A embarcação soltou-se do cais com gemidos e o som inconfundível das turbinasPor Rute Pio Lopes
Barreiro
Contrariando o hábito, vou hoje mais cedo, por motivos profissionais.
Acedo à sala de embarque encorpando o pelotão que não coube, por excesso de lotação, no barco que partiu há minutos. Não me fez diferença, aliás preferi assim.
Por Jornal Rostos
Durante o trajecto que me trouxe até ao terminal fluvial conferi, pela consulta rápida à aplicação instalada no telefone, o que a minha disposição matutina me conferenciou quando abri em par a janela da cozinha e vi Lisboa no horizonte.
Pois sim, está uma manhã bonita, de semblante primaveril, sem se sentir calor mas já sem o arrelio dos casacos compridos ou dos cachecóis.
E como gosto deste tempo ameno!
Entro agora no barco, vou avançando em passo vagaroso e aproveitando a vantagem de ser das primeiras passageiras, sigo pela coxia central até á primeira fila de bancos, indecisa entre qual dos lados escolher, acabo por me sentar no assento da ponta do lado esquerdo! Hoje escolho viajar á proa, parece que estou sentada na primeira fila numa sala de espetáculo com efeito 3D! À minha frente tenho uma janela a toda a largura deste espaço, dividida em três painéis, permite-me assomar o olhar a ambas as margens.
A embarcação soltou-se do encosto aborrachado do cais Barreirense com os gemidos característicos e o som inconfundível das turbinas a funcionar, deixando o rasto de espuma no pico da ondulação impulsionada da maré cheia.
Logo logo me atrai a atenção todo o lado direito da paisagem, são os moinhos da praia de Alburrica, os velhinhos cilindros caiados que as águas do rio vão ensopando nas bases a cada compasso de tempo. Silenciosamente, quase sem darmos conta, os moinhos estão praticamente dentro de água, aquando da subida das marés.
Do lado oposto o cais fluvial do Seixal, ficou para trás dando a vez à praia de areia fininha, a seguir avista-se na costa a vegetação rasteira do Alfeite até se impor na atenção a estrutura vermelho ferrugem, gigantesca e sisuda, do que foi o mundo Lisnave.
Retomo a paisagem dextra e à vista tenho lá ao fundo a elegante ponte Vasco da Gama, desta vez não há bancos de areia ou ilhotas como lhes chamo, nem mesmo os mariscadores enfrentando o lodo para abastecer os estabelecimentos de restauração das redondezas.
E é assim que se entra no Mar da Palha, com a oscilação mais evidente do leito morno e profundo do Tejo misturado com as frias águas oceânicas da costa atlântica.
Novamente a bombordo, surge por inteiro a carismática ponte 25 de abril, a mais antiga ligação rodoviária entre as margens e que a esta hora é corolário da azáfama e do trânsito matutinos. Lá está o Cristo-Rei encimando a colina Almadense, tomando conta dos destinos crentes, enfatizando a paisagem Lisboeta.
Faltam escassos minutos para o barco atracar no pontão nascente da estação Sul e Sueste. O pequeno arco que o barco descreve na água, uma manobra de preceito e abordagem ao cais, permite usufruir duma das vistas que mais aprecio de Lisboa.
É impossível ficar indiferente a esta soberba visão da cidade! É uma perspectiva de eloquência silenciosa, tão difícil de descrever, mas tão fácil e imediata de sentir. Já viajo entre as margens do Tejo há sensivelmente 34 anos (com regularidade diária) e apesar de nem sempre dar atenção ao exterior, sei e sinto o quão extraordinária é a forma como Lisboa recebe quem chega do rio.
É como observar uma tela pintada de realidade, é o perfeito delinear da cidade, o ondulado das colinas em contraste com o céu azul e no sopé a água calma do mesmo tom, o entremeio é um rendilhado e compacto casario de variadíssimos formatos, a olhar permanentemente a vida que passa nas efémeras marés!
Se o semicírculo da embarcação tivesse sido efetuado do lado oposto, do poente, então diria que Lisboa me esperava, descalça e traquina no Cais das Colunas, para me dar as boas-vindas e por entre entre a graça do grasnar das gaivotas, me abrir a porta mais enigmática… só assim se percebe a grandiosidade do Terreiro do Paço, do Arco Triunfal da Rua Augusta, dos Torreões e de toda a simbologia associada.
O perfil ribeirinho da capital obteve diversas e bem merecidas transformações, principalmente na última década. Está actualmente mais bonito, mais convidativo, ganhou carácter com as benfeitorias, mantendo na traça e na sua essência o profundo encanto de Cidade da Luz!
Rute Pio Lopes














