BARREIRO - José António Martins15 anos de saudade, uma vida que permanece

Por Jornal Rostos
Nascido em Estremoz, a 10 de maio de 1935, foi na sua terra natal que nasceu também a paixão que haveria de marcar toda a sua vida: o hóquei em patins.
Ainda muito jovem, numa época em que a vida era difícil e as oportunidades escassas, começou a trabalhar dentro do ringue, alugando patins. Mas, enquanto trabalhava, os seus olhos estavam sempre presos ao jogo. Observava, aprendia, sonhava. E foi assim, entre dificuldades e sonhos, que começou a construir uma história que o levaria muito mais longe do que alguma vez poderia imaginar.
Como em Estremoz não existia, naquela época, uma equipa de juniores, destacou-se em jogos particulares até atingir a idade que lhe permitiu ingressar nos seniores. Vestiu a camisola da sua terra, mas apenas por uma época. A CUF já andava, como ele próprio gostava de contar, a “namorá-lo”.
Aos 19 anos partiu para o Barreiro e ingressou nos quadros da CUF, onde viria a construir grande parte da sua carreira. Foram cerca de vinte anos dedicados ao hóquei, conciliando a paixão pelo desporto com o trabalho de escriturário na empresa, procurando a estabilidade necessária para construir a sua vida e a sua família.
Essa mudança não foi, contudo, isenta de mágoas. O próprio contava que foi criticado, até pelo pai, por ter “virado as costas” ao clube da terra que o vira nascer. Mas José António sabia que estava também a escolher uma oportunidade. E abraçou-a com a determinação que sempre o caracterizou.
O resto é história.
Foi chamado à Seleção Nacional em 1958, participou na Taça Latina, em Barcelona, e representou Portugal em diversas competições internacionais. Vestindo a camisola da CUF, conquistou campeonatos nacionais da 1.ª divisão e, em 1968, representou o clube na Taça dos Campeões Europeus.
Mas foi ao serviço da Seleção Nacional que viveu alguns dos momentos mais altos da sua carreira. Em 1962, em Santiago do Chile, sagrou-se Campeão do Mundo. Seis anos mais tarde, em 1968, tornou-se Campeão da Europa, protagonizando um feito que ficou registado na história da competição: marcou seis golos numa só primeira parte, um recorde do campeonato.
Participou também nos Jogos Luso-Brasileiros, passando por São Paulo, pelo Maracanã e pelo Recife. E, depois de deixar de jogar, continuou ligado ao hóquei, treinando jovens e seniores do Grupo Desportivo da CUF e sendo convidado para selecionador da Seleção de Lisboa.
Porque há paixões que não terminam quando termina a carreira.
Depois da aposentação, José António continuou a frequentar o pavilhão, matando saudades do hóquei e das pessoas que faziam parte desse mundo. Durante largos anos, esteve ligado ao Pavilhão Vítor Domingos, do Grupo Desportivo Fabril, onde geriu o bar. Ali continuou a ser uma presença familiar, próxima e amiga, mantendo viva a ligação ao desporto que tanto amava. E também passou a ser famoso pelas suas sandes de torresmos.
Em 2007, a Câmara Municipal distinguiu-o com a Medalha de Mérito Municipal – Grau Prata, reconhecendo uma vida de dedicação ao desporto e à comunidade.
E o seu nome ficou ainda mais profundamente ligado ao clube quando o Grupo Desportivo Fabril, antigo Grupo Quimigal e CUF, homenageou a sua memória atribuindo o nome “José António Flecha” à escola de formação de hóquei em patins.
Talvez não exista homenagem maior do que ver o nosso nome associado às novas gerações, àqueles que começam agora a percorrer o caminho que um dia também nós percorremos.
José António gostava de recordar os seus tempos de jogador. E, entre tantas histórias, contava uma que dizia muito sobre o seu talento e sobre a forma apaixonada como vivia o hóquei:
“Na Taça da Índia, na nossa poule, marquei sete golos contra o Cascais e foi isso que levou a chamarem-me à Seleção. Aquele stick parecia que tinha olhos. Nunca vi um stick assim, a bola ia para onde eu queria!”
E acrescentava, com o orgulho próprio de quem viveu intensamente aqueles momentos:
“Marquei alguns 23 golos na Taça da Índia.”
Era assim que guardava as suas memórias: com brilho nos olhos, como se o tempo não tivesse passado.
No dia 11 de agosto de 2011, José António enfrentou a sua derradeira derrota. Mas, para quem o conheceu, essa não foi verdadeiramente uma derrota. Porque há vidas que não acabam no dia em que o coração deixa de bater. Continuam naqueles que aprenderam com elas, que as amaram, que ouviram as suas histórias e que continuam a dizer o seu nome.
Passados quinze anos, a saudade permanece.
Permanece em Estremoz, a terra onde nasceu o menino que sonhava com um stick na mão. Permanece no Barreiro, onde construiu uma vida e uma carreira. Permanece nos pavilhões onde tantos o viram jogar. Permanece no clube que lhe perpetuou o nome. E permanece, acima de tudo, na memória da família e dos amigos.
Hoje, ao recordar o meu tio, não quero apenas recordar o campeão do Mundo, o campeão da Europa, o jogador que marcou golos e conquistou títulos.
Quero recordar o homem.
O homem que começou a trabalhar ainda criança, que lutou pelas suas oportunidades, que nunca abandonou a paixão pelo hóquei, que viveu intensamente cada conquista e que deixou atrás de si uma história feita de esforço, talento, coragem e dedicação.
Quinze anos depois, a saudade continua. Mas também continua o orgulho.
Orgulho de ter tido na família alguém que fez do seu sonho um caminho e desse caminho uma história.
E enquanto houver alguém que conte quem foi José António Martins, enquanto houver uma camisola, um stick, um pavilhão ou simplesmente uma memória que nos faça sorrir ao lembrar o seu nome, ele continuará connosco.
Porque a morte pode levar uma pessoa, mas não consegue apagar uma vida bem vivida.
Até sempre, tio José António.
Com saudade e orgulho,
Clara Soares
Sobrinha














