Eleições Autárquicas 21 - Visões para a cultura no BarreiroDependerão da vontade política e prioridades dos eleitos

Por Jornal Rostos
Antes de mais quero agradecer ao Jornal Rostos, fiel depositário da história do Barreiro das duas últimas décadas e ao seu director, António Sousa Pereira, por quem fui desafiada a colocar questões aos candidatos à Presidência da Câmara Municipal do Barreiro sobre um tema, acerca do qual gostaria de ter respostas mais precisas. Como a Cultura é um tema que me é caro, coloquei a seguinte questão:
«Tendo em conta que a cultura é, simultaneamente, um produto social e um factor de socialização e de desenvolvimento humano, e que a cultura, e a produção e difusão de bens culturais constitui, por isso, uma componente fundamental para a identidade, o desenvolvimento e a afirmação própria das sociedades. Quais são os eixos para a cultura no Barreiro para os próximos quatro anos? Em que áreas culturais vai a autarquia investir e desenvolver? Há novos equipamentos projectados?”
Nas respostas veiculadas pelos candidatos há que relevar uma quase unanimidade na importância de assuntos como o Património Histórico e Moageiro, o Movimento Associativo, a Promoção dos Artistas Locais, a Cultura em Rede e as Escolas. O alinhamento quanto a estes assuntos revela que estão identificadas as áreas em que é preciso investir na Cultura no Barreiro.
O candidato do Partido Socialista, Frederico Rosa, começou por referir, nas suas respostas, o investimento feito na Cultura e comparou-o com o que se passava durante a gestão CDU, considera os valores “desrespeitadores da nossa identidade”. Com alguma curiosidade fui à procura de dados e encontrei na Pordata em https://www.pordata.pt/Municipios:.
Despesas da Câmara Municipal do Barreiro em cultura e desporto (%)
Despesas em cultura e desporto em % do total das despesas
2009 - 8,8%
2010 - 5,2%
2011 - 8,6%
2012 - 5,9%
2013 - 7,4%
2014 - 3,8%
2015 - 6,7%
2016 - 8,1%
2017 - 5,2%
2018 - 5,3%
2019 - 4,8%
Fontes de dados: DGO/MF - Base de Dados DOMUS (2009) | Contas de Gerência do SIIAL - Sistema Integrado de Informação da Administração Local (a partir de 2010)
INE - Inquérito ao Financiamento Público das Actividades Culturais das Câmaras Municipais (até 2012) | Inquérito ao Financiamento das Actividades Culturais, Criativas e Desportivas pelas Câmaras Municipais (a partir de 2013)
Fonte: PORDATA
Sabia que no município do Barreiro, em 2019, 4,8% das despesas da autarquia destinaram-se à cultura e ao desporto, valor inferior ao de 2009 (8,8% do total das despesas)
Olhando para os dados, concluo que não será bem como Frederico Rosa diz, e a gestão CDU, mesmo com a limitação da “Lei dos Compromissos” (2012), teve uma despesa com a cultura e desporto superior à do PS.
Segundo Frederico Rosa os objectivos para o próximo mandato serão aproximar as escolas do Património Histórico, dar continuidade a projectos iniciados no presente mandato, como a Fábrica, o Jazz no Parque e a formação artística dos mais desfavorecidos. Nas propostas do PS, de salientar ainda, a visão da construção de um Teatro Municipal que esperemos não seja como o parque temático ou o cheque cultura tão apregoados na campanha de 2017.
Carlos Humberto de Carvalho defende que sendo o trabalho da CDU assente na participação e cidadania, irão criar um grupo de trabalho sobre cultura, estimulando a participação dos agentes culturais na definição de políticas culturais locais.
Algumas das propostas que apresenta passam pela fixação no concelho de profissionais do sector cultural, a criação de um Centro de Artes Cénicas e Performativas, de uma Rede de Centros Interpretativos do Património Municipal e de uma rede de exibição de cinema independente. Além disto propõe o lançamento de um projecto para uma nova Biblioteca Municipal.
Bruno Vitorino e o PSD propõem a criação de um Museu sobre a História do Barreiro, e a Carta Municipal do Património, projectos estes que além de potenciarem a edução e cultura, promovem o turismo e a recuperação do património. A Academia das Artes e Ofícios, inserida no ensino oficial, é outro projecto que já em 2017 fazia parte do programa do PSD.
Daniel Bernardino, candidato do Bloco de Esquerda defende à semelhança de Frederico Rosa a criação de um Teatro Municipal, propõe a recuperação de um edifício histórico para a instalação do mesmo, no caso, o Palácio de Coimbra.
A preservação do passado e dar a conhecer e valorizar o espólio industrial, não esquecendo a “Real Fábrica de Vidros Cristalinos” em Coina, são áreas, que segundo Daniel Bernardino não podem ser esquecidas. Propõe ainda, a implementação de espaços de livre criação artística, bem como o acesso gratuito a equipamentos culturais e bilhetes de família com preços mais acessíveis.
Lurdes Santos, candidata do Partido Pessoas-Animais-Natureza, defende um programa de desenvolvimento de competências na área cultural e artística de forma a estimular o espírito crítico de quem assiste à actividade cultural. Outra proposta é a criação de um fundo autárquico para a compra de obras de artistas, como incentivo às actividades criativas locais. Defende ainda a dinamização dos espaços culturais já existentes, nomeadamente os do movimento associativo em detrimento da criação de novos espaços, com o argumento de que “As atividades culturais são mais ricas quando partilhadas”.
Já o candidato do CDS-PP Hélder Leal Rodrigues, defende que as artes sejam a marca de água do Barreiro. Para que isso aconteça propõe a realização de um grande evento que congregue todas a áreas culturais, apenas com artistas barreirenses, ficando, assim, o Barreiro conhecido como um centro cultural de referência. Propõe ainda a construção de um anfiteatro público, ao ar livre, para usufruto das entidades e associações culturais do concelho. Outra vertente é a promoção da reciclagem como forma de incentivar o acesso à cultura através da acumulação de pontos convertíveis em bilhetes para eventos culturais.
Marta Trindade do CHEGA quer criar um portfólio de artistas barreirenses (desde a arquitetura, fotografia, desenho, escultura, pintura, escrita, música, dança, teatro e cinema), e constituir uma equipa de trabalho capaz de divulgar o Barreiro e Portugal em qualquer parte do mundo. Paralelamente propõe criar o Programa Escola Cultural para alunos do 1.º e 2.º ciclo, com recurso a artistas locais, que promova o enriquecimento curricular, estabelecendo uma estreita ligação entre o Movimento Associativo e as Escolas. Para a candidata as associações e coletividades são uma parte essencial de um trabalho em rede com os serviços municipais.
Relativamente aos equipamentos, quer recuperar o Convento da Madre de Deus da Verderena para usufruto da actividade cultural dos artistas do Barreiro.
Jorge Martinho, candidato do LIVRE, quer um Museu da Cidade, um Teatro Municipal e de uma nova Biblioteca. Para a existência de uma política cultural bem definida, o candidato propõe a criação de um Conselho Consultivo Municipal da Cultura. E ainda, a criação de uma Bolsa Municipal de apoio a estudantes, bem como a projectos culturais junto da comunidade escolar.
Em conclusão:
As visões e propostas para a cultura no Barreiro, nos próximos quatro anos, dependerão sempre da vontade política dos eleitos, e da prioridade que estes lhe derem. Em tempos de dificuldade, temos como exemplo a pandemia que ainda nos assola, a cultura ficou sempre para o fim. Esperemos que, passado este tempo estranho, se possa priorizar a Cultura como o principal alimento da Alma.
Anabela Carreira
Nota - Aqui fica o comentário de Anabela Carreira às respostas dadas pelos candidatos à presidência da Câmara Municipal do Barreiro, às suas perguntas. O agradecimento do jornal «Rostos» a Anabela Carreiro, pelo contributo que proporcionou na abordagem da importância da cultura na vida da comunidade e para o futuro do Barreiro. Obrigado!
S.P.














