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Catarina Neves - Rosto do Ano Área da Comunicação SocialEu posso sair do Barreiro, mas o Barreiro nunca sairá de mim

A propósito da distinção Rosto do Ano 2023, na área da Comunicação Social, Catarina Neves, recorda a sua Rádio Sul e Sueste que - "Deu-me a certeza de querer ser jornalista, profissão que se é sendo ainda mais do que fazendo" - e, também - "o Barreiro que me entregou nas mãos o papiro onde se deve ler o respeito por quem se ergue apesar da dor, por quem olha em frente apesar do machado que quer cortar a raiz ao pensamento."

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Catarina Neves - Rosto do Ano Área da Comunicação Social Eu posso sair do Barreiro, mas o Barreiro nunca sairá de mim

Por Jornal Rostos

Um rosto chamado Barreiro

Temos um rosto que a idade vai desenhando. Não o escolhemos.
Podemos ser o rosto de uma causa, uma luta, uma cidade. A minha chama-se Barreiro. A cidade a sul do rio Tejo, essa parede transparente que nos anos 80 nos afastava do bulício da capital para onde alguns de nós víamos os pais partir, em manhãs ainda escuras, e regressar tantas horas depois, em tardes já escuras.
Os rostos das crianças nascidas nos anos 70 começaram cedo a carregar o legado da esperança trazida pela democracia e a culpa de não saber bem o que era esperado que fizéssemos com ela.
Estudar, mas não levantar o tom que “não vale a pena dar nas vistas”. Integrar movimentos associativos, mas ir cedo para casa que uma rapariga sozinha, à noite… Erguer o punho, mas não a medida da saia que ainda não era o tempo de condenar o piropo que fere.
Dar voz aos rostos foi tarefa que encontrou, no Barreiro, força funda na rádio. O concelho ficou marcado por duas: a Rádio Margem Sul e a “minha” Rádio Sul e Sueste. Tão minha quanto tua e tua e tua. Não tínhamos mais de 14, 15 anos quando começámos a obrigar a caneta a deslizar na folha que tremia nas nossas mãos ao dá-la a ler à Helena Vieira, naqueles sábados de manhã, naquele primeiro andar, daquela Rua Eusébio Leão. Um tremor bom de quem respeita a tarefa, de quem quer ser chamado à responsabilidade quando informa o outro, o senhor ouvinte.

Tínhamos toda a vontade do mundo quando, de auscultadores nos ouvidos, acertávamos à mão o momento exato do começo da música no vinil e dávamos voltas para trás para garantir que a canção não entrava no ar arrastando sons, mas antes dando um perfeito pontapé no silêncio do éter. “Sons, tons e melodias”, sussurrávamos, lábios quase a tocar o microfone.
No nosso “Amor de FM” amámos, gritámos, cantámos, dançámos, aprendemos, rimos, chorámos e voltámos a rir.
Bebemos o alento num copo sem fundo que o Fernando Sobral estava sempre pronto a partilhar.
Saboreámos a entrega de quem luta por tudo o que se leva a peito, como o do Sr. Cabrita, artífice da vontade de fazer mais e mais pela rádio que ajudou a criar.

Enfim, da escolha fizemos desafio e juntos ganhámos contra as drogas que, nos anos 80, urdiam patranhas. Contra a fome que se escondia. Contra a solidão que tudo mina.
A Rádio Sul e Sueste deu-me a Anabela Conceição, a Edite Singens, a Paula Magalhães, a nossa “injovip” (se não sabem o que é procurem!) Sónia Santos, o Rui Morgado, o Jorge Morgado e a Cristina Azedo. E tantos que vieram uns pelos outros e com os outros.
Deu-me a certeza de querer ser jornalista, profissão que se é sendo ainda mais do que fazendo.
Mas foi o Barreiro que me entregou nas mãos o papiro onde se deve ler o respeito por quem se ergue apesar da dor, por quem olha em frente apesar do machado que quer cortar a raiz ao pensamento.

Da protegida escola primária no Lavradio à desafiante Escola Alfredo da Silva, ali junto à Avenida da Praia (onde tantas vezes demos as mãos e trocámos sonhos) fui respirando apesar da poluição provocada pelas fábricas da CUF, tão bem retratada naquela profunda, fumarenta e neorrealista fotografia de Eduardo Gageiro. Ainda estive no grupo de alunos do 10º ano que inaugurou a Escola do alto Seixalinho com a Paula Gonçalves e a Joana Faísco de quem guardo a alegria do riso na caricatura afiada dos que amamos. E o tanto que eu queria hoje saber o que é feito da Sónia, apelido perdido nas curvas da memória, companheira de ardis, inteligência rápida, beleza sublime como sublimes são tantos corpos africanos.

Somos também feitos da massa dos que passam por nós e nos inquietam como o professor Calisto que mais do que ensinar filosofia, levava-nos a fazer perguntas, a base da minha vida profissional hoje.
Foi duro, mas foi pleno.
E venham de lá hoje dizer-me que eu posso sair do Barreiro, mas que o Barreiro nunca sairá de mim como se fosse pena pesada. Venham! Que eu mando-vos comer bolas de manteiga depois de irem à Cova Funda jantar e aos Penicheiros jogar bilhar embalados por copos de moscatel barato!
E pensar que foi um acaso os meus pais algarvios terem assentado arraiais no Barreiro, cidade feita de tantos rostos como o teu e meu.

Catarina Neves

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