábios com a ajuda da ponta da língua, percebia-se se o tiro tinha sido de revólver Colt ou de carabina Winchester. Nos duelos entre o xerife e o bandido, naquela fração de segundo em que sacavam as reluzentes pistolas dos coldres de couro amarradas à coxa por um fiozinho, enquanto num rápido movimento as apontavam ao adversário, escutavam-se os estalinhos do tambor a rodar, depois da ponta do polegar puxar o percutor. Após os disparos, ouviam-se as balas a assobiar perigosamente junto aos corpos.
Caso algum deles fosse atingido por um projétil, simulava o impacto da bala no seu próprio corpo e, caso o ferimento fosse fatal, caía no chão desamparado. Seguiam-se uma série de horríveis convulsões, a simular um sofrimento atroz, até à rigidez terminal.
Muito apreciadas eram as cenas de pancadaria em que a inevitável garrafa de whisky voadora estilhaçava a montra ou o espelho pendurado na parede atrás do balcão.
Naquelas sessões de cinema a céu aberto, graças às fantásticas descrições que o Fausto nos fazia, imaginando-o, escutava-se com enorme nitidez o som metálico do arrastar pelo chão de madeira do saloon das esporas afiveladas às empoeiradas botas de cano alto dos cobóis. Ao inigualável Fausto Ribeiro, eterno amigo!
A partir de texto incluído no livro “Peidinhos-de-velha” que escrevi e publiquei em 2010 com o patrocínio da C.M. de Vila Real de Santo António.
Henrique Bonança
Altura – Março de 2018














