A Zeca Afonso e aos meus pais: Leonel Coelho e Maria CelinaPor Maria das Dores Nascimento
Alhos Vedros

Por Jornal Rostos
O meu pai não era amigo destas saídas em que se dormia fora e eu ainda não lhe tinha pedido. Procurava o momento certo que não havia meio de chegar. O meu pai não parava em casa. De dia trabalhava até tarde, à noite estava na Academia ou nos outros mil sítios em que dividia a atividade politica e associativa.
-Celina, amanhã o Zeca vem cá jantar e trás um amigo o Benedito, que é espanhol e à noite vão cantar e tocar na Academia. Vou ao ginásio avisar e tu avisa quem for de confiança. (mais ou menos estas palavras)
A minha mãe fez a sua sopa de feijão com couve, o resto não recordo. O Zeca adorava a sopa da minha mãe. Lembro-me de reparar que os sapatos do Zeca não tinham atacadores. Enquanto jantávamos cantou-se um bocadinho em português e castelhano para aquecer a voz, e encontrei o momento perfeito para falar ao meu pai da ida à serra da estrela. Perante tão distintas testemunhas, o meu pai, com um sorriso de desconforto, e sob o olhar de todos não teve coragem de dizer que não. E pelo piscar de olho que recebi do Zeca, percebi que a minha estratégia não lhe tinha passado ao lado, ou não fosse ele o Zeca.
A noite na Academia foi uma maravilha. Casa cheia de gente, palavras e música. A ideia que tenho é que se cantou a Grândola em Portugal pela primeira vez em público. Parece que estou a ver o Zeca a anunciá-lo, discretamente, com aquele meio sorriso estampado no rosto.
Maria das Dores Nascimento
23/02/2023 -36º aniversário da morte de José Afonso














