Projecto - Participação Pública em Larga EscalaBarreiro é o laboratório Europeu
Por Cátia Pacheco
António Câmara alcançou um currículo impar. Sempre ligado à docência na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, deu aulas nos Estados Unidos. Esteve ligado ao estudo de impacto ambiental do Alqueva, à reconversão ambiental da Expo 98 e ao Sistema Nacional de Informação Geográfica. O professor criou a Y-Dreams que diz, “resulta de dez anos de investigação em multimédia, realidade virtual e computação móvel no seio da Universidade Nova de Lisboa”. É ele um dos responsáveis por este projecto que está agora a ser desenvolvido no Barreiro.
Apresentação do projecto
“Nos últimos anos houve um acelaramento na capacidade de processamento informático. Hoje podemos representar uma cidade de uma forma impensável, até ao passado. Na Expo 98 fizemos um voo virtual sobre o país inteiro e para isso foi necessário uma máquina de 70 mil contos, hoje fazemos o mesmo num computador de mil euros, com uma placa gráfica apropriada.
A ideia foi escolher o Barreiro para ser o laboratório do planeamento do princípio do séc. XXI. Este laboratório beneficia desta acelaração que se deu na capacidade de processamento dos computadores.
O que estamos a fazer no Barreiro é utilizar os recursos que a Câmara Municipal dispõe: fotografias aéreas de resolução excelente, cada pixel tem 25 milímetros, estamos quase a visualizar a realidade. A ideia foi pegar nestes recursos e colocar o modelo tridimensional do Barreiro, com uma fotografia aérea realista no computador, numa primeira fase com uni-utilizador.
Este modelo vai permitir o que hoje estamos habituados a ver nos jogos de computador, simular a realidade, consultar informação. Como acontece por exemplo no SIMCITY. Este projecto no Barreiro é a criação de um SIMCITY real.
Este projecto é a nível europeu. Nós vamos para além do modelo tridimensional e das estratégias que tem sido criadas noutros países.
Vamos colocar a base em computador, mas vamos colocar numa vertente que tem sido pouco explorada, porque também tem sido impossível até agora, que é a participação pública em larga escala.”
Os três focos principais do projecto
“O projecto é criar um laboratório de participação pública que vai focar três grandes linhas.
Primeiro, a participação pública com grandes audiências, toda a população que está a voar sobre o Barreiro está a votar à medida que passa diferentes bairros e as diferentes propostas de planeamento. Pode ser feito em larga escala, por exemplo no cinema, na escola. Interacção na internet, com participações individuais.
Segundo, a participação de grupos interessados e técnicos, aqui vamos criar uma mesa que funciona como um ecrã, onde é projectado um modelo tridimensional do Barreiro, e que depois podemos fazer alterações com peças físicas. As acções são com objectos físicos, permite trabalhar sobre um misto de representação real e virtual.
Terceiro, este revolucionário, uma experiência chamada participação móvel. A pessoa passa na rua, por um muppie e visualiza qual vai ser o futuro dessa zona e participa na hora, por exemplo, através de telemóvel. Neste caso ainda vão ser feitas várias experiências, por exemplo, a pessoa ir num transporte público e num ecrã aparecer aquilo que vai acontecer no futuro, na rua onde naquele momento está a passar. Vão ser colocados GPS nos autocarros para reconhecerem onde estão, vão buscar a imagem ao computador, e na hora, as pessoas podem participar.
O laboratório de participação pública faz parte de um projecto europeu, onde estão duas das melhores equipas de holandeses em planeamento urbano, uma equipa catalã, uma belga e uma polaca.
O Barreiro vai ser um município do país que vai mostrar quais são as ideias e onde se vai nestas simulações do futuro.
Este projecto é desenvolvido em conjunto com a Universidade Nova de Lisboa, neste âmbito temos um grupo de estudantes a explorar as ideias mais loucas possíveis, para que o índole experimental seja de facto explorar.
Em termos de resultados concretos, o Barreiro vai dispor de um sistema que ajuda o planeamento e a participação pública impar ao nível internacional.
Este projecto vai ter grande divulgação não só em termos nacional, como também internacional. Tudo o que testarmos no Barreiro vai seguramente para os outros países da Europa.”
Como surgiu o projecto
Foram vários os estudos necessários para desenvolver este projecto, depois da apresentação de um voo virtual que esteve disponível na Expo´98, o professor foi contactado por um grupo de Holandeses que mais tarde propuseram-lhe desenvolver um projecto onde o Barreiro foi escolhido como a cidade laboratório.
“Foi em Abril de 2004 a primeira sessão na Holanda, mas já decorre de experiências anteriores.
O projecto tem a ver com o “Portugal Digital” exibido na Expo 98. Na altura fomos visitados por um grupo de Holandeses, que dois anos mais tarde contactaram-me, dizendo que gostava que fizéssemos o mesmo para a Holanda, mas como o governo caiu, o projecto não avançou, apenas ocorreu um projecto experimental numa região. Com a associação do grupo Português com o Holandês, surgiu a ideia de criar um grupo europeu, e escolhemos uma cidade que pudesse ser um laboratório.
O Barreiro foi escolhido porque, por um lado, a equipa que dirige a Câmara tem uma experiência de planeamento e ordenamento pouco usual, por outro, o Barreiro está numa zona de influência da faculdade, e tem toda a infra-estrutura montada.
O Barreiro está na zona metropolitana de Lisboa e poderá ter a terceira travessia para Lisboa. Penso que o Barreiro vai sofrer uma transformação brutal nos próximos dez anos.
Este projecto vai permitir simular todas essas transformações às pessoas” garante António Câmara.
O papel da Universidade Nova de Lisboa
Todo este desenvolvimento do projecto no Barreiro, decorre de uma parceria com a Universidade Nova de Lisboa que tem vindo desde 1993 a desenvolver estudos neste sentido, “nós começamos a desenvolver estas tecnologias em 93, éramos pioneiros no mundo. Em 95 tínhamos desenvolvido algoritmos que permitiam voar sobre terras, que foram usados mais tarde pela NASA.
Aplicado na EXPO 98, mas como os custos eram elevados, levou a que parássemos essa linha de investigação. Há dois anos retomámo-la.
Investigar a linha da fronteira, puxar o projecto para a frente, é esse o papel da Universidade”, sublinha o professor.
Importância deste projecto para o Barreiro
O Barreiro foi a cidade escolhida para ser o laboratório deste projecto a nível europeu, o que logo a partida poderá trazer grande projecção quer a nível nacional, quer internacional, como cidade pioneira neste projecto.
“Sobre o PDM existe toda a documentação, mas a experiência mostra que o ritmo de pessoas que têm acesso e manifesta a sua opinião é muito restrito, só aqueles que estão verdadeiramente interessados.
Este projecto tem duas componentes importantes, a visualização é tão forte e intuitiva que todas as pessoas percebem o que vai acontecer, e percebendo podem ou não actuar. O projecto estimula a participação pública.
Por outro lado, uma componente também importante é a atracção da juventude, um misto dos jogos, sobre a cidade onde vivem.
Acho que vai ser um projecto com um grande impacto directo.
Também há o impacto indirecto, este projecto poderá constituir um marco, mostrar o trabalho que é feito no planeamento do Barreiro, a nível nacional.
A vantagem é estarmos associados aos Holandeses, são autoridades mundiais a nível de planeamento. Vão divulgá-lo, pois eles já têm toda a máquina montada, estão no centro da Europa. No final do projecto vão realizar uma conferência de imprensa em Amsterdão, e podem dar um enorme impacto internacional.
Há uma componente deste projecto que vai ser desenvolvido numa segunda fase, que pode ser “apaixonante”, possibilidade que vamos dar de criar, de redesenhar o Barreiro do futuro e há várias visões que o Barreiro do futuro pode ter, por exemplo a Quimiparque, podemos ver um futuro estúdio de cinema, ou um campo imenso de novas instalações desportivas.
É esse desafio que eu penso que este projecto pode vir a trazer e que eu penso que vai ser muito atractivo, como o SIMCITY, mas aqui podemos ter visões diferentes, onde todas as pessoas podem participar nessas visões.
O Barreiro vai ter um enorme potencial nos próximos dez anos. Toda a região metropolitana de Lisboa, nas áreas junto ao rio.
Em termos de acessibilidades, havendo uma terceira ponte e o TGV, o Barreiro fica no centro, com ligações a todos os níveis impares.
O Barreiro passa de um passado industrial para um futuro verdadeiramente moderno”, acredita António Câmara.
Aplicação deste projecto noutras regiões
O professor acredita que mais tarde, este projecto poderá ser aplicado a qualquer região da Europa, “o objectivo deste projecto europeu é criar um conjunto de boas práticas e exemplos que possam depois ser reproduzidos em toda a Europa.
Estamos ainda nesta fronteira da simulação tridimensional. Faz parte do próprio contrato do projecto divulgá-lo o mais possível de forma a que possa ser reproduzido na Europa inteira.”
Neste momento a primeira parte do projecto já pode ser apreciada no stand da Câmara Municipal do Barreiro, na MEI, onde está disponível um ecrã gigante e onde se pode fazer um passeio aéreo sobre a cidade do Barreiro, aterrando em qualquer local e tendo uma visualização fantástica dos pormenores dessa zona, ou através do site da Câmara em www.cm-barreiro.pt.














