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Ala moço, que se faz tarde!Por António Sousa Pereira
Barreiro

O alar da rede era uma festa de sonoridade, de energia humana, do fazer trabalho, com emoção e paixão.
Aquele era um cântico que era a expressão de um rio com vida, de uma terra que tinha sorrisos. Gente de trabalho. Camaradas de uma só voz. Porque todos os homens do mar são camaradas, no fazer e no ser. Construindo - Amor, Liberdade e Afectos.

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Ala moço, que se faz tarde! Por António Sousa Pereira Barreiro

Por Jornal Rostos

Quando era criança, ali, junto às margens do rio da minha infância, sentava-me e deliciava-me com aquele imenso movimento de traineiras e enviadas, rumo ao mar, ao fim da tarde, ou na sua chegada da pesca pela manhã. Era uma romaria de cores que enchia o meu olhar, que ficava colorido de uma alegria enorme, feita de vida, muita vida, uma vida que era sentida no rebentar das ondas nas muralhas e no movimento ondulante dos botes, balouçando, junto ao areal.
Recordo estes momentos, e, também, aquela lenga, lenga, cheia de musicalidade, cantada pelos pescadores, junto ao cais, para puxar as redes para terra, um cântico enérgico, com os sons em eco, soando ao ritmo dos movimentos das mãos e na força do braços – “óh leva, Óh leva, vai, óh leva, óh leva, vai”.
Era o alar das redes. Puxar as redes para terra.
Eram gritos cheios de musicalidade, de humanidade. Eram gritos de cada um e de todos, juntos, em coro a cantar, num cântico que se forjava para unir a força dos braços, numa corrente de energia ritmada. Todos alando. Cantando. Vivendo.
Era um cântico de sons únicos que, ainda hoje, tantos anos passados, escuto em eco nos meus nervos, no centro do pensamento - “óh leva, óh leva”.
Escuto os sons e na minha imaginação vejo as redes subindo rente à muralha e a crescer num monte nas margens do Guadiana.
O alar da rede era uma festa de sonoridade, de energia humana, do fazer trabalho, com emoção e paixão.
Aquele era um cântico que era a expressão de um rio com vida, de uma terra que tinha sorrisos. Gente de trabalho. Camaradas de uma só voz. Porque todos os homens do mar são camaradas, no fazer e no ser. Construindo - Amor, Liberdade e Afectos.
Alar é isso, é puxar para cima, é subir, é voar, é crescer, é ir, é erguer, é elevar-se. Alar é ter asas.

Ontem, junto à minha janela, um pássaro esteve por ali no beiral, num cântico feito de poesia. Deliciei-me. Uma das coisas que mais gosto é quando dou comigo a sentir a poesia a voar nas asas de uma gaivota, ou escutar um verso no chilrear de um pássaro, ou, apenas, sentir um poema desabrochar por dentro do brilho dos olhos em flor, sejam azuis, verdes ou castanhos. O poema sente-se no olhar.

Levantei-me e aproximei-me da janela, o pássaro pressentiu-me, abriu as asas e voou, rasgando o azul, com um cântico, trinado, como quem se despede a cantar, beijando no silêncio que toca o coração, aquele que não se diz, só se sente.
Olhei e pensei : Ala moço, que se faz tarde!
Sorri!

António Sousa Pereira

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