Mário Soares com jovens do MontijoDevem encarar a política como algo que enobrece o ser humano

Por Jornal Rostos
Ao som de cânticos de Natal, que por esta altura animam as ruas do Montijo, Mário Soares reuniu-se com diversos jovens e outros apoiantes que não quiseram perder a presença do candidato à presidência na cidade do Montijo.
Partindo de Lisboa de barco, chegou à hora marcada a um dos cafés mais centrais da cidade, onde já o esperavam dezenas de jovens e não só. Desde o início do encontro, Mário Soares sublinhou que não desejava que este encontro se limitasse a “ser eu a fazer um discurso, vocês baterem palmas e depois eu ir-me embora. Quero que seja um encontro com cidadãos do mundo, que tem de ser dedicado aos mais jovens, que têm tido uma ampla participação na minha campanha”.
Aliás, Mário Soares não deixou de referir que tem obtido um maior apoio entre a camada mais jovem de eleitores, “entre os 18 e os 25 anos, do que entre aqueles da minha geração. Mas isso tem uma explicação: é que preocupo-me com os jovens e dou-lhes a devida atenção, e em relação aos mais velhos, estes deixaram de se preocupar com a vida e apenas ligam à televisão. E quando me vêem, na minha idade a percorrer o país sempre com energia, interrogam-se como é que um velho como eu tem pedalada para isto e têm inveja”.
Todo este encontro com os jovens teve sempre uma faceta mais divertida e aberta do candidato, apesar do cansaço algumas vezes evidenciado na voz.
Jovens perguntam
E como a noite era deles, os jovens aproveitaram para fazer algumas questões a Mário Soares, que não deixou o seu crédito de orador e professor por mãos alheias e deu mesmo uma aula de História e Geografia, respondendo a uma questão acerca da Lusofonia “a relação afectiva entre os povos que falam português”.
O Brasil, as novelas e Timor foram temas abordados neste assunto, elevando o facto de se ser português. “Muitas vezes o patriotismo apenas vem ao de cima quando há jogos de futebol e surgem então muitas bandeiras nacionais. Mas ser português não é estar apenas aqui, e os portugueses estão em todo o mundo, organizados em comunidades para preservarem as nossas tradições e a língua”.
A questão seguinte foi para que o candidato deixasse uma mensagem aos jovens que o apoiam e Mário Soares foi célere em apontar as suas principais preocupações: “o que mais me preocupa em relação aos jovens é a droga e a falta de emprego que encaram quando saiem das universidades. Falta alguma capacidade às empresas para compreenderem a sua função social e aproveitarem os jovens, com ideias renovadas. Por outro lado, os jovens também necessitam de uma cultura cívica e não encaram a política como algo nobre, que enobrece o ser humano por trabalhar em algo que dignifica. Se for eleito como presidente, conto fazer váiras jornadas com os jovens de Portugal e dar a entender isso à sociedade civil.”
Soares é fixe
Sob este lema, o candidato foi aplaudido durante as suas respostas às questões colocadas, uma das quais versando a sua enorme energia para enfrentar uma campanha eleitoral e uma legistatura de quatro anos.
“Em relação a isso não tenho qualquer responsabilidade. Uns nascem com bons genes e outros nem por isso, e por essa razão alguns conseguem manter uma pedalada maior do que outros”.
A emigração e a imigração foram também temas abordados nesta reunião, ao que Soares alertou para a “importância de termos sido um país de emigrantes durante muitos anos. Por isso temos de apoiar o melhor possível quem nos procura em busca de melhores condições de trabalho. Estas pessoas são necessárias ao país, e realizam os trabalhos que os portugueses já não querem fazer, tal como aconteceu décadas atrás com os protugueses que partiram para França. Portugal pertence actualmente à União Europeia e como tal tem o dever de receber as pessoas que aqui entram, o mesmo se passando com todos os outros países. Por esse motivo, esta é uma questão que tem de ser regulada em conjunto, porque estas pessoas também ajudam a desenvolver o país e têm de ser tratadas com dignidade.”
À medida que a noite se prolongava, Soares diminuia o tempo das suas respostas, talvez poupando-se um pouco para a viagem que o esperava ainda até ao Porto, mas terminou a noite com uma piada de alentejanos que divertiu todos os presentes e apontado ainda o dedo à televisão pela quantidade de propaganda e “lixo televisivo que passa diariamente e que prejudica acima de tudo os mais jovens. Mas um dia os portugueses vão começar a exigir mais e melhor programação, porque não são estúpidos e sabem muito bem ler nas entrelinhas, porque não podemos esquecer toda a cultura de que temos de saber ler bem o que não é dito e que aprendemos durante a ditadura.”
Maria do Carmo Torres














