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Crónicas do AlgarveAcerca de cinema

Apesar de haver três salas de cinema na Vila, as matinés de domingo mais interessantes eram as do Largo da Bica. Uma das vantagens imediatas era a de não ter de se pagar. Outra, que eram bem melhores!

4 min de leitura
Crónicas do Algarve Acerca de cinema

Por Jornal Rostos

Ao contrário do que se passava no Glória, no Cine-Foz ou no Lusitano, nas da Bica podia-se pedir para repetir as cenas mais intensas, como quando numa coboiada o rapaz da fita dava um soco no queixo barbudo do bandido seboso. Se houvesse tiroteio, assaltos a bancos, índios, perseguições a cavalo ou emboscadas em ingremes desfiladeiros, sucediam-se os pedidos para repetições.

O grau de envolvimento dos espectadores era elevado e ninguém queria perder nada. Em caso de dúvida quanto a algum pormenor, a repetição era como que em câmara lenta. Obrigava a maior detalhe na descrição. Deste modo, uma sessão de cinema facilmente demorava algumas horas. Muitas vezes havia necessidade de fazer intervalo para o xixi ou, então, para ir lanchar ou jantar.

Para assistir bastava esperar pelo Fausto. O seu padrinho Gica trabalhava no Cine-Foz, razão pela qual conseguia entrar sem pagar e, assim que lá acabava a sessão da tarde, corria para o Largo para iniciar a dele. Entretanto, na grande sala onde o filme era projetado, ele preparava-se!
Completamente absorto, sem desviar os olhos do écran, gravava todos os pormenores do enredo: os diálogos, os galopes e o relinchar dos cavalos, a música, a vestimenta dos personagens, as pernas das coristas dos saloons. Nada se escapava à sua inesgotável capacidade de captação e de memorização.
Como já se sabia como era, no Largo da Bica a malta espalhava-se pelos poiais das portas das casas. Uns preferiam esperar sentados, outros a jogar ao berlinde ou ao pião. Uma coisa ou outra ou outra coisa qualquer. Dependia muito do calor que porventura houvesse. Ou, então, da época do ano: havia o tempo do berlinde, do pião, das setas, da uva, da bananeira e de muitos outros jogos. Claro, futebol havia todo o ano mas, como ao domingo se usava outra roupinha, tinha de de se ter cuidado para não a estragar.
O Fausto era um grande especialista em filmes de Cobóis. Nos de Capa-e-Espada também era bom mas, nos de Cobóis era muito bom mesmo! De pé, de frente para o grupo que se sentava na calçada formando filas, começava a contar a fita pelo leão da Metro!
A película era seguida em respeitoso silêncio pela assistência. Quando o bandido fazia alguma maldade era logo prontamente assobiado. Por outro lado, quando o rapaz da fita conseguia dar um merecido tiro no desprezível malfeitor, era aplaudido de pé.
Para além da necessária representação dos gestos, o Fausto era espetacular a reproduzir sons: pelo som que produzia ao soprar habilmente entre os lábios com a ajuda da ponta da língua, percebia-se se o tiro tinha sido de revólver Colt ou de carabina Winchester. Nos duelos entre o xerife e o bandido, naquela fração de segundo em que sacavam as reluzentes pistolas dos coldres de couro amarradas à coxa por um fiozinho, enquanto num rápido movimento as apontavam ao adversário, escutavam-se os estalinhos do tambor a rodar, depois da ponta do polegar puxar o percutor. Após os disparos, ouviam-se as balas a assobiar perigosamente junto aos corpos.

Caso algum deles fosse atingido por um projétil, simulava o impacto da bala no seu próprio corpo e, caso o ferimento fosse fatal, caía no chão desamparado. Seguiam-se uma série de horríveis convulsões, a simular um sofrimento atroz, até à rigidez terminal.
Muito apreciadas eram as cenas de pancadaria em que a inevitável garrafa de whisky voadora estilhaçava a montra ou o espelho pendurado na parede atrás do balcão.
Naquelas sessões de cinema a céu aberto, graças às fantásticas descrições que o Fausto nos fazia, imaginando-o, escutava-se com enorme nitidez o som metálico do arrastar pelo chão de madeira do saloon das esporas afiveladas às empoeiradas botas de cano alto dos cobóis. Ao inigualável Fausto Ribeiro, eterno amigo!
A partir de texto incluído no livro “Peidinhos-de-velha” que escrevi e publiquei em 2010 com o patrocínio da C.M. de Vila Real de Santo António.

Henrique Bonança
Altura – Março de 2018

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