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A inspiração ficou mais pobrePor Ricardo Cardoso
Setúbal

Fernando Manuel Pereira, poeta, artista plástico, desenhador, jornalista, escriba, autodidacta e setubalense a tempo inteiro morreu no passado dia 25 de Agosto, com 77 anos de idade.

4 min de leitura
A inspiração ficou mais pobre Por Ricardo Cardoso Setúbal

Por Jornal Rostos

NASCEU NO SEIO DUMA FAMÍLIA SIMPLES E LIGADA AO MAR.

A sua história de vida passou muito intensamente por acções de luta pela paz no Mundo, defesa de fundamentos sociais e injustiças de toda a natureza. Um caminhante para lá da circunstância organizada chamada tempo.

A arte é um instrumento fundamental para o entendimento dos cadernos de enganos e desenganos do quotidiano obrigatório. Foi, claramente, o caso.

Aprendeu com Zeca Afonso e Luís Pacheco a estar à margem da sociedade burguesa.

Setúbal teve (principalmente nas décadas de sessenta e setenta) dezenas de pessoas que realizaram fortíssimas actividades culturais por fora dos muros do poder.

No fundo, uma nova linguagem, o pasto para um novo paradigma. É sempre assim…

ESTA COISA DE SERMOS POR OBRIGAÇÃO UM PAÍS DE POETAS ESTRAGA A FUNÇÃO DA POESIA.

«Não poucas vezes, denunciou, ao microfone do Arestas de Vento – Magazine de Artes e Ideias (cultivou durante alguns anos uma rubrica semanal de opinião), ter vontade de salvar a poesia ferida em muitíssimos saraus mal arrimados ou encomendados poeticamente»

Desfraldava valores interiores intensos sempre que lembrava a utilidade da sua poesia, antes do 25 de Abril, em recitais (aos quais assistia meio escondido na ultima fila) organizados pela TEIA, grupo de teatro da cidade do Sado, reconhecido, pelo lado da diferença, na nação. O saudoso Actor Encenador Recitador Fernando Guerreiro era um dos pilares dessa estrutura.

(…) A imaginação do vate corre, ainda hoje, em folhas soltas e mil cumplicidades nalgumas memórias imorredoiras.

NUNCA PUBLICOU EM LIVRO.

As noitadas no finado Circulo Cultural de Setúbal valeram copos e uma trilha filosófica ao arrepio das comadres e compadres decorrentes dos mapas infindáveis na mediocridade editada. “Há vírus em todo o lado, uma autêntica doença infecciosa que se espalha entre turistas da palavra”, verbalizava vagarosamente num consolo sem-sabor.

NÃO TEM VERSOS FEITOS PARA INGLÊS VER.

Os literatos das ciências chamam ao gesto harmonia livre.

É IMPOSSÍVEL EXCLUIR A MILITÂNCIA IDEALISTA DA SUA BIOGRAFIA. O PODER POPULAR ACONTECEU NA EXTENSÃO DA ALMA QUE O PREENCHEU.

Possuiu na leitura de cabeceira vários teóricos da revolução, sem esquecer alguns poetas sadinos, entre os quais Constantino Menino e Victor Serra, de quem guardou respeitos e uma nostalgia infinita.

GRAFO 2 PERGUNTAS PARA AS QUAIS NUNCA TIVE RESPOSTA NEM EM PÚBLICO NEM EM PARTICULAR:

-Como é que um homem que faz tudo por explicar o que é correr por fora pinta (por convite) arcos das marchas populares? Uma realização envolvida e envolvente na simetria povo – poder local.

-O que disse a Etelvina Baia (saudosa jornalista) e Pedro Brinca sobre o período revolucionário da cidade do Sado, para a feitura, creio, de um livro sobre a cidade vermelha… e nunca foi publicado?

Entrar no mundo restante do blog de autoria «Etc & Tal» é alvorecer a contraponto desta formatação geral que a todos adultera… sem pedir autorização ao regedor.

CAMINHOS DO VENTO, de Fernando Manuel Pereira

“Casas empilhadas entre o rio e a serra, amontoado de pedras e telhas, ventres de segredos fugidos do fundo da memória em sina de sinais, volteios de vespa, leve sentimento de vertigem, bojo do tempo, zoada a soar como coro em praça vazia, distante, em busca de presas.

Última luz da tarde percorrendo seus mil esconderijos, ruas velhas, itinerários seguidos pelas aves, caminhos invisíveis do vento, astrais, modelando as ondas com habilidosos toques, criador de arte abandonada, cidade de pássaros presos no visco, uniforme mundo de areias e rezas.

Nesta indiferença, vaporosa, fitando-a com olhos vazios, distantes, o mendigo de bordal descosido, vindo de mil outros sítios, diferentes, violados refúgios de estrelas-do-mar, anémonas violáceas, parcos heróis, entende seu rumo de jangada, abandonada, guiada por destino de faróis.”

Ricardo Cardoso

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