O regresso de Graciano Simões“A Lixeira” o novo espectáculo do TEB
O TEB levou à cena a peça “A Lixeira” de Miguel Barbosa e no final da estreia conversámos com Graciano Simões.

Por S.P.
Numa breve conversa, com Graciano Simões, procurámos conhecer as motivações que o levaram a optar por esta peça que tem um texto difícil de interpretar.
“Esta peça foi escolhida devido ao seguinte pormenor. Nós estávamos a ensaiar uma peça de Luís Francisco Rebelo - “É urgente o amor”, para ser exibida durante o mês de Março - Mês do Teatro – só que a um mês da representação houve um elemento que, sem dizer nada, deixou o grupo, ainda ensaiámos mais um mês esperando que aparecesse alguém que o substituísse, mas não apareceu ninguém, por conseguinte, tivemos que fazer uma coisa que eu não gosto nada de fazer, substituir peças. Teve que ser.
Apareceu-me esta peça que tinha uma coisa a favor, os personagens que existiam na peça encaixavam nas pessoas que nós tínhamos na altura.
Então começamos a mexer na peça. Só que esta peça é muito complicada, é muito arrevesada de escrita, porque o autor é pintor. Eu dele só conheço esta peça e “O Palheiro”.
Tivemos que fazer “A Lixeira” à nossa maneira. Olha, fez-se aquilo que se podia fazer.”
Esta peça parece-me que é como um murro em cima da mesa, da parte de ti, enquanto encenador, ou não é... ?
“A interpretação que eu vi da peça, não sei se é a mesma interpretação do autor. Tentei por em claro aquilo que eu vi que estava no subtexto. Não sei se acertei, se não, se era essa a ideia do autor, se não era, mas, para mim esta ideia estava lá.
A minha função, a minha sensibilidade, foi tirá-la, essa ideia, e pô-la visível do público. Se consegui, ou não, não sei.
Sentes-te o quê nesta peça, o pintor ?
“Não, não sinto nada. Sinto-me um veículo de transmissão. Sinto-me o encenador que pega no livro que está escrito e põe esse livro em cena. Um livro vivo.”
O pintor não é uma personagem que te marca nesta peça?
“Não. Este pintor é pintor frustrado, um pintor cheio de sombras e pesadelos.
Não estou a colocar a pergunta nesse sentido de frustração...
“Eu estava a pegar na peça e a uma certa altura cheguei à conclusão que o pintor estava a funcionar como os militares que foram para Angola e Moçambique e que, ainda hoje, passados tantos anos, ainda hoje têm sombras, pesadelos, têm estigmas do que se passou lá, e a pergunta que eu fiz a mim próprio foi a seguinte : Será que os nossos artistas que levaram quarenta anos a fazer as suas obras de arte, sejam elas quais fossem, esses artistas sentirão ainda esse estigma da censura?”
Era nesse sentido que eu colocava a pergunta, tu sendo um homem do teatro que encenou antes do 25 de Abril, num tempo de censura, e depois do 25 de Abril, estarás ao levar esta peça a cena, para tentar encontrar uma resposta para ti próprio a essa pergunta, a esses estigmas ?
“Repara. As peças no tempo do fascismo eram peças intocáveis. Eu consegui meter algumas peças em cena que eram peças muito avançadas, como “João Gabriel Borkman”, e, depois do 25 de Abril, pus “A Forja”, pus “O Felizmente à luar”, pus isso tudo, pus sempre peças que podia pôr em cena, peças com um cariz muito próprio.
Não me considero um fazedor de arte. Porque as pessoas fazedoras de arte, tais como poetas, pintores.”
Desculpa lá Graciano, tu nesta peças tens momentos de encenação que são arte, verdadeiros quadros colocados no espaço...
“Obrigado. Sim, essas cenas foram aquelas que eu vi, pela minha sensibilidade, que podia construir.
E, sabes, as coisas hoje não correram muito bem, houve coisas que falharam, espero que no próximo sábado venham a correr melhor.
Eu vi a peça assim, com os quadros vivos, os quadros a saírem separados. Achei que os quadros deveriam ser pessoas vivas.
Os quadros são vivos, porque para o próprio pintor, ele dizia, que os quadros caíam, com a trepidação e eram a consciência dele. Foi isso que eu tentei pôr em cena”.
Este trabalho do TEB vai estar em cena até quando ?
“Este trabalho apareceu muito tarde, mas vai estar em cena até ao segundo sábado de Julho, porque há pessoas com as férias marcadas.
Em Setembro, no segundo sábado de Setembro, volta à cena, até o público querer.”
Vais ganhar o Barreiro para ver este trabalho?
“Não sei. O TEB antigamente as pessoas iam ao 22 de Novembro. Hoje, sinto que as pessoas ainda não estão conquistadas para a Oficina de Teatro Mário Pereira, e ainda há muitas pessoas que não sabem onde é a Oficina de Teatro Mário Pereira. Tem que haver uma grande divulgação.
Nós fazemos o melhor que podemos, fazemos sempre o melhor possível, como há 42 anos que o fazemos. Fazemos sempre o melhor possível.”
Foi uma breve “conversa de dois minutos” no final da estreia do novo espectáculo do TEB –Teatro de Ensaio do Barreiro, que funciona no Oficina de Teatro Mário Pereira, perto do Largo das Obras, ali ao lado do Restaurante “A Transmontana”.
Para marcações telefone para 21 207 46 85 ou para 919 427 088.
Fica aqui o convite e acredite que vale a pena assistir a este novo espectáculo do TEB – Teatro de Ensaio do Barreiro.














