João Raio – Presidente da Junta de Freguesia de Santo André“Nunca procurei nada, entrei na política por acidente”

Por Cátia Pacheco
Foi numa aldeia perto de Vila Viçosa que o actual presidente da Junta de Freguesia de Santo André nasceu, no seio de uma família com poucos recursos. Foi muito cedo que teve de começar a trabalhar no campo. Até à 4ªclasse teve duas professoras muito religiosas que “incutiram-me a solidariedade e o espírito de amor pelo próximo”, recorda João Raio, no entanto mencionou ainda, que com todas as dificuldades da vida, mais tarde percebeu que “Deus” não era igual para todos, “uns eram filhos de um deus maior, outros de um deus menor”.
Veio para Lisboa trabalhar como merceneiro, mais tarde ingressou na armada onde esteve durante seis anos. Como as letras sempre lhe tinham despertado o interesse, voltou a estudar e tirou o antigo 5ª ano.
Casou em 1969, altura em que vem viver para o Barreiro, “fiquei logo apaixonado pelo Barreiro” refere.
Tem duas filhas e dois netos, e é com muita emoção que fala da sua família, pois considera que “para andarmos nestas andanças, a família tem de ser mais forte.”
Em 1970, através de um concurso, é admitido para a TAP, onde esteve durante 26 anos como empregado administrativo e técnico qualificado.
Ligado ao associativismo, foi dirigente do Futebol Clube Quinta da Lomba, e depois do 25 de Abril membro da Comissão de moradores do bairro. Fez parte da primeira lista de eleições democráticas em 1976, entrando para a Junta de Freguesia como Tesoureiro. Pertenceu à Assembleia Municipal e esteve na direcção do Galitos.
Em 1990 foi convidado como terceiro da lista, para a Junta de Freguesia de Santo André, o primeiro da lista adoeceu, o segundo recusou o cargo, e a 1 de Março de 1991, João Raio assumiu a Presidência da Junta de Freguesia de Santo André. “Depois cria-se o gosto e entrasse nesta vida, nesta luta. Os autarcas das Juntas são das pessoas mais insatisfeitas” salienta João Raio, um dos autarcas mais antigos do concelho.
O primeiro contacto com a política
Por todas as dificuldades que teve de passar no Alentejo, toda a pobreza e mesmo “escravatura” fizeram João Raio tomar, pela primeira vez, consciência de que o mundo não era o que lhe tinham “pintado”.
Na armada contactou com várias personalidades ligadas à política, “tinha um amigo, José Eduardo da Silva, que frequentava a colectividade da Cova da Piedade, onde já se fazia um trabalho político, e tinham conhecimento de outra realidade.”
O primeiro contacto com o Partido Comunista ocorreu com a entrada nas colectividades e através do contacto com amigos.
No dia 25 de Abril de 1974 ficou radiante, “saímos para a rua e fizemos uma festa no Barreiro como nunca visto” recordou o Presidente da Junta de Freguesia de Santo André.
Balanço de 2 anos de mandato
Quando, em 1991 João Raio tomou posse, encontrou uma Freguesia com grandes dificuldades, em termos de asfalto, passeios, zonas verdes, a degradação das escolas, entre outros. Passados estes treze anos, “a diferença é abismal, demos um grande salto qualitativo”, mencionou o Presidente.
Foram feitas intervenções nas escolas, foi feito em polidesportivo em 1993, que foi agora reconstruído, foram criadas várias zonas verdes.
João Raio garante, “estou vaidoso com todo o trabalho que foi feito nestes anos.” O Presidente considera que, depois das condições mínimas de sobrevivência estarem satisfeitas, é necessário manter-se um nível de limpeza, desenvolver o aspecto cultural, através de passeios com os idosos, e são estes trabalhos que têm vindo a ser desenvolvidos nestes dois últimos anos.
O apoio às colectividades, a aquisição de um armazém para se poder armazenar o material dos operários, a festa de comemoração dos 30ª aniversário da Freguesia e a intervenção em pequenas obras são factores relevantes destes dois anos.
A Junta de Freguesia de Santo André destaca-se ainda pelo seu balcão virtual, que permite pedir documentos através da Internet, “tentamos ser auto-suficientes” faz questão de ressalvar João Raio.
Ao nível das dificuldades, o Presidente salienta a falta de bairrismo, de raízes das pessoas, “na área cultural podíamos fazer coisas bonitas”, embora esta seja “uma dificuldade mais sentimental.”
No que diz respeito a dificuldades económicas e sociais, o Presidente destaca a falta de uma escola básica e pré-escolar, um lar de noite para os idosos, equipamento desportivo na área dos Galitos, o acesso da Quinta da Lomba – Casquilhos, o Polis, e a promessa por parte do executivo da Câmara da construção de uma piscina. João Raio ressalva ainda os focos de carência económica que começam a emergir na Freguesia.
Ao nível das relações com a Câmara, “salve algumas excepções, a Câmara Municipal não cumpre o seu papel, mas já não é de agora. Normalmente não somos ouvidos. Falta grandeza de hombridade” refere João Raio.
O Presidente é crítico dizendo que “obra não há, por parte da Câmara, mas ao nível da imagem e propaganda são os maiores, embora a mim não me ensinem nada”.
No futuro, João Raio pretende continuar com o mesmo nível de limpeza, substituir algumas árvores e floreiras e tentar avançar com a construção da escola básica e pré-escolar, e o lar nocturno para os idosos.
Em termos pessoais diz não ter nenhum objectivo político, mas “não sei o que vai acontecer, mas nunca se deve dizer nunca.”














