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BARREIRO - José António Martins15 anos de saudade, uma vida que permanece

Há pessoas que partem, mas que nunca deixam verdadeiramente de estar entre nós. Permanecem nas memórias, nas histórias que contamos, nos lugares que frequentaram e, sobretudo, no coração de quem teve a felicidade de as conhecer. Hoje, dia 11 de agosto, passam quinze anos desde que José António Martins, o “Flecha, como era carinhosamente conhecido, no mundo do hóquei em patins, nos deixou. Quinze anos… e, no entanto, parece que foi ontem que partiu.

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BARREIRO - José António Martins 15 anos de saudade, uma vida que permanece

Por Jornal Rostos

Nascido em Estremoz, a 10 de maio de 1935, foi na sua terra natal que nasceu também a paixão que haveria de marcar toda a sua vida: o hóquei em patins.
Ainda muito jovem, numa época em que a vida era difícil e as oportunidades escassas, começou a trabalhar dentro do ringue, alugando patins. Mas, enquanto trabalhava, os seus olhos estavam sempre presos ao jogo. Observava, aprendia, sonhava. E foi assim, entre dificuldades e sonhos, que começou a construir uma história que o levaria muito mais longe do que alguma vez poderia imaginar.
Como em Estremoz não existia, naquela época, uma equipa de juniores, destacou-se em jogos particulares até atingir a idade que lhe permitiu ingressar nos seniores. Vestiu a camisola da sua terra, mas apenas por uma época. A CUF já andava, como ele próprio gostava de contar, a “namorá-lo”.

Aos 19 anos partiu para o Barreiro e ingressou nos quadros da CUF, onde viria a construir grande parte da sua carreira. Foram cerca de vinte anos dedicados ao hóquei, conciliando a paixão pelo desporto com o trabalho de escriturário na empresa, procurando a estabilidade necessária para construir a sua vida e a sua família.
Essa mudança não foi, contudo, isenta de mágoas. O próprio contava que foi criticado, até pelo pai, por ter “virado as costas” ao clube da terra que o vira nascer. Mas José António sabia que estava também a escolher uma oportunidade. E abraçou-a com a determinação que sempre o caracterizou.

O resto é história.

Foi chamado à Seleção Nacional em 1958, participou na Taça Latina, em Barcelona, e representou Portugal em diversas competições internacionais. Vestindo a camisola da CUF, conquistou campeonatos nacionais da 1.ª divisão e, em 1968, representou o clube na Taça dos Campeões Europeus.
Mas foi ao serviço da Seleção Nacional que viveu alguns dos momentos mais altos da sua carreira. Em 1962, em Santiago do Chile, sagrou-se Campeão do Mundo. Seis anos mais tarde, em 1968, tornou-se Campeão da Europa, protagonizando um feito que ficou registado na história da competição: marcou seis golos numa só primeira parte, um recorde do campeonato.
Participou também nos Jogos Luso-Brasileiros, passando por São Paulo, pelo Maracanã e pelo Recife. E, depois de deixar de jogar, continuou ligado ao hóquei, treinando jovens e seniores do Grupo Desportivo da CUF e sendo convidado para selecionador da Seleção de Lisboa.

Porque há paixões que não terminam quando termina a carreira.

Depois da aposentação, José António continuou a frequentar o pavilhão, matando saudades do hóquei e das pessoas que faziam parte desse mundo. Durante largos anos, esteve ligado ao Pavilhão Vítor Domingos, do Grupo Desportivo Fabril, onde geriu o bar. Ali continuou a ser uma presença familiar, próxima e amiga, mantendo viva a ligação ao desporto que tanto amava. E também passou a ser famoso pelas suas sandes de torresmos.

Em 2007, a Câmara Municipal distinguiu-o com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Prata, reconhecendo uma vida de dedicação ao desporto e à comunidade.
E o seu nome ficou ainda mais profundamente ligado ao clube quando o Grupo Desportivo Fabril, antigo Grupo Quimigal e CUF, homenageou a sua memória atribuindo o nome “José António Flecha” à escola de formação de hóquei em patins.
Talvez não exista homenagem maior do que ver o nosso nome associado às novas gerações, àqueles que começam agora a percorrer o caminho que um dia também nós percorremos.

José António gostava de recordar os seus tempos de jogador. E, entre tantas histórias, contava uma que dizia muito sobre o seu talento e sobre a forma apaixonada como vivia o hóquei:
“Na Taça da Índia, na nossa poule, marquei sete golos contra o Cascais e foi isso que levou a chamarem-me à Seleção. Aquele stick parecia que tinha olhos. Nunca vi um stick assim, a bola ia para onde eu queria!”
E acrescentava, com o orgulho próprio de quem viveu intensamente aqueles momentos:
“Marquei alguns 23 golos na Taça da Índia.”
Era assim que guardava as suas memórias: com brilho nos olhos, como se o tempo não tivesse passado.

No dia 11 de agosto de 2011, José António enfrentou a sua derradeira derrota. Mas, para quem o conheceu, essa não foi verdadeiramente uma derrota. Porque há vidas que não acabam no dia em que o coração deixa de bater. Continuam naqueles que aprenderam com elas, que as amaram, que ouviram as suas histórias e que continuam a dizer o seu nome.

Passados quinze anos, a saudade permanece.

Permanece em Estremoz, a terra onde nasceu o menino que sonhava com um stick na mão. Permanece no Barreiro, onde construiu uma vida e uma carreira. Permanece nos pavilhões onde tantos o viram jogar. Permanece no clube que lhe perpetuou o nome. E permanece, acima de tudo, na memória da família e dos amigos.
Hoje, ao recordar o meu tio, não quero apenas recordar o campeão do Mundo, o campeão da Europa, o jogador que marcou golos e conquistou títulos.

Quero recordar o homem.

O homem que começou a trabalhar ainda criança, que lutou pelas suas oportunidades, que nunca abandonou a paixão pelo hóquei, que viveu intensamente cada conquista e que deixou atrás de si uma história feita de esforço, talento, coragem e dedicação.
Quinze anos depois, a saudade continua. Mas também continua o orgulho.
Orgulho de ter tido na família alguém que fez do seu sonho um caminho e desse caminho uma história.
E enquanto houver alguém que conte quem foi José António Martins, enquanto houver uma camisola, um stick, um pavilhão ou simplesmente uma memória que nos faça sorrir ao lembrar o seu nome, ele continuará connosco.
Porque a morte pode levar uma pessoa, mas não consegue apagar uma vida bem vivida.

Até sempre, tio José António.
Com saudade e orgulho,

Clara Soares
Sobrinha

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