«Parasitas» - Entre o amor e o ódio, o acaso e a necessidadeEntrar no coração do ser humano e no drama da humanidade

Por Jornal Rostos
Ontem à noite vi, no Cinema do Forum Barreiro, o filme «Parasitas». Grande filme. Muito bom. Que grande lição sobre o mundo nos dias de hoje. Que grande lição sobre o ser humano e as situações.
Que força nas imagens que provam, objectivamente, como uma imagem vale mais, muito mais, que mil palavras. Que grandes planos de proximidade intensa, de luz e cor, onde, na verdade, existe um olhar de zoom fotográfico, que enriquece, a dinâmica da sucessão de imagens. Ritmo. As mãos.
A musicalidade e a sonoridade do filme é cativante. Sentimos as gotas de chuva na sua dimensão cristalina e a sua sonoridade como um hino da natureza. O drama e a beleza de mãos dadas.
Não são precisas palavras. Bastam aquelas imagens da chuva torrencial a cair sobre a cidade, as inundações que tudo arrastam, para sentirmos o tema das alterações climáticas com toda a percepção, a saltar no nosso pensamento. É real.
Uma cidade onde uns sentem os efeitos das inundações, com as águas a rebentar a rede de esgotos, que recebem tudo vindo de enxurrada, outros, na mesma cidade, estão tranquilos e indiferentes. Quantas vezes já gravamos, na memória, estas imagens terríveis em cidades do Brasil, Venezuela, Angola, Espanha, Portugal, França, Inglaterra, China, India. Outrora estas imagens eram acontecimentos pontuais, de tempos a tempos, agora fazem parte do nosso quotidiano, neste mundo global.
Sentimos com imagens vivas e imponentes a sensação que a cidade está a naufragar. Isso são os efeitos das alterações climáticas. Não são invenção.
Um filme que nos proporciona duas viagens em simultâneo. Uma por dentro da natureza humana. Outro por dentro da humanidade. O microcosmos. O macrocosmos.
Está ali o ser humano nas suas ambições, no ter, no parecer. No não olhar a meios para atingir fins. O ser humano, até sente qualquer coisa na consciência, mas, adiante. A sobrevivência, a tudo obriga. O ser humano no seu calculismo. As diferenças sociais. Os dramas humanos. Os traumas. Os fantasmas. O homem que ama, é o mesmo que mata.O ódio e o amor, de mãos dadas. Os cheiros. As emoções. As vaidades. O snobismo. O pedantismo. Nada do que é humano, verdadeiramente humano, nada do que é a realidade quotidiana do mundo de hoje – do salve-se quem puder - está ausente neste filme. O ser humano está dentro de todas as imagens pensadas ao pormenor, de tal forma que, grandes planos são eles mesmos portadores de mensagens – olhamos aqueles pés descalços nas águas da chuva, dolorosamente, quase como poesia, quase como tragédia. O sublime da fotografia.
Há cenas de grande beleza e ternura, de raiva e dor, que nascem de forma esplêndida, e, cativam-nos. Sorrimos. Sentimos a vida e a morte. Mergulhamos por dentro de um beijo apaixonado, ou de uma caricia de amor. A violência tem tanto de real como de inesperada, pode nascer de um cheiro. É a expressão dos sentimentos em conflitos, que se acumulam e explodem.
Um filme onde o acaso e a necessidade se cruzam de forma constante. Um filme que deixa clara uma mensagem, por exemplo, que podemos fazer planos, podemos ser calculistas, podemos programar contextos, mas, por muito que se programe - valendo, ou não valendo, a pena fazer planos - de facto, na vida real, por vezes, basta um acontecimento que nós não controlamos - as forças da natureza - para que todos os planos percam sentido e se altere completamente o rumo da história. Às vezes o calculismo, as sacanices, resultam. Mas um dia pode sair a tiro pela culatra. É vida. Um temporal pode desfazer os planos. Friamente. Tragicamente.
Um elemento de reflexão no filme é o mundo das novas tecnologias, particularmente as telecomunicações. Registamos que uma família pode não ter comer em casa, pode estar desempregada, pode passar fome, não pode, isso não, estar sem telemóvel e sem acesso à internet. O telemóvel é uma arma, é um braço, é o olhar, é a boca, é continuidade e parte integrante do ser humano. Está no centro da vida do mundo de hoje, quem não tem telemóvel e acesso à internet, não tem vida.
É terrível esta dependência humana. Essa noção da cultura e de formação humana, centrada no acesso às fontes do Google. Basta ir ao google e tudo se sabe, não é preciso apreender, basta consultar o dito e qualquer é um é Mestre ou Doutor. Ali está tudo, um mundo que se constrói assim em visões, no parecer em vez de ser. Ilusões. Ficções. O falso. O mundo de parasitas.
Mas, na verdade, a questão central do filme gira em torno dos valores do mundo financeiro, dos contrastes entre o híper luxo e a híper pobreza. Todos sonham em ser ricos. A felicidade reside no capital. O dinheiro que coloca o ser humano em fuga, lutando pela sobrevivência, na cave, resiste, mas não existe. O ter. O mundo onde tudo tem um preço. É por isso que, em certo momento, sentimos que as horas extraordinárias, não pagam a humilhação nem a perda de dignidade.Os ricos que tudo compram. Precariedade. Os pobres que querem ser ricos. Os ricos que humilham os pobres. Os ricos que despedem, os que usam apenas como carne para canhão, para os servir. Os pobres que se matam pela sobrevivência. A consciência de cada um reside no sobreviver. O conflito no mundo de hoje é entre o capital financeiro dominante, exuberante, e a força do trabalho volátil, degradante e precária. O fosso entre pobres e ricos está claro no filme, entre a opulência e a miséria.
Em certos momentos do filme dei comigo a pensar não em ricos, até porque somos um país onde os ricos contam-se pelos dedos, mas, sim, nos novos ricos que, no micro mundo, na verdade, pensam e agem como querendo ser ricos, pedantes, sobranceiros. Os ricos-pobres que sonham em ser ricos. É vida.
O final do filme é empolgante, e ocorreu-me ao pensamento aquela frase, nos dias da troika, daquele banqueiro que dizia que o povo – “ai aguenta, aguenta”.
Esse final de um sonho, estudar, juntar dinheiro, comprar uma grande vivenda, enquanto não se consegue que remédio se não viver na cave, porque é mesmo isso, por muitos planos que se façam, podes ter muitos sonhos e esperança, depois, há essa realidade, a vida, que vai adiando os sonhos, em lutas e esperanças adiadas – Até lá, aguenta-te!
Um filme para ver, sentir e reflectir, sobre os tais temas centrais do mundo de hoje – internet, mundo financeiro, alterações climáticas. E, naturalmente, ao tema central de hoje e de todos os tempos- o ser humano, que odeia e ama, para viver ou apenas sobreviver.
António Sousa Pereira














