O meu cravo de abrilPor Rute Pio Lopes
Barreiro

Por Jornal Rostos
Quando entrei em casa, na madrugada ainda menina do dia 25, consumava a minha versão pouco convincente daquela melodia icónica de abril, enquanto retirava do interior do móvel, a especial jarra herdada da minha mãe. Coloquei no seu interior, à vez, cada belíssimo cravo e sorri, agradecida e satisfeitíssima diante do resultado. Que bonito!
Recordei então o serão. O parque da cidade encheu-se de gente festiva para assistir ao espetáculo musical duma banda nacional em voga e depois do animado concerto deu-se a aguardada "chuva de cravos vermelhos". Algumas destas flores, cujos caules longos se quebraram entre as muitas mãos em riste, caíram do palco sorteadamente nas minhas mãos, diretamente da elite camarária.
Com um franco sorriso e os delicados cravos na mão foi vivido o momento sempre emocionante da evocação da simbologia da revolução! Cantei diluindo a minha voz com a multidão síncrona os temas alusivos.
Dias depois, ao mudar a água da jarra, recoloquei- a no centro da mesa de jantar, e sentei-me no sofá com as flores em perspetiva. E esse momento de pausa apercebi-me da dificuldade em obter cravos vermelhos nas vésperas desta data, e num pensamento contíguo ocorreu-me que em 2024 comemorar-se-ia o meio século... que data significativa!
Bem, posto isto, que melhor opção tinha senão tentar resolver antecipadamente esse assunto sem dependência do comércio florista?! Pois então... cultiva-los! Claro!
Procurei no meu "Borda d´Agua" e descobri que indicavam certo dia de fevereiro como referência à plantação de cravos. Guardei dois e deixei-os secar para usar as sementes no tempo certo. Assinalei a data na agenda do telemóvel e fiquei descansada!
Acontece que em meados de janeiro passado resolvi procurar as ditas sementes, mas não as encontrei onde, supostamente, me lembrava de as ter arrumado! Que aborrecimento!
Enfim.... Só me restava agora a alternativa de comprar sementes. Mas essa ideia rapidamente se tornou num grande óbice pois não encontrei nenhuma loja que as tivesse em stock, com sorte consegui adquirir um pacotinho que dizia conter sementes de cravos de várias cores (incluindo vermelhos), e que com muita convicção deitei à terra ainda em janeiro.
À priori, o plano de ter pelo menos uma mão cheia cravos vermelhos estava fragilizado, por conseguinte, à laia de “plano B” tentei a plantação por estaca a partir de cravos vermelhos. Foi a custo que os consegui arranjar, mas não sem ter procurado em bastantes floristas. E acreditem, foi bem longe que os fui encontrar…
E o tempo passou, os dias foram sucessivamente crescendo, o frio recolheu-se para deixar a primavera instalar-se com toda a pompa e esse hiato de tempo foi também aproveitado pelos meus cravinhos!
E eis que chegou um abril bem disposto! Mas a bem dizer, para nós o tempo foi demasiado célere, ou seja, a minha fausta plantação cravina ainda está em crescimento. Acontece que, apesar de se terem desenvolvido com bastante desembaraço, os meus cravos são, em meados do mês, umas viçosas hastes verdinhas com quase um palmo de altura, a prometer toda a graciosidade, mas sem flor…
Ora, contra factos não há argumentos. Eu terei cravos, certamente muitos, também creio sem margem de dúvida, que os rubros não me vão dececionar, porém, o objetivo que ambicionava será impossível de alcançar.
E assim, neste especial aniversário da revolução e da comemoração da nossa liberdade lá terei que tentar comprar pelo menos um exemplar do aromático e elegante cravo vermelho ou renovar a esperança de o receber nessa noite que se aproxima!
Rute Pio Lopes
16abril2024














