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Crónica – AlmadaA minha rua, um dia na vida

De manhã, quando Paulo sai de casa, depara-se com o cenário habitual: o elevador não funciona. De fato vestido e mala de escritório na mão, lá percorre a contragosto as escadas que o levam desde o seu sétimo andar até à porta do prédio, e à rua para lá desta. É o começo de mais um dia, de trabalho, de aulas, de ócio – depende de quem o vive.

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Crónica – Almada A minha rua, um dia na vida

Por Jornal Rostos

Paulo tem como o destino uma empresa em Lisboa, do outro lado da ponte. Considera, justamente, que é a uma ponte de distância, que a sua vida se encontra. Vir para a margem sul do Tejo é para ele uma necessidade. A necessidade de por a vida em suspenso.

No átrio do prédio cruza-se com a mulher da limpeza. Chama-se Jennifer, não que habitualmente lhe perguntem. Cabo-verdiana emigrada, veio sob a promessa de uma vida melhor, para ela e para os filhos. Tem-na conseguido, mas nem por isso deixa de pensar em Mindelo, a sua terra natal, e em como lá, mesmo com dificuldades, pelo menos tinha um nome.

Quando a limpeza da manhã acaba, Jennifer sai, cruzando-se com Eduardo, o barbeiro que, justamente àquela hora, abre o seu estabelecimento. Não é nenhum Mãos-de-Tesoura, mas pela suas mãos passam os cabelos e barbas de todos os rapazes e homens da rua, do mais respeitado ao mais escarnecido. É também escritor nas horas vagas, um facto que partilha com a clientela, mesmo que estes não perguntem.

O seu último cliente antes da pausa de almoço é Quim, Almadense de berço que nunca conheceu outra rua que não aquela. Nunca teve grandes notas – não era mau aluno, os professores é que não iam com a sua cara. O álcool levou-o ao desemprego, e o desemprego ao álcool. Ultimamente tem ajudado no café do lado, tomando conta do espaço quando o proprietário se ausenta. O pagamento é uma bifana e uma mini – ordenado chorudo para quem não tem mais.

É Quim que está no café quando, a meio da tarde, Marta faz a sua paragem habitual para comprar gomas. Estuda na escola secundária a 100 metros dali, e as gomas que ali compra são a desculpa perfeita para ficar à conversa com os amigos depois das aulas, com a leveza dos despreocupados. Hoje o teste de História correu-lhe mal, mas não lhe dá importância; as perguntas que lhe fazem na escola não são as que lhe interessam de qualquer forma.

Marta pouco dormiu na noite anterior. A recolha do lixo atrasou-se, e o barulho do camião impediu o descanso da rua. Vítor, o condutor do camião, também queria ir para casa ter com a filha, mas não pôde até o trabalho estar concluído. Para incredulidade de alguns, até gosta do que faz. Após uma juventude passada na prisão, vê nas altas horas da madrugada e naquele camião do lixo algo que nem todos têm: uma segunda chance.

Esta rua, como qualquer outra, encerra em si mesma um mundo. É destas pequenas histórias, destes rostos, que se constrói uma comunidade. Todas juntas e ninguém dá por elas, mas remova-se um fio da tapeçaria e fica logo um espaço por preencher. Que o diga Paulo, que ficou até tarde a fazer horas extraordinárias no escritório, outra vez. Regressado a casa, depara-se assim que entra no prédio com um papel que responde à sua questão: o elevador continua sem funcionar. Naturalmente.

André Antunes

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