Dia Mundial da PoesiaIsto é o meu corpo
Por Rute Pio Lopes
Barreiro

Por Jornal Rostos
Isto é o meu corpo
O corpo tem degraus,
todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve
O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?
Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar
In "A noite abre meus olhos - Poesia reunida”
José Tolentino de Mendonça
As entrelinhas deste soberbo poema, que convido a reler, deixam no ar perguntas pertinentes e respostas ambíguas.
Nesse contexto, quero referir-me aos mistérios do corpo, do acumulado de desempenhos interiores à sobreposição de funções passando pelas interseções magicamente elaboradas dentro de nós. Na verdade, é a variedade de enigmas e misteriosos desígnios que o corpo concebe que me levou a divagar!
Façamos uma triagem de entre todas as partes e concentremo-nos no coração.
Esse musculo fundamental e expoente máximo da estrutura física humana tem, para além desta função fisiológica, uma faceta simbólica. E, convenhamos, é esta que lhe atribui mais popularidade.
Atribuímos, pois, ao coração, a responsabilidade de quase todas as decisões, desdizendo a razão, derrogando a seriedade desta e contrariando a sobriedade que lhe é intencionalmente reconhecida.
Afinal não é a razão um bem incorpóreo, um item abstrato? De onde pode advir-lhe a competência para roubar o vedetismo de forma tendenciosa?
Se deixássemos ao livre arbítrio do corpo a possibilidade das escolhas da vida, faríamos certamente uso da ligação direta ao coração facultando aos olhos a captura mágica dos instantes, aos ouvidos a livre receção dos sons, ao palato a destrinça dos sabores (agridoces) e recolhendo dos aromas circundantes a predisposição para usar as extremidades das mãos e reunir, finalmente, todos estes predicados nas sensações mais puras!
E as respostas às questões simples tornar-se-iam suficientemente claras. Numa extensiva interpretação poética, o braço que toca num outro, abraça, as pernas que entrelaçam noutra dupla convidam ao afeto, as mãos que se estendem aceitam o compadrio do afago e os olhares leem e retribuem o estado animoso do compartimento esquerdo do peito.
Assim sendo, se a razão não se serve da humildade dos sentidos e é amiúde pródiga em argumentação, quiçá incoerente, só lhe resta aproveitar os momentos de divisão do coração para reinar em cada um de nós.
Mas se nos permitirmos assentir que ao coração é admitida a repartição, não por fraqueza, mas porque intrínseca lhe é a aptidão de se dividindo multiplicar sem beliscar a sua função, então esse intervalo de tempo não deixará de convergir no sentido fraterno.
No fundo, é a benigna coexistência interior do binómio (coração/razão) que nos distingue enquanto seres humanos. Quem subjuga o coração perde-se na razão!
Rute Pio Lopes














