O 3º CONGRESSO DA OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICAO BARREIRO E O 25 DE ABRIL
Por Alfredo Matos

Por Jornal Rostos
Contudo, a agressão da polícia em Aveiro não diminuiu o êxito do 3º Congresso, pelo contrário, a sua importância e o conteúdo das teses expostas e respectivas conclusões marcaram os acontecimentos posteriores e cimentaram a unidade e o ânimo dos democratas portugueses.
Assinalam-se algumas acções de enorme importância, no Distrito de Setúbal, logo que terminou o 2º Congresso que se realizara em Maio de 1969. No final desse ano, nas Eleições para deputados à Assembleia Nacional que envolveu centenas de activistas, em acção política intensa, incentivando ao recenseamento, planeando a campanha eleitoral, os locais das sessões de esclarecimento e a fiscalização do escrutínio como garantia da prevenção de qualquer fraude.
Esta acção de fiscalização fez com que em algumas secções de voto, com um recenseamento manipulado, a C.D.E. tenha vencido o partido do governo, apresentando como exemplo o concelho do Barreiro em que na C.D.E. votaram 1.732 eleitores (61%) e no partido do regime votaram 1.086 (39%).
Em 1970, Maio, milhares de pessoas dos concelhos do Barreiro e da Moita juntaram-se no Largo do Cemitério do Lavradio, para assinalar pacificamente o dia 1º de Maio, foram violentamente reprimidas pela polícia de choque à bastonada e a tiro. Que gigantesco 1º de Maio! Que nível de descontentamento popular contra o regime!
Dois dias depois, a 3 de Maio, centenas de pessoas iniciaram uma marcha pelas ruas do Barreiro, encaminhando-se para a rua Dr. Manuel Pacheco Nobre em direcção ao Alto do Seixalinho. Em pouco tempo já eram milhares, erguendo a sua voz de solidariedade e pela libertação de 2 cidadãos barreirenses – Alfredo de Matos e Álvaro Monteiro – que de madrugada tinham sido presos pela Pide.
Quando a multidão atingiu o agora chamado Largo 3 de Maio (topónimo criado pelo Município em homenagem ao acontecimento) foi brutalmente assaltada à coronhada pela G.N.R. causando feridos graves.
Também nessa madrugada, a Pide prendera mais 6 cidadãos, perfazendo 8 – os 2 no Barreiro, 1 em Alhos Vedros – Leonel Coelho –, 1 na Moita – Staline Rodrigues – e 4 em Setúbal – Carlos Lopes, Fernando Carlos, Gonçalves Chora e Zacarias Fernandes, aumentando a indignação popular contra o regime fascista. Salienta-se que o Barreiro esteve sob ocupação militar pela G.N.R. desde 1943 até 1974.
Estes 8 cidadãos foram levados em carro celular para a cadeia da Pide no Porto, isolados em calabouços, na era da chamada “Primavera marcelista”. Para interrogarem estes 8 cidadãos foi formada uma brigada de agentes da Pide, assassinos confessos, chefiados por Inácio Afonso, Chefe de Brigada, e comandados pelo Inspector Mortágua. Era preciso fazer falar os presos e forçá-los a assinar autos com falsas acusações. No meu caso, fui informado pelo guarda prisional de serviço: “amanhã, dia 22, o Sr. Alfredo vai lá para cima para o interrogatório, é o último”.
Assim foi. Até ao fim de Maio, no último piso, no edifício no início da Rua do Heroísmo, dia e noite, selvaticamente torturado, em especial no período das duas às cinco da manhã, sob estátua, espancado, chicoteado com cabo metálico envolto em borracha que se foi desfazendo com o uso, cesto de lixo enfiado pela cabeça, queimaduras na cara, com cigarros, pontapés nas canelas, bofetadas violentas e, por vezes inesperadas que chegavam a atingir os olhos, violências que se repetiam, dia a dia, para que assinasse autos mentirosos, sucessivamente recusados. No fim do mês, trouxeram-me para Caxias, algemado, num Volkswagen não identificado e continuou o isolamento, os interrogatórios e os espancamentos, pelo chefe de brigada, Inácio Afonso, na sede da Pide, na base de pontapés nas canelas, aos gritos “não falas, queres ser como o Gervásio”. Só fui para junto dos meus companheiros em meados de Julho.
A 22 de Julho de 1970, dia do meu 36º aniversário, Zeca Afonso dedicou-me “Por Trás Daquela Janela”, Poema cujo manuscrito me entregou no final desse ano, quando saí. Pelo Natal de 1972, com música do próprio Zeca, foi editado em disco.
E aproximava-se a data da realização do 3º Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, de 4 a 8 de Abril de 1973. As acções preparatórias iniciaram-se antes do ano em que ocorrera. Os democratas reforçam os seus contactos por todo o país, promovendo encontros com vista à participação na estrutura do seu funcionamento.
Imensas tarefas se colocam para planear a preparação do evento: a escolha dos temas das teses, incentivar a sua elaboração, classificá-las de colectivas e para isso submetê-las à votação em assembleias dos activista e planear a sua apresentação nas várias secções do Congresso.
Do distrito de Setúbal foram apresentadas sete Teses, todas colectivas, uma Comunicação de Jovens Operários Sobre os Problemas da Construção Civil, por um grupo de Jovens operários da Baixa da Banheira e, ainda, um Manifesto ao Povo do Distrito de Setúbal, apresentado pelos Candidatos a deputados oposicionistas do Círculo Eleitoral de Setúbal. As sete Teses abarcam um grande conjunto das questões que se colocavam à governação do país: Situação da Mulher Trabalhadora no Distrito de Setúbal; Corporativismo e Luta dos Trabalhadores; Situação e Perspectivas dos Trabalhadores no Distrito de Setúbal; Problemas de Habitação e Urbanismo numa Zona Operária; Elementos para uma Reforma Democrática do Ensino; Situação dos Jovens no Distrito de Setúbal; Situação e perspectivas Políticas nos Planos Nacional e Internacional; Uma perspectiva Eleitoral (1969); Perspectivas e Meios de Acção da Oposição Democrática.
A Tese, “Situação e Perspectivas dos Trabalhadores do Distrito de Setúbal”, de que o signatário foi co-autor, foi apresentada na Secção B, Estruturas e Transformação das Relações de Trabalho, desenvolvia com detalhe a situação social do distrito, em especial do Barreiro, com um extenso conjunto de conclusões e propunha ainda fortalecer um largo número de acções, tais como, lutar contra os monopólios e o imperialismo e lutar contra o aumento do custo de vida, contra a guerra colonial, pela conquista das direcções dos sindicatos, pelo direito à greve, pelas liberdades fundamentais e pela libertação dos presos políticos.
O signatário participou nas comissões coordenadoras do 3º Congresso, dirigindo os trabalhos da Secção B, Estrutura e Transformação das Relações de Trabalho, com outros democratas, nomeadamente, Francisco Marcelo Curto, Caiano Pereira, Santos Júnior, António Ferreira Guedes e Helena Neves
O 3º Congresso da Oposição Democrática, que decorreu no Cineteatro Avenida, em Aveiro, durante 5 dias, de quarta a domingo, a um ano e dezassete dias do 25 de Abril, constituiu uma grande vitória das forças democráticas, com efeitos políticos futuros importantes e cujas teses e conclusões muito contribuíram para o Programa do Movimento das Forças Armadas.
No passado dia 1 de Abril, a União de Resistentes Antifascistas Portugueses, URAP, celebrou, na cidade de Aveiro, os 50 anos do 3º congresso que se realizou nessa cidade, em que participaram muitas centenas de pessoas.
Alfredo de Matos














